Para uma mulher que precisa deixar a própria casa para escapar da violência, encontrar um lugar seguro para ficar é parte fundamental do processo de proteção. Em Piracicaba, existe um serviço de acolhimento sigiloso para esses casos, com 15 vagas destinadas às mulheres e seus filhos ou dependentes. A estrutura, porém, funciona fora do município e, para representantes da rede de proteção, ainda há desafios a serem enfrentados no atendimento às vítimas.
A discussão ocorre em meio ao aumento dos registros de violações de direitos contra mulheres na cidade. Entre janeiro e julho de 2026, foram contabilizadas 596 violações, número 40,2% maior que o registrado no mesmo período de 2025, quando foram contabilizados 425 casos. Os dados são do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania e incluem diferentes formas de violência e violações de direitos.
O crescimento dos registros coloca em evidência a necessidade de uma rede preparada para atender desde os primeiros sinais de violência até situações em que a mulher precisa deixar a própria casa para preservar a vida. Para quem atua na área, o acolhimento é uma das medidas necessárias, mas não encerra as necessidades de proteção.
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Estrutura ainda é apontada como insuficiente

A delegada Olívia Fonseca, atualmente afastada das funções para disputar as eleições, afirma que, quando deixou a atuação na Delegacia de Defesa da Mulher (DDM), a situação que conhecia era de ausência de um acolhimento específico para mulheres vítimas de violência doméstica dentro do município.
Segundo ela, havia situações em que mulheres que precisavam de abrigo durante a noite eram encaminhadas provisoriamente para outros espaços até que fosse possível encontrar uma alternativa de acolhimento. Olívia ressalva, porém, que não sabe se esse procedimento continua sendo adotado atualmente.
Para a delegada, independentemente da solução emergencial, Piracicaba precisa avançar na oferta de uma estrutura específica para mulheres em situação de violência, especialmente aquelas que precisam deixar suas casas acompanhadas dos filhos. “Não há aqui em Piracicaba um local específico para mulheres vítimas de violência doméstica, um abrigo onde elas possam ficar seguras, com os filhos”, afirmou.
A preocupação de Olívia também envolve a estrutura da própria DDM. Segundo ela, a unidade atende uma demanda elevada e funciona em um prédio que não oferece as condições necessárias para garantir a privacidade das mulheres durante o atendimento. Na avaliação dela, a construção de uma nova sede para a delegacia deveria caminhar junto com o fortalecimento da política de acolhimento às vítimas. “Sem a estrutura mínima, que é o abrigo para vítimas de violência doméstica, nós estamos atrasados na causa”, afirmou. A DDM funciona atualmente na Rua Alferes José Caetano, 1.018 - Centro
Proteção vai além do abrigo

A presidente do Conselho Municipal da Mulher de Piracicaba e vice-presidente do Projeto Heroica, Simone Seghese, também avalia que a estrutura de atendimento às mulheres precisa avançar. Para ela, a discussão sobre uma Casa Abrigo faz parte de uma rede que precisa oferecer suporte antes, durante e depois de uma situação de violência.
Simone aponta limitações físicas na DDM e defende espaços que garantam privacidade às vítimas durante os depoimentos. Ela também considera necessária a presença de profissionais como psicólogos para atender mulheres e crianças. Na avaliação dela, porém, a saída de uma mulher de um relacionamento violento depende de condições que permitam a reconstrução da própria vida. O acesso a creches, atendimento psicológico, saúde e autonomia financeira, afirma, também interfere na capacidade de romper com o ciclo de violência.
“Falar da casa-abrigo é um sonho, claro que precisamos, mas nós precisamos de tanta coisa”, afirmou. Simone também defende uma estrutura municipal de coordenação das políticas para mulheres, capaz de articular áreas como saúde, educação e segurança pública. Segundo ela, a rede atualmente trabalha principalmente para manter os serviços existentes, enquanto ainda há dificuldades para ampliar a estrutura de atendimento.

A necessidade de fortalecer a rede de proteção também é relacionada pelas fontes aos casos graves de violência registrados no município. Segundo Olívia, Piracicaba teve 3 tentativas de feminicídio em um período de menos de um mês. A delegada cita os episódios como um alerta para a necessidade de respostas rápidas diante de situações em que a mulher está sob risco.
Simone também relata acompanhar casos de mulheres que precisam deixar suas casas rapidamente para preservar a própria vida e a dos filhos. Para ela, quando não há uma alternativa segura e imediata, a vítima pode permanecer exposta justamente no momento em que decide romper com a situação de violência.
O acolhimento existente
Apesar das dificuldades apontadas pelas representantes da rede, Piracicaba mantém atualmente um serviço de acolhimento para mulheres em situação de violência. A estrutura funciona de forma ininterrupta e é destinada a casos em que há risco de morte ou ameaça e necessidade de afastamento do território de origem. O acolhimento também pode ser feito para mulheres acompanhadas dos filhos ou dependentes.
O encaminhamento ocorre após avaliação da situação de risco e articulação da rede de proteção. Entre os serviços que podem participar desse processo estão o CRAM (Centro de Referência de Atendimento à Mulher), os CREAS e o Centro POP, além do Sistema de Justiça. O atendimento inclui acompanhamento psicossocial, orientação e encaminhamentos para outros serviços.
Em resposta ao Jornal de Piracicaba, a Secretaria Municipal de Assistência, Desenvolvimento Social e Família informou que o município oferece o serviço por meio de parceria com uma organização da sociedade civil, com custeio de recursos públicos municipais destinados à política de assistência social. A unidade está localizada fora de Piracicaba e, por questões de segurança, o endereço e a localização são mantidos em sigilo. Atualmente, são 15 vagas pactuadas, considerando mulheres e seus filhos ou dependentes.
Nos casos em que não há disponibilidade imediata de vaga, a Secretaria afirma que cada situação é avaliada individualmente pela equipe técnica, com articulação da rede de proteção e adoção das medidas necessárias para garantir a segurança da mulher.
A pasta informou ainda que acompanha a demanda e trabalha no aprimoramento e reordenamento da oferta, incluindo o aumento do número de vagas. Sobre a implantação de uma unidade física em Piracicaba, afirmou que, neste momento, o serviço existente garante o acolhimento protegido e sigiloso por meio da parceria estabelecida.
Onde pedir ajuda
Mulheres em situação de violência ou ameaça podem procurar a Delegacia de Defesa da Mulher (DDM), ou qualquer delegacia de polícia. Em situações de emergência ou risco imediato, a orientação é ligar para a Polícia Militar, pelo 190. A Guarda Civil Municipal também pode ser acionada pelo 153, inclusive para atendimento da Patrulha Maria da Penha.
O Ligue 180 oferece orientação e recebe denúncias de violência contra a mulher gratuitamente, 24 horas por dia. O serviço também pode ser procurado por familiares, amigos, vizinhos ou outras pessoas que tenham conhecimento de uma situação de violência. Em Piracicaba, o Centro de Referência de Atendimento à Mulher (CRAM) oferece acompanhamento psicossocial, orientação e encaminhamento para outros serviços da rede. O atendimento funciona de segunda a sexta-feira, das 8h às 17h, na Rua José Ferraz de Camargo, 222, no bairro São Dimas. O telefone é (19) 3374-7499.