ARTIGO

Lugares para onde a mente nos leva

Por Fabiane Fischer |
| Tempo de leitura: 3 min

Existem lugares dos quais voltamos, mas que nunca vão embora de nós. A viagem termina, as malas são desfeitas, as fotografias ficam guardadas e retomamos a rotina. Voltamos aos horários, compromissos e preocupações, mas, de repente, no meio de uma tarde comum, uma música, um cheiro, uma fotografia ou simplesmente um pensamento nos leva novamente para aquele lugar, por alguns instantes, parece que estamos lá e o mais interessante é que não apenas nos lembramos, nós sentimos. 

A mente não arquiva nossas experiências como documentos em uma gaveta. As lembranças estão ligadas às emoções e por isso, algumas perdem a cor e outras permanecem vivas por muitos anos. Guardamos uma paisagem junto com a liberdade que sentimos diante dela, uma música junto com quem estava ao nosso lado, um cheiro junto com a tranquilidade daquele instante. Costumo dizer que a mente também sabe viajar. 

Não se trata de se transmutar literalmente para outro lugar, mas de nos transportarmos mentalmente para uma experiência que continua existindo dentro de nós. Quando fazemos isso com atenção, podemos acessar novamente parte do estado emocional vivido naquele momento. 

Pense em um lugar onde você tenha sido muito feliz. Feche os olhos e reconstrua a cena. Como era a luz? Havia vento? Que sons você escutava? Quem estava ao seu lado? E, principalmente, como você se sentia? Leve, livre, seguro, feliz, em paz? 

Quando acessamos uma memória afetiva, o passado encontra uma passagem para o presente. Sabemos que não estamos mais naquele lugar, mas nosso mundo emocional não funciona apenas pela lógica. Uma lembrança pode provocar sorriso, saudade, tranquilidade e até sensações no corpo. Basta perceber como uma música modifica nosso estado emocional em segundos. 

Na psicanálise, compreendemos que aquilo que vivemos não desaparece simplesmente porque o tempo passou. Nossa história permanece inscrita em nós, nos vínculos, afetos e significados que construímos e isso não vale apenas para experiências dolorosas. Somos marcados pelas perdas e frustrações, mas também pelo amor, pelo acolhimento, pela beleza, pelas viagens e pelos momentos em que nos sentimos profundamente vivos. 

Uma lembrança boa não elimina dificuldades nem resolve conflitos, mas pode interromper, por alguns minutos, o circuito mental em que repetimos preocupações incessantemente. 

E quantas vezes fazemos exatamente o contrário? Estamos tranquilamente em casa, mas nossa mente viaja para um problema que talvez aconteça amanhã. Imaginamos diálogos, antecipamos dificuldades, criamos cenários e sentimos no corpo a ansiedade de acontecimentos que existem apenas em nosso pensamento. 

Se nossa mente possui tamanha capacidade de nos transportar para cenários que nos angustiam, por que não aprender a conduzi-la também para lugares que nos fazem bem? Podemos construir uma espécie de geografia afetiva: um mapa formado pelos lugares onde fomos felizes, pelas pessoas que amamos e pelos momentos em que percebemos que a vida também pode ser leve. 

Quando o cotidiano estiver pesado, visite mentalmente um desses lugares. Feche os olhos, respire e reconstrua a cena. Talvez seja uma praia, uma casa da infância, uma cidade, uma mesa cercada por pessoas queridas ou uma tarde qualquer que se tornou inesquecível. 

Nem sempre podemos escolher onde precisamos estar, há dias de obrigações e dificuldades, mas existe um território que continua sendo nosso: o mundo interno. 

Por isso, quando viver algo verdadeiramente bonito, não tenha tanta pressa, observe, sinta e escute.  

Um dia, quando a rotina estiver cinza, talvez sua mente encontre o caminho de volta. E você perceberá que existem lugares dos quais nunca precisamos nos despedir completamente. 

Depois que alguma coisa nos toca profundamente, ela deixa de ser apenas um lugar onde estivemos e passa a ser também um lugar dentro de nós. Com carinho, Fabiane Fischer

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