ARTIGO

Candidato! Quem sai na chuva é pra se queimar!

Por Walter Naime |
| Tempo de leitura: 3 min

Vicente Matheus foi um personagem único do futebol brasileiro. Presidente do Corinthians, nunca foi treinador, mas treinava o bom humor de uma torcida inteira com suas frases que desafiavam a gramática e conquistavam a memória popular. Entre elas, uma merece voltar ao gramado da vida pública: "Quem sai na chuva é pra se queimar!". 

Trocou o "molhar" pelo "queimar" e, sem querer, produziu uma metáfora ainda mais forte. Porque molhar é um incômodo passageiro. Queimar dói, deixa marca e pode custar caro. É exatamente isso que acontece com quem decide disputar uma eleição. Ninguém é obrigado a colocar o nome na urna. A candidatura é uma escolha voluntária. Quem entra nesse jogo precisa saber que pode levantar a taça... ou sair chamuscado pelo próprio fogo da campanha. 

No futebol, a Copa de 2026 mostrou que camisa pesada não entra em campo sozinha. O Brasil sonhou alto, mas acabou se queimando diante da dura realidade de que tradição não substitui planejamento, preparo e eficiência. Em política acontece algo semelhante. Santinho não faz milagre, jingle não garante voto e promessa não imuniza ninguém contra a derrota. 

A maioria dos candidatos que perde a eleição leva para casa mais do que a tristeza do resultado. Carrega boletos, dívidas de campanha, compromissos assumidos, fornecedores aguardando pagamento, material gráfico, combustível, aluguel de carros, equipes, cabos eleitorais e uma longa lista de contas que continuam fazendo fumaça depois que a urna esfria. Com raríssimas exceções, a queimadura financeira demora muito mais para cicatrizar do que a ferida do orgulho. 

Por isso, antes de pedir voto, talvez seja prudente fazer um plano de prevenção de incêndios. Orçamento realista, gastos compatíveis com a própria capacidade, respeito às regras eleitorais e disposição para aceitar o resultado sem transformar uma queimadura de primeiro grau em uma de terceiro. Afinal, campanha não deveria ser aposta de cassino. 

Também existe a arte de saber ganhar. Vitória não é autorização para arrogância nem licença para esquecer os adversários. O vencedor precisa administrar expectativas, cumprir promessas e lembrar que a chuva que refresca hoje pode virar tempestade amanhã. Mas saber perder talvez seja ainda mais difícil. A derrota costuma atingir diretamente o ego. Alguns entram em negação, outros procuram culpados em tudo: na urna, na chuva, na lua, no marqueteiro, no primo que prometeu cinquenta votos e apareceu sozinho.  

Poucos fazem o exercício da autocrítica. E é justamente aí que mora a consciência. 
Toda eleição é um jogo democrático. Como em qualquer jogo, desperta paixões e pode alimentar compulsões perigosas. Quem aposta tudo o que possui, emocional e financeiramente, corre o risco de transformar uma disputa política em uma tragédia pessoal. O resultado pode ser verdadeiramente catastrófico. 

Talvez Vicente Matheus tenha acertado mais do que imaginava ao trocar "molhar" por "queimar". A chuva da política não encharca apenas o paletó; ela pode deixar cicatrizes profundas em quem entra despreparado. Sua frase funciona como um alerta: antes de sair para a tempestade eleitoral, tenha consciência dos riscos e esteja disposto a assumir tanto a vitória quanto o prejuízo. E, para homenagear o folclórico dirigente, vale recordar outras pérolas inesquecíveis. Ele dizia que "o difícil não é fácil", garantia que "o jogo só acaba quando termina" do seu jeito peculiar e colecionava defeitos que acabavam produzindo grandes efeitos no humor popular. Talvez fosse exatamente essa espontaneidade que o tornou eterno. 

E encerremos como ele próprio encerrou um agradecimento memorável, confundindo marcas com a maior naturalidade do mundo: "Agradeço à Antarctica pela caixa de Brahma que me mandou." Só Vicente Matheus para provar que, às vezes, até a lógica sai na chuva... e prefere morrer de rir a se queimar.  

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