O Dia dos Pais tem um curioso poder de suspensão. Durante algumas horas, a vida parece caber numa fotografia. O almoço reúne a família, os presentes aparecem sobre a mesa, as crianças ensaiam uma homenagem na escola, os adultos vasculham o celular atrás de uma imagem antiga. É um domingo confortável, como se o mundo resolvesse fazer uma pausa para agradecer.
Na segunda-feira, o Dia dos Pais desaparece com uma rapidez impressionante. O presente vai para a gaveta, a louça do almoço é lavada e a rotina volta a ocupar o lugar da comemoração. As despesas continuam chegando no mesmo ritmo, o trabalho não ficou menos exigente e o futuro dos filhos reaparece como preocupação diária. Enquanto a publicidade ainda celebra o domingo perfeito, a maioria dos pais já voltou a fazer as contas de sempre e, entre elas, talvez a mais difícil seja descobrir como preparar os filhos para um mundo que muda mais depressa do que a renda da família.
Talvez nunca tenha sido tão difícil ser pai sem que isso tenha qualquer relação com afeto. Amar um filho continua sendo a parte mais espontânea da história. O complicado é responder a uma pergunta para a qual ninguém tem resposta: como preparar uma criança para um mundo que muda mais depressa do que qualquer geração já viu?
Durante muito tempo, as famílias tinham a impressão de que conheciam o caminho. Estudar era importante, aprender uma profissão era essencial, trabalhar com dedicação aumentava as chances de construir uma vida melhor. Não era uma receita infalível, mas havia uma lógica compreensível. Hoje, a sensação é outra. Pais observam filhos aprendendo tecnologias que sequer existiam quando eles terminaram a escola. Profissões desaparecem sem fazer alarde. Outras surgem antes mesmo de receber um nome definitivo.
É curioso que a política ainda trate essa transformação como um assunto restrito às empresas ou às universidades. Não é. Ela acontece na sala de casa, quando um adolescente pergunta qual carreira deve seguir e o pai percebe que sua experiência, construída ao longo de décadas, já não basta para responder com a segurança que gostaria. Acontece quando uma mãe, que tantas vezes precisou exercer também o papel de pai, tenta voltar ao mercado de trabalho e encontra um cenário completamente diferente daquele que deixou anos antes.
O Brasil ainda discute educação como se ela terminasse com o diploma. Num mercado em que profissões desaparecem antes da aposentadoria, isso equivale a entregar um mapa antigo para quem precisa atravessar uma cidade que mudou inteira. O jovem precisa de uma boa escola, sem dúvida, mas o trabalhador que já está no mercado também precisa continuar aprendendo. A mãe que interrompeu a carreira para cuidar dos filhos precisa encontrar oportunidades para recomeçar. O pai que dedicou trinta anos à mesma atividade não pode ser tratado como alguém descartável porque o mundo resolveu acelerar.
É comum ouvir que ninguém deve esperar que o Estado faça o papel de pai. A frase parece definitiva, mas parte de uma falsa escolha. Ninguém espera que um governo substitua a presença dentro de casa, o exemplo ou o carinho. O que se espera é que ele cumpra uma obrigação muito menos simbólica e muito mais concreta: garantir que as famílias tenham condições de atravessar transformações que nenhuma delas, sozinha, é capaz de enfrentar.
Quando o domingo do Dia dos Pais terminar, milhões de brasileiros voltarão à rotina sem esperar homenagens, medalhas ou agradecimentos. Continuarão fazendo o que pais e mães sempre fizeram: tentando abrir portas para que os filhos encontrem um caminho um pouco melhor do que aquele que receberam. Talvez seja essa a maior diferença entre o presente e o passado. Nossos pais, em geral, conseguiam explicar o mundo para nós. Hoje, pais e filhos tentam entendê-lo juntos. É uma tarefa grande demais para ser deixada apenas às famílias.