ARTIGO

O Palacete

Por Cecílio Elias Netto |
| Tempo de leitura: 3 min

Recordar... À corrida do tempo, parece – aos muito já vividos – não haver como evitar. Porém, por que o fazer? Por, talvez, uma principal razão: a vida era uma festa. Também, o mundo. Pelo menos, é o que nos parecia tivessem sido. Havia-se iniciado a década de 1950, que viria a ser celebrada como o início dos “Anos Dourados”. Os tempos – como nos ensinava a ourivesaria – estavam no “ouro sobre o azul”. Ao depois, todavia, revelar-se-ia não terem sido assim tão azuis e dourados. Aos que os vivemos, porém, foram-no.

Graças a outra iniciativa cultural do publicitário Bruno Chamochumbi, Piracicaba recebeu uma das nossas mais acalentadas aspirações: visitar o Palacete Boyes. Destaque-se, em especial, o generoso assentimento dos herdeiros do também piracicabano Arnold Fioravante, proprietários dessa que é uma das principais joias da nossa coroa caipiracicabana. No Palacete, estão preservados testemunhos e valores de uma época gloriosa. Assim e de uma certa maneira, abriram-se as portas para a população piracicabana desvendar um mistério que lhe despertou a imaginação nas últimas décadas. O que era o Palacete, como é, o que reúne, qual a sua história?

Ora, recordar, recordar... E quando se é sentimental, confrontando a razão, tal qual o escriba? As lágrimas correm, ainda mais pulsa o coração, a hora presente deixa de existir e, então, todo um passado, toda uma história se revelam como realidade inescapável. O que parece ter sido continua vivo. Rever o Palacete, os jardins, pisar aquele chão, atentar a detalhes da construção mais do que sesquicentenária foi o mesmo que ignorar a imaginária noção do Tempo. Nada havia passado, nada morrera, Luiz de Queiroz e Ermelinda estavam lá, seus continuadores também. E Miss Katleen, ela a herdeira da também histórica Família Boyes, cujas notáveis realizações colaboraram para o engrandecimento de São Paulo e, privilegiadamente, para nós, de Piracicaba.

A infância do escriba continuava viva. Ele se via, novamente, naquele paraíso onde brincara com o seu amiguinho Guto, cujos pais eram próximos das famílias Balbaud, Boyes, Pacheco e Chaves. O Palacete Boyes está vivo, radiante, moradia espiritual de personalidades notáveis. O saudoso empresário Arnaud Fioravante – ao adquiri-lo, também movido por seu amor, vivência e sabedoria histórica – assumiu a guarda do tesouro. E seus herdeiros permitem-se sensibilizar pelo “Espírito do Lugar”. Há, nessa tradicional família, profundas raízes culturais e Piracicaba não se esquece de seu patriarca, o professor Affonso Fioravante, inesquecível educador de tantas e tantas gerações.

Rever o Palacete Boyes – após tantas décadas daquele isolamento que o tornou ainda mais fascinante para a população – foi, para o idoso articulista, um rosário de emoções. E de alegre e racional esperança. A multidão que tem visitado aquele berço histórico de Piracicaba consolida a razão essencial que moveu Arnaud Fioravanti e, agora, seus herdeiros: o Palacete e Piracicaba são indissolúveis. Tanto assim que Luiz de Queiroz, erguendo-o naquela colina,

pretendeu, certamente, torná-lo a fortaleza guardiã da memória de nossas origens. O Palacete é a nossa majestade caipira. Hosana!

Nossas lideranças políticas deveriam despertar para essa esplêndida motivação das potencialidades piracicabanas: somos uma cidade ainda desconhecida para um sem número de moradores. Há, até mesmo, quem nunca tenha visto o rio. Logo, se há pretensões de desenvolvimento turístico, estas deveriam voltar-se, primeiramente, para nossa gente. Trata-se, ainda, do “conhece-te a ti mesmo”.

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