ARTIGO

O Estresse que fortalece existe

Por Rogério Cardoso |
| Tempo de leitura: 3 min

Vivemos um tempo curioso. Nunca se falou tanto sobre cortisol. Basta abrir as redes sociais e ele aparece como o grande vilão da saúde, responsável pela gordura abdominal, pelo cansaço, pela dificuldade para emagrecer e até pelo envelhecimento precoce. Vemos médicos falando sobre isso, nutricionistas e até o pessoal do exercício. Aos poucos, o "hormônio do estresse" passou a ser tratado como um inimigo que precisa ser eliminado. 

Mas o corpo humano raramente funciona dessa forma. 

Em um recente estudo intitulado "Hormesis and Homeostasis in Exercise Biology" publicado no periódico Journal of Applied Physiology chamou a atenção justamente por desfazer alguns dos maiores mitos sobre o tema. O artigo mostra que o aumento do cortisol durante o exercício não representa um problema. Na verdade, faz parte do próprio mecanismo que permite ao organismo suportar o esforço e depois se adaptar a ele. 
Parece contraditório. Afinal, se o exercício eleva o cortisol, ele não deveria aumentar o estresse? A resposta é não. 

O cortisol é um hormônio essencial para a vida. Durante um treino, ele ajuda a disponibilizar energia para os músculos, regula o metabolismo e participa da resposta fisiológica ao esforço. Sem ele, simplesmente seria muito mais difícil correr, levantar pesos ou até terminar uma caminhada mais intensa. 

O que realmente preocupa não é esse aumento passageiro. O problema aparece quando o cortisol permanece elevado por semanas ou meses, geralmente em consequência do estresse crônico, da privação de sono, da má alimentação ou de doenças específicas. O exercício produz exatamente o contrário: um aumento temporário seguido de uma adaptação que torna o organismo mais eficiente para lidar com os desafios do dia a dia. 
É como aprender uma nova língua. No começo existe desconforto, esforço e até um pouco de confusão. Depois de algum tempo, aquilo que parecia difícil se torna natural. O corpo faz algo semelhante. Cada sessão de treinamento ensina o organismo a responder melhor ao estresse. 

Existe uma beleza silenciosa nisso.Nem todo estresse faz mal. Alguns são exatamente aquilo que nos transforma. O músculo cresce porque foi desafiado. O coração se fortalece porque trabalhou mais. O cérebro cria novas conexões porque precisou se adaptar. O organismo inteiro aprende que ainda vale a pena permanecer forte. 
Talvez por isso tantas pessoas relatem que, depois de um treino, sentem-se mais leves, mesmo estando fisicamente cansadas. O corpo trabalhou intensamente, mas a mente encontrou um novo equilíbrio.Eu sinto isso quando corro a noite por exemplo. Mas também vejo isso diariamente com meus alunos. Muitos chegam acreditando que precisam evitar qualquer situação que provoque esforço. Aos poucos descobrem que o movimento não desgasta a vida; ele amplia a capacidade de vivê-la. Não é o exercício que adoece. É a ausência dele, associada ao estresse contínuo e sem recuperação, que cobra um preço alto ao longo dos anos. 

Talvez tenhamos aprendido a demonizar o cortisol quando, na verdade, deveríamos compreender a diferença entre o estresse que nos destrói e o estresse que nos fortalece. 
O corpo conhece essa diferença muito antes de nós. 

No fim, talvez a pergunta não seja como eliminar o cortisol, mas como ensinar o organismo a conviver melhor com ele. E poucas estratégias fazem isso tão bem quanto o exercício físico praticado de forma regular, respeitando os limites e o tempo de cada pessoa. 
Aquilo que parece desafiar o corpo é justamente o que o prepara para viver com mais saúde, mais equilíbrio e mais liberdade. O remédio, dependendo da dose, pode ser remédio ou veneno!  Até a próxima. 

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