Existe uma mania curiosa de transformar o passado em testemunha de defesa. Quando o presente incomoda, apelamos para ele como quem chama uma pessoa incapaz de contradizer qualquer versão dos fatos. "Na minha época..." E a conversa parece encerrada. Como se bastasse recorrer ao ontem para provar que o hoje deu errado.
O problema é que o passado nunca comparece. Quem chega ao debate é a memória. E memória não tem compromisso com a precisão. Ela é seletiva, vaidosa e, muitas vezes, generosa consigo mesma. Não registra apenas o que aconteceu, reorganiza os acontecimentos de um jeito que nos permita conviver melhor com eles. O tempo vai apagando as arestas, diminuindo os incômodos e dando um brilho especial a momentos que, quando vividos, estavam longe de parecer extraordinários.
Basta reunir pessoas que cresceram na mesma rua ou estudaram na mesma escola. Todas passaram pelos mesmos lugares, conheceram as mesmas pessoas, viveram os mesmos acontecimentos. Ainda assim, cada uma contará uma história diferente. Não porque alguém esteja mentindo deliberadamente, mas porque cada um editou o próprio filme. Cortou cenas, alongou outras e acabou acreditando na versão que construiu.
Talvez por isso exista tanta gente convencida de que gostaria de voltar no tempo. Mas voltar para onde, exatamente? Para uma época em que o salário rendia mais, mas a inflação engolia qualquer planejamento? Para um período em que as crianças brincavam na rua, mas a violência também existia, apenas era menos noticiada? Para um tempo sem redes sociais, mas também sem acesso fácil à informação, sem avanços na medicina, sem tantas oportunidades que hoje tratamos como banais? Costumamos escolher apenas os capítulos agradáveis e esquecer que o livro vinha inteiro.
Há uma diferença importante entre preservar a memória e morar nela. Uma sociedade que despreza sua história está condenada a repetir erros. Mas uma sociedade apaixonada demais pelo próprio passado corre outro risco: o de acreditar que qualquer mudança representa uma perda. É um sentimento que aparece na política, no futebol, na cultura e até na maneira como enxergamos as cidades. Quase sempre existe alguém disposto a jurar que tudo funcionava melhor antes. Curiosamente, nunca consegue dizer em que momento exato essa perfeição existiu.
É por isso que tanta gente compra, sem pechinchar, qualquer discurso que prometa recuperar um tempo que supostamente perdemos. Quase nunca perguntam quando esse tempo existiu. Também não perguntam para quem ele foi tão bom assim. O passado leva uma vantagem enorme no debate: não precisa se defender. Cada um coloca na lembrança aquilo que lhe convém e segue em frente convencido de que encontrou uma verdade.
A nostalgia tem seu valor. Ela ajuda a preservar afetos, lembra pessoas importantes e dá sentido à própria trajetória. O problema começa quando deixamos que ela ocupe o lugar da realidade. O retrovisor foi feito para orientar o motorista, não para substituir o para-brisa. Quem insiste em dirigir olhando apenas para trás corre o risco de transformar uma boa lembrança em obstáculo permanente.
Talvez a maior mentira da nostalgia não seja dizer que o passado foi melhor. Seja convencer cada geração de que ela viveu o último tempo em que as coisas faziam sentido. Todas acreditam nisso. E todas, cedo ou tarde, descobrem que a geração seguinte dirá exatamente a mesma coisa sobre um presente que hoje insiste em desprezar.