ARTIGO

Memória: para que serve?

Por Armando Alexandre dos Santos |
| Tempo de leitura: 3 min

É muito difícil para nós, em nosso tempo, compreender como pode haver verdadeira cultura e pensamento profundo sem escrita. Saber ler e escrever, na nossa ótica, parece condição indispensável para o pensamento e a cultura. Quem não sabe ler e escrever, imaginamos, é necessariamente inculto e ignorante. Um ser inferior, portanto. 

Nem sempre foi assim. No passado, nas sociedades ágrafas, a transmissão da cultura se fazia por via oral. A memória era, dessa forma, privilegiada, sendo as pessoas capazes de reproduzir com extrema fidelidade tudo quanto ouviam de importante, porque prestavam atenção no que ouviam e refletiam muito sobre aquilo. O senso crítico também ficava aguçado, porque as pessoas se habituavam a julgar cada coisa ouvida, para reter somente o que realmente merecia ser conservado. 

Na Grécia antiga, Sócrates já viveu numa sociedade letrada, mas nunca quis escrever seus ensinamentos. O que deles restou, chegou-nos por seus discípulos Platão e Xenofonte. Sócrates privilegiava acima de tudo a busca do desconhecido, a procura daquilo que não se sabe, mais do que a mera transmissão do já sabido. “Só sei que nada sei” era a frase com que sintetizava sua rica filosofia. Na sua ótica, escrever era fixar o pensamento de modo imutável, fechando-o e impedindo que tivesse continuidade a incansável busca de coisas novas.  

Platão discutiu sobre a verdadeira natureza da escrita. Seria ela uma auxiliar da memória, ou uma fonte do esquecimento? Que ela auxilia a memória é fora de dúvida. Mas que ela também favorece o esquecimento, como negá-lo? Desde que se anotou algo numa agenda, não mais é preciso fixar naquilo a atenção nem exercitar a memória. Podemos nos entregar comodamente à distração, podemos deixar nosso pensamento livremente correr por temas mais agradáveis e divertidos, porque quando for preciso a anotação escrita trará de volta a informação desejada. A memória é uma faculdade do espírito humano que necessita de exercício. Sem exercício, ela tende a se enfraquecer. Daí ser a escrita, paradoxalmente, auxiliar e assassina da memória. 

Quando consideramos que na Idade Média pouquíssimas pessoas sabiam ler e escrever, julgamos erradamente que a maioria esmagadora da população estava chumbada, de modo irremediável, na mais crassa ignorância. Isso não é verdade, porque a cultura oral era muito intensa e a visual - pela via simbólica - era também muito marcada.  

Carlos Magno somente aprendeu a ler depois dos 30 anos de idade, e até morrer teve muita dificuldade para escrever. Isso não o impediu de ser um dos maiores cérebros do seu tempo, capaz de despertar e orientar o grandioso movimento cultural conhecido como renascimento carolíngio. Tampouco o impediu de participar de concílios, discutindo validamente questões filosóficas e teológicas com bispos e monges peritos nessas questões. 

William Marschall foi um famoso militar e político inglês que viveu nos séculos XII e XIII. Conseguiu vencer em torneios, ao longo da vida, a mais de 500 adversários, sem nunca ter sido derrotado. Serviu a quatro reis e chegou a ser regente do Reino, governando-o durante a menoridade de Henrique III. O fato de ser analfabeto não o impediu de exercer com grande competência todas as complexas funções de governo, com suas implicações políticas, diplomáticas e administrativas. Foi, no seu tempo, um dos homens mais poderosos e influentes de toda a Cristandade.   

Há cerca de 15 anos uma grande medievalista portuguesa, Profa. Ana Isabel Buescu, da Universidade de Lisboa, ministrou na UNESP um curso sobre a cultura no século XV. A certa altura da exposição, fez uma afirmação que jamais esquecerei. Disse que a cultura oral e visual era tão disseminada entre a população analfabeta do século XV que, com toda a certeza, qualquer camponês iletrado saberia explicar em pormenores o significado de cada figura esculpida numa catedral melhor do que nós, hoje, podemos fazê-lo, apesar de todo o nosso conhecimento acumulado, de nossos diplomas universitários e da facilidade que temos para consultar a qualquer momento enciclopédias ou obras especializadas. 

Muito oportuno pensar nisso, neste nosso tempo de wikipédias acessíveis pelo celular a qualquer momento... 

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