ARTIGO

"Quando o amor morre..."

Por Cecílio Elias Netto |
| Tempo de leitura: 3 min

Há muitos e muitos anos – teria, o escrevinhador, seus cinco ou seis – dos pouquíssimos aparelhos de rádio do quarteirão, propagava-se certa música que contagiava as pessoas adultas. Era como se todos a cantassem repetida e coletivamente. Ouvindo-os cantarolar, o menino sentia tristeza, talvez medo. Pois a música dizia de “quando o amor morre”. Discutiu-se muito se era uma canção francesa com versão brasileira, se letras do extraordinário Catulo da Paixão Cearense. Muitos anos depois, outra música pareceu-lhe, então, despertar alguma explicação. Evocava o “Doce Mistério da Vida”, secular clássico estadunidense, com também já clássica versão em português. Em suas lembranças, ainda ecoam palavras iniciais da melodia: “Minha vida que parece muito calma / tem segredos que eu não posso revelar...” 

Tudo soava como prenúncio do que, a ele, viria a ser sua possível vida de adulto. Um engano? Farsa, mentira? Pois, verdade houvesse naqueles versos, o amor de seu pai e de sua mãe, o amor entre os irmãos, o amor da família – todo aquele amor iria morrer por segredos que se não podiam revelar? Então, o que haveria de acontecer, como seria possível viver? Que segredos não podem ser revelados? E por quê?  

 A complicação aumentou quando, na adolescência, ouvia a confortadora invocação das certezas de Paulo Apóstolo: “O amor tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta”. As palavras paulinas traziam conforto e esperança. No entanto, se assim era o amor, por que haveria de morrer? E quando? E como? O morrer de amor, por amor, seria esse, então, o “doce mistério da vida”? Fosse-o, o amar seria castigo. Penitência.  

Mas, o amor pode morrer. Também morre. O único a sobreviver – e “ad aeternum” – é o de mãe: amor total, pleno e, também, insano, irracional. Um homem jamais o entenderá por completo, um amor de entranhas, verdadeiramente de carne palpitando e reagindo a cada suspiro. Um pai tenta refletir, raciocinar. Tenta. Mãe, no entanto, ama, apenas ama.  E a humanidade sobrevive. Pobre, pois, o órfão de mãe.  Há, no entanto, quem afirme Deus ser mãe. Logo, há que se ter esperança.  

O amor morre por descuido. Mas, antes de extinguir-se, desenvolve o drama completo para os amantes: a comédia, até mesmo no aparentemente ridículo de suas revelações; a tragédia, nos conflitos. Pois estes expõem o paraíso e o inferno vividos pelos amantes descuidados da preciosidade que os unira. E morre – também e, talvez, mais genericamente – pela incapacidade humana de entender o que seja o amor em suas variegadas versões. Pois – como referência até mesmo simplória – será impossível viver e realizar o amor conjugal se confundi-lo com o amor maternal ou fraterno. Eis-nos, pois, diante do desafio de entender os múltiplos, contrastantes e diferentes significados do amor.  

Mas o amor pode morrer. E, da mesma forma, sobreviver a todos os desafios, ressurgir quando parecia perdido, e ressuscitar, milagrosamente renascendo na alma dos que, por fim, o tiverem entendido. Daí, então, será verdade: nem a morte o terá vencido. Pois, pelo menos, sobreviverá na memória, nas lembranças e na saudade de quem o perdeu.  

Aos que juntos envelhecem, foi-lhes, a eles, dada a verdadeira comunhão. E, nesta, a esperança de irem-se embora abraçados. A quem ficou – na então amarga ausência do outro – restará o ansiado desejo de ir-se embora também. Para o reencontro num desconhecido infinito. Seja o quê ou como for, foi-nos deixado também por Rimbaud o entendimento possível: “Eu ‘é’ o outro” (“Je est un autre”). Logo, o outro é eu. E, enfim, o amor.  

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