ARTIGO

Mácula ao luto piracicabano

Por Edson Rontani Júnior |
| Tempo de leitura: 3 min

Muito terrível. Nos dias em que se lembrou o 9 de julho deste ano, chega a informação de que foi subtraída uma peça no Mausoléu ao Soldado Constitucionalista do Cemitério da Saudade. Uma situação que mexe com o luto das famílias que perderam seus entes 94 anos atrás. A peça subtraída era uma espada representando a infantaria dos “voluntários de Piracicaba” que partiram para os fronts de batalha em busca de um ideal: a democracia. 

A peça foi feita em bronze, assim como outros ornamentos que compõem o jazigo onde repousam na eternidade piracicabanos que perderam suas vidas por uma causa nobre. Mexe em muito com o âmago de pessoas como eu, que tive um tio-avô colhido em vida pela causa constitucionalista. Natal Meira Barros, faleceu na segunda quinze de agosto de 1932, em Registro, no Hospital do Sangue da cidade, três dias após levar um tiro de raspão que lhe rompeu a jugular. Com o sangramento, perde tudo ... circulação sanguínea, esperança e a vida ! Com apenas 17 anos, fugindo de casa para se alistar como “voluntário piracicabano” está no Mausoléu. Hoje, furtaram sua dignidade, seu repouso eterno, sua esperança de um Brasil melhor.  

Natal serviu o 2° Batalhão de Funcionários Públicos que dominara a cidade de Pinheiros. Viveu entrincheirado por dias. Os restos mortais do jovem Natal chegam em caixão na Estação da Paulista. Os irmãos, na casa dos 6 aos 12 anos, não sabiam ao certo o que havia ocorrido. A casa dos Meira Barros entristeceu por muito tempo. Tempo este que não apaga a dor. Judith e sua irmã Julieta por décadas mantiveram o ideal de Natal, com visitas ao Mausoléu, participando das atividades do 9 de julho e jurando viver até o fim de seus dias propagando o ideal do jovem de 17 anos que abandonou carreira e família para ter seu nome na lembrança de 1932. Jaz no Cemitério da Saudade e tem seu nome estampado em Travessa situada no bairro Higienópolis, em Piracicaba, e em rua no Jardim Aricanduva em São Paulo.  

Uma peça de metal já não mais faz parte do Mausoléu na Saudade. Sabe-se lá para onde foi. Apenas, supõe-se. Porém, sabe-se que tal peça foi furtada durante a madrugada e, cremos, deverá ser vendida para que fundida tome outras formas. São quase 100 anos de contemplação num projeto arquitetônico construído no próprio ano de 1932 e que anualmente havia motivado peregrinações de familiares. Uma dessas pessoas que chorou diante do jazigo foi Yvone Meira Barros, irmã de Natal, que também morreu em tenra juventude por depressão ao perder o jovem irmão. A questão: “como dormirão os responsáveis pelo sumiço de uma peça que compôs uma espada empunhada para cutucar e matar as forças federais de Getúlio Vargas em 32, como tivesse o papel de uma baioneta?”. Será que dormirão tranquilos? Creio que sim, por história não faz parte do intelecto de alguém que afronta a história. 

O Mausoléu dos Voluntários de Piracicaba tem pouca história conhecida, apesar de sua veneração. A Gazeta de Piracicaba, 30 de outubro de 1932, cita uma romaria aos túmulos dos voluntários piracicabanos, dizendo: “Os abaixo assignados, componentes do Batalhão Piracicabano vêm, por este meio, convidar a todos os seus companheiros de lucta e demais voluntarios para, incorporados, prestarem uma homenagem á memoria dos bravos piracicabanos que tombaram no campo de batalha, em defesa da causa sagrada que S. Paulo esposou. 

Essa homenagem constará de uma romaria ao Cemiterio Municipal, no proximo dia 2 de novembro (Finados). 

Para esse fim, todos os que tomaram parte na campanha deverão reunir-se ás 9 horas no Largo da Matriz. Este convite se extende tambem ás associações exittentes (sic) na cidade e ao povo em geral. 

(aa) Dr. Jacob Diehl Neto, Prof. Benedicto Rodrigues de Moraes, Lauro Alves Catulé de Almeida, Thomaz Whately, Ary Machado de Britto, Rubens Pereira Lima   

E, assim, mais uma vez, a história caminha para seu esquecimento.  

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