ARTIGO

Minhas Crônicas e o Leitor

Por Walter Naime |
| Tempo de leitura: 4 min

Recebi uma notícia que me deixou feliz e pensativo ao mesmo tempo. Descobri que algumas de minhas crônicas tiveram mais visualizações do que muitos candidatos conseguem reunir em votos. Não pretendo disputar eleição alguma. Já me basta a campanha diária para conquistar algo cada vez mais raro: alguns minutos da atenção de um leitor. 

     Aliás, talvez essa seja hoje a eleição mais difícil do mundo. O político pede votos. O cronista pede leitura. E, convenhamos, o voto dura alguns segundos; a leitura exige tempo, curiosidade e paciência. 

     Mas afinal, o que é uma crônica? 

     Para mim, a crônica é um diário sofisticado com endereço público. É uma conversa escrita que mistura observação, reflexão, humor e mensagem. Pode nascer semanalmente, mensalmente ou simplesmente quando uma ideia resolve bater à porta sem avisar. 

     A vida do cronista parece simples vista de longe. Mas quem escreve sabe que nem sempre as palavras obedecem. Existem dias em que os temas chegam em fila, empurrando uns aos outros. Em outros, o papel fica tão vazio quanto uma praça depois do comício. Mesmo assim, o cronista continua procurando histórias, comparações, perguntas e imagens capazes de despertar alguma reflexão. 

     Quem escreve deseja acertar. Deseja encontrar a palavra certa, a frase que ilumina uma ideia e a mensagem que faça companhia ao leitor por alguns instantes. Cada crônica é uma tentativa de construir uma ponte entre duas margens: a de quem escreve e a de quem lê. 

     Os temas são inúmeros. Política, esporte, ciência, religião, economia, comportamento e as pequenas cenas do cotidiano. Tudo pode virar crônica quando observado com atenção. O desafio é transformar fatos em pensamento e informação em conversa. 

     O leitor, porém, vive tempos difíceis. Não porque desapareceu completamente, mas porque passou a disputar espaço com um concorrente implacável: o celular. 

     Hoje muita gente acorda com o celular, almoça com o celular, trabalha com o celular, descansa com o celular e adormece olhando para o celular. O aparelho virou praça pública, cinema, mercado, escritório, biblioteca, rádio e até companhia de travesseiro. É uma máquina que engole minutos, horas e, às vezes, a própria atenção. 

     Nesse cenário, a leitura mais demorada perdeu terreno. As leituras científicas, esportivas, políticas e religiosas continuam vivas e necessárias. O problema está na redução do espaço reservado para a leitura reflexiva, aquela que convida o pensamento a caminhar um pouco mais devagar. 

     Enquanto isso, prosperam as fofocas instantâneas, os escândalos passageiros, as "abobrinhas" do dia e as intermináveis rodas de comadres digitais. Nada contra a diversão. O perigo surge quando ela ocupa toda a mesa e não deixa lugar para mais nada. 

     Por outro lado, o mundo virtual também abriu portas extraordinárias. Uma crônica publicada na internet pode viajar mais do que seu autor. Ela cruza bairros, cidades, estados e até países sem gastar uma gota de combustível. 

     A relação entre cronista e leitor é uma troca silenciosa e valiosa. Um escreve porque acredita ter algo a dizer. O outro lê porque acredita que encontrará algo que informe, provoque, emocione ou faça pensar. Quando isso acontece, ambos saem enriquecidos. 

     Por isso, como aprendiz da escrita, Walter Naime agradece sinceramente cada leitura, cada visualização e cada minuto dedicado às suas palavras. E faz um pedido simples: vamos aquecer a leitura nestes tempos em que o leitor parece enfrentar uma espécie de inverno cultural. 

     O propósito deste cronista continua sendo instruir, formar, transformar, construir e intensificar a busca pelo entendimento da vida e do mundo. Não para distribuir respostas prontas, mas para estimular perguntas melhores. 

     A crônica tem uma vantagem curiosa: ela fica perto. Está a um clique de distância. Já o cronista permanece longe, sem saber o que aconteceu depois da última linha. Por isso, neste jogo de sentimentos, fica o desejo da "volta da bolinha". Um comentário, uma crítica, uma concordância ou uma discordância. 

     Porque quando o leitor responde, a crônica deixa de ser apenas texto. Ela ganha voz. E quando a voz do leitor encontra a voz do cronista, a leitura deixa de ser um ato solitário e se transforma numa conversa capaz de aproximar distâncias, aquecer ideias e dar novo sentido às palavras.  

 

Comentários

Comentários