ARTIGO

Visão de longo prazo

Por Clovis Vaz |
| Tempo de leitura: 3 min

Existe um traço comum entre as economias que lideram o mundo: elas compreenderam que riqueza deixou de ser apenas aquilo que se extrai da terra ou se fabrica dentro de uma indústria. O que passou a gerar valor, cada vez mais, foi a capacidade de produzir conhecimento e transformá-lo em soluções. Em outras palavras, inovação deixou de ser um diferencial para se tornar condição de competitividade.

O Brasil sabe disso, mas ainda convive com uma velha contradição. Discursa sobre inovação como prioridade estratégica, enquanto frequentemente a trata como uma despesa que pode esperar. O problema é que tecnologia não acompanha o calendário político nem aguarda o momento ideal da economia. Quem posterga investimentos em pesquisa e desenvolvimento acaba comprando, no futuro, aquilo que deixou de produzir no presente.

Há um equívoco recorrente em imaginar inovação como algo restrito aos laboratórios ou às grandes empresas de tecnologia. Ela também está no processo industrial que reduz desperdícios, na empresa que desenvolve um novo método de produção, na solução que melhora a eficiência do agronegócio ou na tecnologia capaz de aumentar a competitividade de um negócio tradicional. São avanços discretos, mas que, somados, fazem enorme diferença para a economia.

Inovar sempre foi uma atividade de risco. É caro pesquisar, testar, errar e começar de novo. Por isso, as economias mais competitivas entenderam há muito tempo que criar um ambiente favorável ao desenvolvimento tecnológico não representa um custo para o Estado, mas um investimento na capacidade do país de produzir mais e melhor.

No Brasil, um dos principais instrumentos dessa política é a Lei do Bem. Em vigor desde 2005, ela concede incentivos fiscais às empresas tributadas pelo regime de lucro real que investem em pesquisa, desenvolvimento e inovação tecnológica. Em termos práticos, parte desses investimentos pode ser abatida dos tributos federais, desde que atendidos os critérios estabelecidos pela legislação. É uma forma inteligente de estimular quem decide apostar em novos produtos, processos e tecnologias.

Mais do que um benefício tributário, a Lei do Bem traduz uma visão de desenvolvimento. Ela reconhece que empresas inovadoras geram efeitos que ultrapassam seus próprios resultados. Aumentam a produtividade, qualificam empregos, movimentam cadeias produtivas e ajudam a construir uma economia mais preparada para competir em um mercado cada vez mais exigente.

Nenhuma economia se torna protagonista apenas consumindo tecnologia produzida por outros. O desenvolvimento passa, inevitavelmente, pela capacidade de criar, adaptar e aperfeiçoar soluções dentro de casa.

Piracicaba conhece essa realidade como poucas cidades brasileiras. A combinação entre universidades, centros de pesquisa, indústria e um agronegócio altamente tecnológico criou um ambiente que fez da inovação uma vocação, e não apenas um discurso. É um patrimônio construído ao longo de décadas e que precisa continuar sendo fortalecido, porque conhecimento também se perde quando deixa de ser cultivado.

No fim, a discussão não é sobre incentivos fiscais ou políticas públicas isoladas. É sobre o modelo de desenvolvimento que queremos construir. Países que investem em inovação compram tempo, produtividade e competitividade. Os que escolhem esperar costumam

descobrir, tarde demais, que o preço da espera é sempre maior do que o custo de investir no futuro.

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