FERNANDO LOPES

‘Noruega não assusta, mas devemos ter prudência’

Por Erivan Monteiro | erivan.monteiro@jpjornal.com.br
| Tempo de leitura: 8 min
Divulgação
‘Ancelotti é um bom estrategista e grupo está unido com o treinador’
‘Ancelotti é um bom estrategista e grupo está unido com o treinador’

Com quase 40 anos atuando na mídia esportiva de Piracicaba e região, o jornalista e ex-colunista do Jornal de Piracicaba Fernando Lopes, 59, aposta na Seleção Brasileira, neste domingo, às 17h, diante da Noruega, no MetLife Stadium, em Nova Jersey, nos Estados Unidos, em duelo válido pelas oitavas de finais da Copa do Mundo dos EUA/Canadá/México.

Entretanto, ele prega cautela diante dos europeus. “Para quem gosta de tabu, nunca vencemos a Noruega - única seleção do planeta a ter esse privilégio. Atenção em Halland, que, na seleção, tem mais gols do que jogos. No caso de Odegaard, meio-campista, todas as bolas passam por ele, é muito rápido e excelente articulador”, afirma.

O analista esportivo acredita que o Brasil deva ir bem até a semifinal, quando terá pela frente a poderosa Argentina, do astro Lionel Messi. “Em uma semi contra os ‘hermanos’ não há favorito, pois, para mim, é a maior rivalidade do mundo em alto nível”, declara.

Nando Lopes, como é mais conhecido, diz que o atacante Vini Jr., o lateral-esquerdo Douglas Santos e o volante Bruno Guimarães são os destaques do time canarinho até o momento. E uma menção para Endrick, que “é um diamante a ser lapidado e mostrou que não treme na Copa com apenas 19 anos”. Já decepção, para ele, é o atacante Rafinha, “pois passa por problemas pessoais”.

O jornalista ainda fala sobre as seleções que se destacaram e decepcionaram até o momento no Mundial, comenta suas experiências em Copas passadas e ainda faz uma comparação do futebol de ontem e de hoje. Veja, abaixo, os principais trechos da entrevista concedida ao Persona, do JP.

Neste domingo, o Brasil busca uma vaga nas quartas de finais diante da Noruega. O adversário te assusta? Na minha opinião, a Noruega não assusta, mas devemos ter prudência. Para quem gosta de tabu, nunca vencemos a Noruega - única seleção do planeta a ter esse privilégio. Atenção em Halland, que na seleção tem mais gols do que jogos. No caso de Odegaard, meio-campista, todas as bolas passam por ele, é muito rápido e excelente articulador.

O que o Brasil deve fazer, na sua opinião, para passar pelos europeus – comandados pelo atacante Haaland - e seguir o sonho do hexa? Nossa seleção é um pouquinho "europeia" também - a grande maioria joga lá e se conhece. Existe rixa particular entre Halland e Gabriel Magalhães. Se passarmos, acho que será a Inglaterra nas quartas, embora o time Britânico não terá vida fácil contra o México. Se passarmos, ficaria mais preocupados contra o México, na casa deles, do que a Inglaterra. Resumindo, nesse domingo, é muita atenção com o ataque da Noruega; já o setor defensivo da terra dos Vikings é fraco.

Como você analisa a participação da equipe até agora na Copa do Mundo? O ciclo de quatro anos foi bastante conturbado, com quatro treinadores e uma péssima eliminatória (a pior participação da história), mas durante a Copa a Seleção Brasileira vem tendo uma melhora técnica e tática - o que é bom, pois na Copa você tem que estar bem durante os 30 dias. Ancelotti é um bom estrategista e a impressão que nos mostra é que o grupo está unido com o treinador. Se chegarmos até as semifinais, creio que estaria muito bom. Desfalques como Wesley, Estêvão e Rodrigo fazem muita falta. O empate da estreia foi um resultado ruim; não procede na minha opinião, pois seleções antes pouco observadas subiram de nível assustadoramente, e Marrocos vem fazendo um belo trabalho -quarta colocada em 2022 e campeã mundial Sub-20. De olho nessas novas seleções; nada mais é como antes, o futebol evoluiu em todo planeta - vide Cabo Verde, Senegal, República do Congo, entre outras.

Pelo que viu até agora, acredita no título do Brasil? Acredito até a semifinal, pois provavelmente deve ser a Argentina, que deu muita sorte no chaveamento até as semis, devendo se preocupar apenas num possível encontro com a Colômbia. Em uma semi contra os ‘hermanos’ não há favorito, pois, para mim, é a maior rivalidade do mundo em alto nível.

Quais são os destaques do time brasileiro até o momento? E quem te decepcionou? Os destaques começam pelo Vini Jr. Muitas vezes foi contestado com a camisa da seleção, pois não mostrava o mesmo futebol que joga no Real Madrid. Porém, nessa Copa chamou a responsabilidade, bateu no peito e está fazendo o que esperamos de um atleta de alto nível. Douglas Santos também me surpreendeu bastante: um lateral-esquerdo desconhecido, vindo do futebol russo, no Zenit, e vem fazendo uma excelente Copa. Bruno Guimarães também vem surpreendendo muito - até aqui foram 4 jogos e 4 assistências (líder neste quesito na Copa), tomando conta do meio de campo da seleção. A decepção é o Rafinha, pois passa por problemas pessoais. Danilo não chega a ser uma decepção, pois já se sabia que ele é fraco mesmo. Acho que Ancelotti deveria manter o mesmo time do segundo tempo contra o Japão. Já Endrick é um diamante a ser lapidado e mostrou que não treme na Copa com apenas 19 anos.

Pela projeção do chaveamento e partindo da premissa de que o Brasil será finalista, quem poderá ser, na sua opinião, o adversário? Sem dúvida a França, a seleção que mais lembra o futebol-arte de 1982 do Brasil, com velocidade e qualidade. Espero que aconteça com eles o mesmo que aconteceu conosco em 1982.

Qual seleção mais te encantou até agora e quais jogadores que têm chance de ser o craque da Copa? A técnica e futebol bonito da França. A garra e raça de Cabo Verde. Craque da Copa seria Mbappé; e só lembrando que ele deve ter de duas a três Copas a mais pela frente. Menção honrosa para o goleiro Vozinha, de Cabo Verde

Foi uma surpresa, para você, seleções como a Alemanha e Holanda terem caído tão precocemente da Copa do Mundo? São seleções com história enorme. Alemanha tetra e Holanda três vezes vice. Em termos de peso de camisa sim, poderia dizer que foi mais decepção do que surpresa. Se vendeu uma ideia de que a Alemanha de 2014 dominaria o futebol por várias Copas seguidas, mas o trabalho não rendeu. Ter a melhor liga não significa ter a melhor seleção. Sobre a Holanda, o que percebi é que deve ter problemas internos e, além disso, a safra de jogadores não chega aos pés da Holanda dos anos 80/90.

Quantas Copas do Mundo você já assistiu como torcedor e como jornalista/radialista? De 1970, lembro-me vagamente da festa do tricampeonato, pois no dia seguinte, na segunda-feira, eu, com 3 anos e meio, mudei-me de São Paulo para Rio Claro. Como torcedor, lembro-me bem de 1974, na Alemanha, e a derrota para Holanda de Cruyf, um gênio do futebol. Em 1978, o roubo descarado da entrega do jogo do Peru para Argentina, com a mudança do horário do jogo, facilitando para a Argentina – que ficou sabendo de quanto precisava diante do Peru para ir à final: foi uma vergonha! Em 1982, a que mais chorei e dói até hoje, pois todo de 5 de julho vem a lembrança da derrota para Itália de Paolo Rossi por 3 x 2. Na de 1986, a derrota para França, com pênalti de Zico perdido durante a partida e depois na disputa por pênaltis. De 1990 em diante já estava na imprensa esportiva.

Qual foi o Mundial que mais marcou a que mais te decepcionou como torcedor e como profissional da média esportiva? A que mais marcou foi 1994, nos EUA, pois nunca tinha sentido a sensação do que era ser campeão do Mundo. Em 1970, tinha 3 anos e meio e, como disse, só lembro vagamente da festa. Mas emoção de vencer, os festejos com amigos e a carreata pelas ruas da minha cidade realmente foram emocionantes. A maior tristeza foi 1982, uma seleção que encantava o mundo, jamais se imaginava que a Itália, que se classificou com 3 empates, com crise interna entre imprensa x seleção e com escândalos de manipulação de jogos do Campeonato Italiano, fosse vencer o Brasil - que precisava apenas de um empate. Mas decepção mesmo creio que foi em 1990: péssima montagem do elenco por Sebastião Lazaroni, um treinador retranqueiro. Quis o destino que, no único jogo que realmente apresentou um grande futebol, fomos desclassificados pelo nosso maior rival: a Argentina, numa das únicas jogadas feita por Diego Maradona - que passou como quis pela zaga e deixou Caniggia livre na frente de Taffarel. Um destaque também para seleção de 2006 com Ronaldo, Ronaldinho, Kaká, Adriano, Cafu e Roberto Carlos. A preparação foi uma bagunça geral e a decepcionante derrota para França, que, para mim, é o maior algoz do Brasil de todos os tempos.

Quais foram as rádios/TVs que você passou e qual emissora você está atualmente? Em Rio Claro, de 1988 a 1998, comecei na Rádio Educação e Cultura 1040; Clube de Rio Claro; Rádio Itapuã FM; colaborador Jornal Diário Rio Claro; Participação Tv Rio Claro; Piracicaba desde 1998: Rádio Educadora Am 1060; Rádio Difusora 650 AM; Rádio Alvorada AM 910; Rádio Globo AM 910, que sucedeu Alvorada; Rádio Onda Livre AM 910; TV Beira Rio programa Esporte Livre; colunista Jornal de Piracicaba; Nacional; comentarista Rede Família de Televisão do Grupo Record, com estúdios em Limeira e posteriormente em Campinas e São Paulo. Hoje estou licenciado da Rádio Educadora de Piracicaba em virtude de operação recente. Sou também diretor da ACEISP (Associação dos Cronistas do Interior de São Paulo).

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