CECÍLIA BELLATO 

‘Piracicaba é muito rica de instrumentistas e grandes orquestras’

Por Erivan Monteiro | erivan.monteiro@jpjornal.com.br
| Tempo de leitura: 10 min
Divulgação
‘Toquei em terminais municipais rodoviários, para pessoas que nunca tinham visto um piano; foi muito gratificante’
‘Toquei em terminais municipais rodoviários, para pessoas que nunca tinham visto um piano; foi muito gratificante’

Artista das mais renomadas de Piracicaba, a pianista Cecília Bellato começou a carreira com apenas cinco anos, por influência e incentivo da mãe, Diva Bellato, e não mais parou. Formou-se pelo Conservatório Dramático e Musical de Piracicaba, se graduando logo após pelo Conservatório Musical "Dr. Carlos de Campos" em Tatuí. Nesse mesmo tempo, também bacharelou-se em Ciências Econômicas, possuindo ainda especialização em Educação.

Ao longo de sua carreira, foram vários projetos realizados, como a participação dos Festivais de Verão e Inverno, vários programas de rádio e TV e do Cultura Inglesa Festival. Solou com as Sinfônicas de Tatuí e de Piracicaba. Como duo trabalhou em 2011 com cantores, fazendo apresentações no Consulado Alemão e também para o Cônsul da Áustria.

Pelo Sesc, fez vários trabalhos sendo que em 2011 numa programação especial apresentou "Os Cem Anos de Nino Rota”, trabalho este feito no Terminal Intermunicipal de Piracicaba. Leciona na EMPEM numa atividade didática, tendo vários alunos premiados em concursos.

Cecília trabalha também com os Projetos “Reminiscências” e "No Mundo Do Cinema", no qual se apresenta junto com os seus alunos, estando já na 21ª Edição. Também tem elaborado trilhas sonoras de filmes mudos.

Ela ainda faz parte do conjunto "Ternamente Eclético", além de se apresentar como recitalista. Para a pianista, a Noiva da Colina pode se sentir agraciada na área da música, pois há três orquestras e vários conjuntos. “Piracicaba é muito rica de instrumentistas e grandes orquestras”, conta a pianista. Veja, abaixo, os principais trechos da entrevista:

Quando iniciou os seus estudos e quando começou a atuar? Teve alguma inspiração na família ou de fora? Iniciei meus estudos de piano aos 4 anos de idade, tendo como professora minha mãe Diva Duarte Bellato. Com 5 anos, fiz minha primeira apresentação no Instituto Cultural Ítalo-Brasileiro (Rua D. Pedro I n° 781) hoje Soccietá Italiana, com um belo programa para essa idade! Meu pai tocava bandolim, mas como hobby e minha mãe, professora de Piano, tinha muitos alunos. Nasci ouvindo música e minha paixão pelo piano foi crescendo sempre. E os recitais de Piano nos anos seguintes, com 6, 7, 8 anos, sempre no mesmo local, Instituto Cultural Ítalo-Brasileiro, foram acontecendo, mas sempre com programa inédito.

Onde foi sua formação e como esse lugar a moldou sua identidade artística? Estudei na infância, no Colégio Assunção, e conclui o colegial no Colégio Jorge Coury, mas sempre me apresentando no piano em eventos nesses dois colégios. Aos 11 anos, ingressei no Conservatório Dramático e Musical de Piracicaba (extinto) e me formando já com 14 anos, mas sempre tendo aulas nesse meio tempo com renomados professores, como Olga Normanha (Campinas) e Irene Mauricia de Sá (São Paulo), sempre participando de apresentações. Com 16 anos ingressei no Conservatório Dramático e Musical "Dr. Carlos de Campos" em Tatuí, concluindo o curso de pós-graduação e aperfeiçoamento em 1973, já consciente de que eu queria era seguir a carreira como pianista.

Qual a sua relação com a renomada pianista Eudóxia de Barros? Quais foram os maiores aprendizados desta grande artista? Quando ingressei no Conservatório em Tatuí, conheci a pianista Eudóxia de Barros, mas embora eu estivesse tendo aulas com o compositor Nilson Lombardi, esse mesmo professor me encaminhou para ela (que começou a dar aulas nessa mesma instituição tão logo comecei meu curso), afirmando que minha ascensão profissional seria melhor com essa grande pianista!!! Terminado esse curso consegui aulas particulares com Eudóxia de Barros. Ali, foi consolidado o início de minha carreira como pianista. Foram 22 anos estudando, me aperfeiçoando e tendo aulas também com o grande compositor Osvaldo Lacerda (análise musical e composição), o qual fundou junto a Eudóxia o Centro de Música Brasileiro, do qual fiz apresentações sempre pelo SESC/SESI, mesmo já tendo um conhecimento e aprofundamento não só dos grandes clássicos eruditos, mas também dos grandes compositores brasileiros. Minha técnica devo a essa grande pianista! Nesse meio tempo, vim a ser sua assistente, assumindo sempre seus alunos quando ela começava sua turnê anual. Mais tarde, houve o convite de D. Cidinha Mahle para que eu viesse lecionar na Escola de Música de Piracicaba Maestro Ernst Mahle.

Você tem outra formação acadêmica além da música? Como essa formação influência sua carreira na música? Sempre acreditei que conhecimento nunca é demais. Mesmo aos 18 anos tendo terminado meus estudos em Tatuí iniciei meus estudos no ISCA, em Limeira, me graduando em Ciências Econômicas. Mais tarde, fiz uma pós-graduação em Educação pela Unimep, mas o trabalho com a música seguia sempre e com esse conhecimento todo me valeu a entrar no ramo administrativo e mercado, adquirindo meios para a realização da minha carreira como pianista.

Quando foi a última edição do Projeto Reminiscências-Recital de Piano? Qual é o impacto desse evento para a nossa cidade? Tem plano para outros? A 9ª Edição do projeto Reminiscências - Recital de Piano com Cecília Bellato, alunos e convidados foi dia 17 de junho de 2026, no Auditório da Acipi. Esse evento tem sido muito bem aceito pelo público em geral, pois um que de carinho e amor paira no ar ao trazer pessoas da família ou amigos para tocarem juntos aos meus alunos. Antes eu fazia três apresentações no ano: Reminiscências, No Mundo do Cinema e Recital com Cecília Bellato e alunos. Cada um tinha sua característica própria, mas precisei eliminar o último (no qual o aluno escolhia se queria tocar música erudita ou popular (claro que estando ao seu alcance) por ter que alugar o espaço, onde nos apresentamos. Em novembro, está previsto o Mundo do Cinema na sua 21a edição, no qual enquanto passam na tela cenas dos filmes em questão, o aluno toca a trilha sonora do mesmo. Um evento muito lindo, saudoso e que fica na memória de todos!!!

Suas apresentações frequentemente apoiam causas sociais ou arrecadações locais como a reforma do piano Steinway & Sons da EMPEM ou eventos no Teatro Municipal Losso Netto. Como você enxerga o papel do artista na transformação social da cidade? Algumas apresentações realmente eu fiz como causas sociais, ajudando entidades, mas também fiz arrecadações locais como a reforma do piano Steinway. Realmente, é um piano que fala sozinho. Eu digo assim por que a sonoridade dele é muito linda. E é um piano que a gente ter e estimar nessa cidade. Você sabe que o piano é feito artesanalmente e cada piano tem o seu som. E eu gosto muito do som dele. Já toquei fazendo grandes concertos com orquestras sinfônicas, no qual o maestro Mahle regia. E é um dos pianos que eu mais gostei na minha vida toda de tocar. Para fazer uma reforma desse piano iria ficar em R$ 42 mil, em São Paulo. E consegui arrecadar R$ 19 mil entre apresentações e pessoas físicas que doaram em prol desse piano. Mas esse dinheiro foi utilizado dentro da própria escola para que pudesse continuar funcionando por ter algo irregular dentro da própria escola. Foi uma pena, mas o piano continua lá. Parece que estavam reivindicando para que ele fosse agora, com a venda do prédio da escola, para o Teatro Municipal Losso Netto, o que fiquei muito feliz se isso acontecesse. O maestro titular parece que ia conseguir essa reforma. Não sei se isso vai dar certo.

Conte-nos sua atuação como professora... Eu gosto de começar as crianças a partir de 4 anos de idade, mostrando o piano, fazendo a musicalização, educando o ouvido de uma maneira lúdica. E ainda utilizo o mesmo método por onde comecei. Analisei outros, mas ainda gosto muito dele. E é por aí que ensino tanto as crianças, como jovens e pessoas que maior conhecimento. Gosto muito de trabalhar nessa área, atuando como professora e também apresentando-os. Acho muito importante o aluno se apresentar em auditórios, porque isso ele fica preparado em outras situações como ter uma ação, de como se apresentar em palco, diante de eventos. Enfim, a música é muito abrangente: além de trabalhar o emocional, ela trabalha também o lado de cada pessoa no seu contexto.

Como professora, como você avalia o interesse das novas gerações de piracicabanos pelo piano? Posso afirmar que o modo como dou aula hoje é bem diferente de 10, 15 anos atrás. O mundo ficou muito rápido com a internet e as telas estão vindo à tona. O interesse pela música pode ser colocado como um parâmetro para melhorar esse imediatismo. Porque a música faz com que você tenha o tempo, você tem de explorar, você tem de procurar o que o compositor escreveu, analisar, enfim, tirar todo o proveito dela para apresentar para o público. Então, isso faz com que a pessoa fique melhor no dia de hoje. Vamos pensar, porque se você parar de pensar e buscar o imediato, nós não vamos mais ter cientistas, como é que vamos desenvolver vacinas, conhecimentos de doenças. É necessário continuar a pensar. Posso dizer também que por isso comecei a fazer mesclado. O que é esse mesclado? É tanto a música clássica, como também a música popular.

Quais os maiores desafios e prazeres de preparar alunos de idades tão diversas — de crianças a adultos — para se apresentarem em grandes palcos locais? Para a criança é muito mais fácil uma iniciação do que o adulto, que se cobra demais. E a música nos ensina a dar passo a passo. E aos poucos, conforme a gente vai entendendo o lado musical dela, essa resolução vai aparecendo. E hoje em dia, a gente quer muito rápido. As crianças aceitam melhor isso. As crianças que começaram comigo com quatro, cinco anos e hoje já se apresentam com 11, 12 anos você já vê ali um pianista em formação.

Como você vê a evolução do cenário da música erudita e instrumental em Piracicaba nos últimos anos? Piracicaba ainda pode se sentir agraciada, pois temos três orquestras e vários conjuntos, dentre os quais eu tenho um conjunto que se chama Ternamente Eclético, que é formado por Luís Fernando Dutra (violino), Álvaro Damazo (contrabaixo e arranjos) e Cecília Bellato (piano). Nos apresentamos sempre aqui na cidade e em lugares externos. Piracicaba é muito rica de instrumentistas e grandes orquestras. Temos a OSP, que é formada por músicos profissionais; temos a Orquestra Educacional, com músicos que estão começando e evoluindo; e a Orquestra de Jovens Músicos. E o público aceita muito bem. Estamos sempre com a casa cheia e isso é sempre gratificante.

Quais são os seus próximos projetos para os próximos meses? O meu projeto próximo é o Mundo do Cinema, que será em novembro, no que já estou trabalhando com os alunos. O Mundo do Cinema também está indo muito bem e já estamos em nossa 21ª apresentação. Isso faz com que os alunos estudem muito. E quando ao meu conjunto Ternamente Eclético, desejo que façamos novamente uma apresentação no aniversário da cidade, que será em agosto, e em finais de ano quando tocamos bastante músicas de Natal e é muito aceita pelo público em geral. Enfim, música para todos!

Qual sua avaliação da música erudita no Brasil? Estão entre as melhores do mundo? E você acha que é pouco valorizada pelos brasileiros? Eu posso dizer que a música erudita no Brasil está caminhando para o melhor sempre. Se todo mundo plantar uma sementinha, claro que vai dar frutos. Quanto mais você mostra, mais você traz pessoas para a música. Se você faz bem feito, você tem um lugar ao sol. Música faz bem. Fiz trabalhos também pelo Sesc Piracicaba no qual eu toquei em terminais municipais rodoviários, fazendo apresentações, mostrando o piano e como é que se toca para um público que não vai a teatro. Muitas vezes acham que é de elite e não vão. Foi muito bem aceito por todos. Pessoas que falaram que nunca tinham visto um piano, por isso foi muito gratificante esse trabalho. Sempre toquei também no Shopping Piracicaba.

Comentários

Comentários