ARTIGO

Crer é preciso; negar não é preciso

Por Cecílio Elias Netto |
| Tempo de leitura: 3 min

Amigos, companheiros estranharam. Mas ele insistiu em afirmar e repetir: “Atualmente, acredito em tudo. Em alma penada, em Papai Noel, em mau-olhado...” E continuou: “Creio em Deus, acredito no diabo, no inferno, no céu, no purgatório. Acredito em mandinga, cruz na encruzilhada, em feitiço. Creio em bênção de padre e em maldição de bruxo velho. E em anjo da guarda e no capeta.”

Entretanto, ele vivera – alguns anos antes – um período de descrença quase absoluta. Começara com dúvidas que se foram acumulando. Os “porquês” e os “como” não mais lhe davam respostas. Gostaria de apagar o que pensara e estudara ao longo da vida, dissipar questionamentos. Até o princípio de Descartes – “cogito, ergo sum”; penso, logo existo – parecera-lhe inútil.  Ora, árvores, pedras, rios não pensam e existem – convenceu-se de sua própria formulação. E, então, negando, entrou no vazio. E percebeu-se em algo sombrio, sem significado, ainda mais perturbador. Não poderia, portanto, confiar nem sequer em suas lembranças, em recordações. Mas... Tal viver, o que seria?

Uma das suas poucas conclusões tinha sido a de entender a vida ora como penitência, ora como bênção; castigo ou privilégio. Nascer-se-ia, então, para o sofrimento; ou para fruir das belezas do mundo. Mesmo querendo entendê-la, viu-se considerando a vida como absurdo. Para quê, por que o existir? Queria entender o “mysterium tremendum et fascinam”. Mas, desistiu. Pois, começou a perceber que, no mundo, predominava a criação, o incessante brotar da vida. E, também – ou como consequência – o findar-se. Logo, um existir com prazo, mesmo ignorando qual lhe fora dado. Qual um prato de doces que acaba. Ou o pote de fel que, também, se finda. Viver, pois, seria apenas um “por enquanto”.

Na realidade, ele nada descobriu. Apenas, começou a reconhecer o provisório, fosse bênção ou castigo. E passou, então, a assustar-se com tanta tolice, incluindo as suas próprias. O sábio de Hipona, Agostinho, já o entendera em séculos distantes: "Tarde te amei, ó Beleza tão antiga e tão nova, tarde te amei!" Foi ao início de uma época em que – apesar dos horrores de guerras e ódios – teria sido possível, talvez, sentir a vida com mais intensidade. Um pedaço de pão, um copo d´água cristalina eram bens como que consagrados. A pouco e pouco – no delírio pelo poder – perdeu-se a noção do essencial, atropelado pelo consumismo atoleimado. Comprar por comprar; ter por ter. E, no mundo capitalista, povos foram apatetando-se. Cidades, também. A nossa não escapou.

Criaram-se descrenças, desconfianças, incertezas antes pouco vividas. E, com elas, pessimismos, incredulidades. Passamos a viver o “confie, desconfiando”. E ninguém conseguirá, serenamente, viver assim. O que temos vivido previra-se já na Antiguidade: "O povo será oprimido; um será contra o outro, e cada um contra o seu próximo; o menino se atreverá contra o ancião, e o vil contra o nobre". E confirmando o que já ocorria: "Pois o filho insulta o pai, a filha se rebela contra a mãe, a nora contra a sogra; os inimigos do homem são os da sua própria casa". Seríamos, então, inviáveis?

Tudo como d´antes... Nada de novo sob o Sol. Ainda assim, crer é preciso. Em quem, no quê? Talvez, pouco importe. Mas crer, também, em pessoas, ainda que poucas; em algo além do que nos cerca. Crer na esperança com a mesma naturalidade com a qual cremos em prestadores de serviços: o padeiro, o leiteiro, o médico, o farmacêutico. Negar em lamentos e desânimos não é mais preciso. Isso é definhar em descrenças sem fim. E não seria viver.

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