ARTIGO

O próximo diferencial das cidades será gente

Por Thais Fornicola Neves |
| Tempo de leitura: 3 min
Divulgação

Durante muitos anos, a disputa entre municípios pela atração de empresas passou pela chamada guerra fiscal.

Boa parte da conversa girava em torno de incentivo, renúncia, ISS, área e benefício. Foi uma alavanca importante para atrair investimentos, gerar empregos e colocar cidades no radar de empresas que talvez não olhassem para aquele território.

Juiz de Fora usou redução de ISS para atrair call centers. Montes Claros estruturou incentivos municipais. Extrema se consolidou como polo logístico e de e-commerce combinando localização, infraestrutura e incentivos.

Esses exemplos mostram como o jogo funcionava: muitas vezes, uma cidade compensava limitações oferecendo uma variável objetiva para a empresa: custo tributário menor.

A reforma tributária muda parte dessa equação. Com a transição para um modelo mais uniforme de tributação sobre o consumo, com IBS e CBS, e a substituição gradual de ICMS e ISS até 2033, competir apenas por imposto tende a perder força.

A disputa entre cidades não vai acabar. Ela deve entrar em uma fase mais complexa: a capacidade de cada território formar, atrair, reter e desenvolver talentos.

Profissionais qualificados não escolhem uma cidade apenas por uma empresa ou salário. A decisão passa também por qualidade de vida, segurança, boas escolas, universidades, mobilidade, saúde, serviços, oportunidades e pertencimento.

Antes, muitas cidades perguntavam: qual incentivo posso oferecer para a empresa vir?

Daqui para frente, talvez a pergunta seja outra: que cidade estou construindo para que pessoas boas queiram morar, trabalhar, empreender, estudar, consumir e permanecer aqui?

Empresas precisam de talentos para crescer. Talentos precisam de oportunidades para ficar. E cidades precisam das duas coisas para gerar renda, emprego, consumo, arrecadação e capacidade de reinvestir em qualidade de vida.

No novo cenário, vai importar cada vez mais onde as pessoas vivem e consomem. A empresa gera emprego, mas são os moradores que movimentam a economia todos os dias: comércio, serviços, escolas, restaurantes, saúde, lazer e moradia.

Esse consumo fica na cidade, fortalece negócios locais, amplia arrecadação e permite reinvestir em qualidade de vida. Por isso, reter bons talentos passa a ser tão estratégico quanto atrair empresas.

No fim, a discussão econômica volta para um ponto prático: bem-estar como estratégia de desenvolvimento. Uma vantagem competitiva mais difícil de copiar do que um ajuste de alíquota.

Tenho pensado muito sobre isso no posicionamento de Piracicaba.

Somos uma cidade metropolitana, em uma região com 24 municípios e cerca de 1,5 milhão de habitantes, com mais de 440 mil moradores, 70 mil empresas ativas, PIB acima de R$ 44 bilhões e exportações de US$ 2,76 bilhões.

Temos base produtiva forte, vocações no agro, bioeconomia, indústria avançada, tecnologia, saúde única, turismo, economia criativa, comércio e serviços, além de uma base educacional, científica e tecnológica rara.

Mas ter ativos isolados não basta. O desafio é conectar melhor e fortalecer um posicionamento coerente com a nossa identidade.

É por isso que temos trabalhado no PIN — Piracicaba Innovation — como uma rede aberta e gratuita para aproximar empresas, universidades, governo e sociedade, organizar o ecossistema e transformar conhecimento em desenvolvimento econômico.

Ao mesmo tempo, estamos estruturando o Distrito de Inovação e uma nova arquitetura de incentivos para aproximar pesquisa, mercado e território, garantir segurança jurídica e conectar crescimento às vocações de Piracicaba.

Piracicaba tem história, vocação e ativos. Nosso trabalho agora é organizar melhor tudo isso, conectar os atores certos e preparar a cidade para esse novo ciclo.

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