ARTIGO

A Guerra do 'Cocô ' Nacional

Por Walter Naime |
| Tempo de leitura: 3 min

Dizem que a humanidade evoluiu quando trocou a pancadaria pela conversa. Observando certas campanhas eleitorais brasileiras, surge a dúvida: será que evoluímos mesmo ou apenas substituímos as pedras por cocô verbal?

Toda eleição começa como festa de aniversário. Tem sorriso, abraço, promessa e foto para todo lado. Mas basta a disputa esquentar para o cenário virar uma guerra peculiar. Não uma guerra de canhões, mas a famosa Guerra do Cocô, onde cada lado tenta convencer o eleitor de que o adversário produz um estrume político mais tóxico.

O Brasil conhece bem conflitos. Tivemos a Guerra dos Farrapos, a Cabanagem, a Balaiada, a Revolução Praieira e a Revolução Constitucionalista de 1932. Cada uma nasceu de disputas políticas, econômicas ou sociais. Fora de casa, enfrentamos a Guerra do Paraguai e participamos da Segunda Guerra Mundial contra o nazi-fascismo.

Em todas elas existiam objetivos claros. Já na Guerra do Cocô eleitoral, muitas vezes parece que o objetivo não é construir algo melhor, mas provar que o outro fede mais.

Mas o que é uma guerra civil? É um conflito interno entre grupos de um mesmo país, provocado por disputas de poder, desigualdades, crises econômicas, divergências ideológicas ou enfraquecimento das instituições. Felizmente, nossas batalhas ainda acontecem no campo das palavras. O problema é quando certas palavras passam a carregar explosivos.

E onde nascem essas guerras de discurso?

Raramente surgem na feira, na padaria ou no ponto de ônibus. Costumam nascer nos corredores do poder. Gabinetes, plenários, comitês e estúdios funcionam como verdadeiras fábricas de munição verbal.

Ali são produzidas armas de todos os modelos: a granada da insinuação, o míssil da frase fora de contexto, a metralhadora dos memes, o lança-chamas das redes sociais e a velha bomba de corrupção.

Essa é a munição preferida. Quando falta proposta, dispara-se corrupção. Quando falta argumento, dispara-se corrupção. Quando falta assunto, recarrega-se a corrupção. E não porque o tema seja irrelevante. Pelo contrário. O problema é quando ele deixa de ser preocupação nacional para virar apenas projétil eleitoral.

Numa democracia saudável, os poderes deveriam agir como equipe de limpeza institucional. O Executivo governando, o Legislativo fiscalizando e legislando, e o Judiciário garantindo as regras do jogo. Mas quando a polarização sobe à cabeça, até os encarregados da limpeza passam mais tempo discutindo quem sujou a rua do que recolhendo o lixo.

E em quais banheiros são produzidos os discursos mais agressivos?

Talvez nas privadas da vaidade. Talvez nos vasos da ambição. Talvez nos encanamentos do ressentimento. Ou numa estação de tratamento defeituosa que transforma fatos em esgoto antes de devolvê-los ao debate público.

O problema aumenta quando a fedentina escapa dos palácios e chega às ruas. O cidadão que queria ouvir sobre saúde, educação, segurança e emprego passa a receber caminhões de acusações.

Com o tempo surge um fenômeno curioso: o "deixa pra lá". Depois de tantos ataques e denúncias, muita gente desenvolve imunidade olfativa. O nariz democrático simplesmente para de funcionar.

E quem vence essa guerra?

Nem sempre quem tem razão. Nem sempre quem trabalha melhor. Muitas vezes vence quem convence o eleitor de que o cocô do adversário possui aroma mais devastador.

Por isso, a expressão Guerra do Cocô talvez seja uma definição bastante precisa. Ela descreve disputas onde a quantidade de sujeira lançada frequentemente supera a quantidade de ideias apresentadas.

Se fechássemos as fábricas de corrupção, certamente diminuiríamos a produção de munição. Menos matéria-prima, menos ataques e mais espaço para soluções.

A moral desta crônica é simples: democracia não deveria obrigar ninguém a votar usando máscara contra maus odores políticos. O eleitor merece respirar propostas, resultados e honestidade. 
E como medida de saúde pública para o debate nacional, proponho a distribuição gratuita de escovas de dentes a candidatos, assessores e militantes. Talvez elas não limpem consciências, tarefa bem mais complicada, mas ajudarão a combater o terrível mau hálito que algumas ideias exalam quando saem das fossas do poder em direção às urnas.

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