ARTIGO

O bispo perdeu a paciência com Dona Maria Adelaide

Por Armando Alexandre dos Santos |
| Tempo de leitura: 3 min
Divulgação
 Armando Alexandre dos Santos  é Doutor na área de Filosofia e Letras, membro da Academia Piracicabana de Letras e do IHGP. 
 Armando Alexandre dos Santos  é Doutor na área de Filosofia e Letras, membro da Academia Piracicabana de Letras e do IHGP. 

O fato, ocorrido em princípios do século XX, foi-me contado por um distinto amigo português.

Sua tia, de nome Maria Adelaide, vivia sozinha, num espaçoso e rico solar situado num vilarejo do interior de Portugal. Já muito idosa, era conhecida nas redondezas pela sua imensa caridade. Os pobres da região sabiam que podiam contar com a boa madrinha. Eram muitas dezenas, talvez centenas, os afilhados e afilhadas da boa senhora espalhados pelas cercanias. E de todos ela sabia o nome, para todos mandava presentinhos nos respectivos aniversários, empenhava-se para que todos casassem bem e fossem muito felizes. Era de todos querida e estimada.

Tão rica e tão generosa, Dona Maria Adelaide foi desenvolvendo, ao longo da vida, uma filosofia peculiar. Essa filosofia se resumia numa única frase, que ao mesmo tempo lhe servia de lição de vida e regra de conduta: o dinheiro não faz a felicidade.

Essa frase era o comentário habitual que fazia, sempre que lhe narravam algum fato - bom ou mau - ocorrido com alguma pessoa das redondezas. Essa frase era usada para consolar os pobres de sua pobreza, e para ensinar os ricos a não confiar na sua riqueza. Era também usada sempre por ela como conclusão, quando ela própria narrava algum episódio do passado, fosse qual fosse a sua natureza. “O dinheiro não faz a felicidade” era sempre a conclusão de todas as suas falas, fosse qual fosse a ocasião.

Certa vez, o bispo diocesano foi fazer a visita pastoral às igrejas e paróquias da região, e se hospedou na casa de Dona Maria Adelaide. Naqueles tempos remotos, as estradas rurais eram intransitáveis para os ainda raros automóveis, e por isso o prelado devia fazer suas andanças montado num burrico. Saía cedo e passava longas jornadas de aldeia em aldeia, vistoriando igrejas, altares, livros paroquiais. Ao cair da tarde, chegava cansadíssimo à casa de Dona Maria Adelaide, para jantar, rezar seu Breviário... e suportar a maior trabalheira do dia!

A maior trabalheira do dia era a conversação com Dona Maria Adelaide.

Ciosa de suas obrigações como anfitriã, a boa senhora julgava seu dever entreter o hóspede com longas conversações, nas quais contava minuciosamente casos e mais casos dos tempos antigos, e sempre os concluía com sua velha frase habitual:

- Pois é, senhor bispo, como Vossa Excelência vê, dinheiro não faz a felicidade.

O pobre bispo não via a hora de se livrar da conversa e ir dormir, pois no dia seguinte cedinho estaria novamente, montado no burrico, percorrendo estradas poeirentas e pedregosas, para visitar todas as igrejas da região. Mas Dona Maria Adelaide tinha mais outro caso para contar, e mais outro, e ainda mais outro... E sempre com a mesma conclusão:

- Pois é, senhor bispo, dinheiro não faz a felicidade.

Depois de quatro ou cinco noites seguidas nessa tortura, afinal o bispo não aguentou mais. Num momento de mau humor, perdeu a paciência e resolveu fazer um pequeno acréscimo à filosofia da anfitriã.

Quando ela, pela centésima vez, concluía uma narração dizendo que dinheiro não faz a felicidade, ele completou:

- É verdade, minha senhora, sobretudo quando é pouco…

 Armando Alexandre dos Santos  é Doutor na área de Filosofia e Letras, membro da Academia Piracicabana de Letras e do IHGP.

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