OLÍVIA FONSECA

‘A denúncia é o primeiro passo para interromper a violência’

Por Erivan Monteiro / JP1 |
| Tempo de leitura: 6 min

Delegada Titular da Delegacia de Defesa da Mulher (DDM), Olívia dos Santos Fonseca vem fazendo um trabalho muito importante no combate ao feminicídio e à violência doméstica em Piracicaba e região. Há quase sete anos à frente da DDM, a delegada entende o simbolismo de, como mulher, estar à frente desse trabalho tão relevante. “Sabemos o que é sentir a violência de gênero na pele, sabemos o que é machismo”, afirma.

A delegacia especializada faz atualmente, uma média 60 atendimentos por dia na cidade, entre elaboração de boletim de ocorrência, pedidos de medida protetiva, depoimentos em inquérito policial, apurações de denúncias anônimas. A busca por ajuda, de acordo com a delegada, se dá principalmente quando o agressor “deixa marcas na pele”, ou seja, quando há agressão física. “Mas certamente a violência psicológica precede a agressão física, porém, pode não ser notada”, declara.

No último ano, foram registrados quatro feminicídios consumados em Piracicaba – o dobro do ano anterior. Para Olívia, esse aumento (não somente em nossa cidade, mas no país como um todo) no número de crimes se dá em virtude de uma combinação de fatores. Porém, segundo ela, as redes sociais se tornou “um elemento recente e muito relevante nesse cenário” e contribuiu “para a banalização da violência contra a mulher”, diz.

A delegada afirma que essa atuação poderá melhorar quando todas as vítimas não se calarem. “A denúncia é o primeiro passo para interromper a violência.

Enquanto a mulher permanece em silêncio, o agressor entende que pode continuar e, na maioria das vezes, a violência só aumenta. Quando ela denuncia, o Estado passa a agir”, explica a delegada.

A DDM atende a cidade de Piracicaba e presta apoio às cidades da sub-região se necessário. A delegacia está localizada na rua Alferes José Caetano, 1018, na região centra da cidade, e funciona 24h. Veja, abaixo, os principais trechos da entrevista concedida ao JP.

Há quanto tempo você está à frente da DDM? Trabalho em DDMs há 13 anos. Fiquei seis anos em Santa Bárbara d’Oeste e estou há quase sete em Piracicaba. Estava como Assistente e há dois anos estou na titularidade.

Na sua opinião, o fato de ser uma mulher dá uma tranquilidade maior para as vítimas de violência? Sim...certamente. É mais fácil para a mulheres "desabafar" com outra mulher, pois entendemos melhor a situação. Sabemos o que é sentir a violência de gênero na pele, sabemos o que é machismo, enfim, temos melhores condições de compreender a mulher.

Qual a média de denúncias de violência doméstica em nossa região por dia? Posso dizer pela cidade de Piracicaba. Fazemos em média 60 atendimentos, entre elaboração de boletim de ocorrência, pedidos de medida protetiva, depoimentos em inquérito policial, apurações de denúncias anônimas. Em média registramos de 10 a 15 boletins, mas ainda recebemos boletins eventualmente registrados em outras cidades (pois, às vezes, o fato ocorreu em Piracicaba, mas a pessoa registra na cidade em que está) e também recebemos os boletins de ocorrência da DDM on-line.

Quais as maiores violências que a mulher sofre: agressão física ou psicológica? Se fizermos a leitura dos boletins de ocorrência, posso dizer que é agressão física. As mulheres, às vezes, têm dificuldade de identificar que estão sofrendo abusos e isso só torna real para ela quando deixa marcas na pele (no caso da agressão física). Mas certamente a violência psicológica precede a agressão física, porém, pode não ser notada.

Sobre os feminicídios, quantos houve no último ano em Piracicaba? Aumentou ou diminuiu em relação aos anos anteriores? No último ano, foram registrados quatro feminicídios consumados em Piracicaba. Em 2024, tivemos dois.

Na sua opinião, o aumento das leis tem ajudado as mulheres e a própria polícia? Sim, ajuda, pois mostra que o Estado está empenhado no combate à violência contra a mulher. Por muito tempo, a violência contra a mulher, especialmente a doméstica, foi tratada como algo que deveria ser resolvido entre o homem e a mulher, uma situação privada onde o Estado não deveria intervir. A partir do momento em que se cria leis, investe-se em campanhas, em políticas públicas, a visibilidade ao problema aumenta fazendo com que toda a sociedade se engaje, o que é o correto, já que a violência contra a mulher é além de crime, um grande problema social.

A que você atribui o aumento de feminicídios em nosso país? Essa pergunta é bem complexa. Eu atribuo o aumento dos feminicídios a uma combinação de fatores, mas vejo nas redes sociais um elemento recente e muito relevante nesse cenário. A internet passou a dar visibilidade e até monetização a discursos que antes ficavam restritos a círculos privados — discursos que menosprezam as mulheres, reforçam estereótipos de inferioridade e, em casos mais graves, normalizam ou incentivam a violência de gênero. Hoje, há pessoas que ganham alcance, influência e dinheiro promovendo esse tipo de conteúdo, o que contribui para a banalização da violência contra a mulher. Isso cria um ambiente de validação para comportamentos agressivos e reforça uma cultura já marcada pelo machismo estrutural. Mas é importante destacar que esse aumento também está ligado a falhas na prevenção, na proteção das vítimas e na responsabilização dos agressores. Ou seja, não se trata de uma causa única, mas de um conjunto de fatores que, somados, tornam o cenário ainda mais preocupante.

Recentemente, você entregou a “pulseira da amizade” à árbitra Daiane Muniz, que foi vítima que um comentário machista do jogador Gustavo Marques em uma partida do Campeonato Paulista. Queria que comentasse o simbolismo desse gesto… A Daiane, assim como eu, ocupa uma posição majoritariamente ocupada por homens. O comentário que ela sofreu, em rede nacional, na ocasião em que o jogador quis atribuir a ela seu pífio desempenho no jogo, me tocou em um lugar que eu conheço bem. Sei bem o que é ser menosprezada só pelo fato de ser mulher. Atualmente, temos muitas mulheres na polícia, mas esse cenário nem sempre foi assim. É um espaço que tivemos que ocupar com muito empenho e dedicação. Quando soube que a Daiane viria, quis prestigiá-la, incentivá-la e mostrar para ela que ela não está sozinha. A pulseira da amizade é algo que adotei na DDM para aproximar as mulheres da delegacia, tornar o ambiente menos pesado e encorajá-las a vir fazer a denúncia. É uma forma de companheirismo e acolhimento.

Para finalizar, gostaria que falasse para as mulheres vítimas de violência doméstica sobre a importância da denúncia. A denúncia é o primeiro passo para interromper a violência. Enquanto a mulher permanece em silêncio, o agressor entende que pode continuar e, na maioria das vezes, a violência só aumenta. Quando ela denuncia, o Estado passa a agir: é possível pedir medida protetiva, afastar esse agressor e evitar que a situação chegue ao pior desfecho, que é o feminicídio. Eu sei que não é fácil denunciar. Existe medo, dependência emocional, financeira… mas a verdade é uma só: quanto antes essa mulher procura ajuda, maiores são as chances de ela sair viva dessa situação. Denunciar não é só um direito, e sim uma forma de se proteger e de romper esse ciclo de violência. Sempre digo: não se cale, o silêncio mata!

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