Desde a Antiguidade, a cidade africana de Ceuta sempre foi considerada de grande importância militar e econômica. Meta sempre visada por quantos pretendessem estender seus domínios da Europa à África, ou passar deste para aquele continente, inicialmente a ocuparam os cartagineses. Os romanos a tomaram depois. Seguidamente, os vândalos e por fim os godos lá se estabeleceram. Os maometanos se apoderaram da cidade em 710 e, utilizando-a como base, partiram para a conquista da decadente Espanha visigótica.
Ademais do valor estratégico, Ceuta foi adquirindo, no correr dos séculos, cada vez maior importância comercial. Compreende-se por tudo isso quão zelosamente velavam os maometanos pela segurança de Ceuta. Orgulhosos de suas riquezas e confiados em suas próprias forças, não poderiam supor que cristãos europeus ousassem investir contra a cidade. Até mesmo porque Ceuta não se encontrava isolada, mas tinha por trás de si todo o norte do continente africano, maciçamente muçulmano, e o poderoso reino de Granada a resguardaria contra qualquer pretensão hispânica.
Foi no início de 1415 que o rei de Portugal, D. João I, resolveu tomar de assalto a praça forte maometana, a instância de seus filhos Duarte, Pedro e Henrique, que haviam chegado à idade de serem armados cavaleiros. Dispunha-se o “Rei de Boa Memória” a promover um vistoso torneio, no qual pudessem os jovens mostrar o valor de suas armas para merecerem, assim, o ambicionado galardão. Para espanto do monarca, porém, a ideia não despertou o entusiasmo que esperava. Objetaram os três que melhor seria provar seu valor contra inimigos da fé do que em fingidos torneios. Não estava Ceuta ali próxima, quase à vista? Por que não atacá-la?
Prudente, o rei não quis decidir sem ouvir as autorizadas opiniões da rainha D. Filipa e do Condestável São Nuno Álvares Pereira, respeitado como estrategista militar e vencedor dos castelhanos em numerosas batalhas. A rainha aprovou inteiramente a proposta dos filhos e o Condestável, cuja idade não havia extinguido o ardor combativo, imediatamente se ofereceu para acompanhar a expedição. O entusiasmo guerreiro do Santo contribuiu poderosamente para dissipar as dúvidas que ainda alimentava o rei, o qual, por fim, determinou que se recrutassem com presteza as tropas necessárias.
Depois de alguns meses de intensos preparativos, cercados, aliás, do maior sigilo quanto ao objetivo visado, afinal partiu de Lisboa uma forte armada. Comandava-a o próprio rei. Cruzado o estreito de Gibraltar e tendo Ceuta à vista, dispôs o monarca seus navios em ordem de combate e ordenou o desembarque das tropas. A cidade ofereceu feroz resistência. Os três filhos do rei realizaram prodígios de valor entre os mouros, e o próprio monarca, apesar da idade avançada, também combateu a pé, sendo até ferido na luta.
Depois de horas de combate, já não podendo conter o ímpeto da ofensiva cristã, a resistência muçulmana cedeu e Ceuta foi inteiramente dominada pelos lusos. No próprio campo de batalha, o rei sagrou cavaleiros os três filhos, e sobre a mais alta torre da cidade foi içado o pendão real, com as Cinco Chagas do Salvador. Isso aconteceu no dia 22 de agosto de 1415. A mesquita, que até então fora o orgulho da cidade, toda de mármore e mosaicos coloridos, foi canonicamente purificada e tornou-se templo católico, condição que conserva até hoje. No altar-mor, colocou-se a imagem da Virgem que o rei trouxera de Lisboa, para abençoar a expedição. A tropa a designava como “Virgem de África”, nome pelo qual passou a ser conhecida. Ainda hoje é venerada como padroeira da cidade.
Ceuta foi a única cidade portuguesa que, após a Restauração da independência lusa, em 1640, não retornou à posse dos portugueses. Até hoje permanece cristã, constituindo um enclave espanhol do reino de Marrocos. Muitas vezes tentaram os maometanos recuperá-la, chegando certa vez a cercá-la durante 33 anos ininterruptos (de 1694 a 1727!), mas Ceuta resistiu e continuou cristã.
Esse foi o primeiro lance da expansão portuguesa pelos mares do planeta. O descobrimento oficial do Brasil, 85 anos depois, foi, de certa forma, consequência desse episódio da História de Portugal. Daí a importância do centenário para a História do Brasil.
Armando Alexandre dos Santos é Doutor na área de Filosofia e Letras, membro da Academia Piracicabana de Letras e do IHGP.