OPINIÃO

A educação que nunca chega


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Recebi, incrédula, a informação de que os alunos do ensino fundamental e médio do Estado de São Paulo já conseguem escrever dez redações por ano, que são corrigidas pela (des) inteligência artificial. Dez redações por ano? É muito pouco, minha gente, para que eles consigam adquirir a mínima habilidade de escrita. Se a redação é corrigida pela IA, te garanto que também é feita por ela.

Além de escassear na escrita, imaginem o repertório que as nossas crianças e adolescentes têm, afinal, redes sociais não trazem nada. Estamos criando futuros cidadãos que não sabem ler, escrever e interpretar texto. Se Maquiavel estivesse ainda por aqui, ele diria que é exatamente isso que o Estado quer - cidadãos sem senso crítico, incapazes de interpretar as informações que chegam até ele.

Outro dia brinquei com um amigo meu, gestor público eficiente, que tem uma filha de 11 anos. Se fosse minha, eu disse, proibiria o acesso às redes sociais e telas e voltaria a oferecer livros impressos, jornais diários,  para que ela entenda e construa seu próprio argumento crítico.

O desmazelo é maior quando se trata de crianças com deficiências, qualquer delas, seja TDAH, dislexia, deficiência mental e autismo. O que se percebe na prática é que este aluno fica “esquecido” na sala de aula superlotada e que ninguém, mas ninguém mesmo, toma conta de uma pedagogia individualizada para que esse aluno aprenda. Na verdade, é um saco de batatas, jogado na sala de aula.  Toda vez que me deparo com um relato de uma mãe atípica, eu choro e rezo. Porque é uma tremenda injustiça social.

Toda criança tem o direito de aprender. No tempo dela. Toda criança tem o direito de ser acolhida, com amor e respeito na sala de aula.

Tenho três sobrinhos do espectro autista e  meu irmão e minha cunhada compram todas as brigas para a inclusão, com terapias e verdadeiro acesso à sala de aula. Tem dado certo. Os meninos já estão lendo e escrevendo. E estou falando de um estado, como Rondônia, onde eles moram. Aqui em São Paulo, rico por natureza, esse descaso é mais dolorido.

O que tem acontecido nas salas de aula é que este aluno, não trabalhado, se sentirá excluído e acabará abandonando os estudos. E virando o quê? Mais um futuro morador em situação de rua, um dependente químico ou portador de doença mental não tratada. Saltou-me aos olhos uma pesquisa que aponta como a automutilação tem aumentado entre os adolescentes, com a constante pressão externa e o não reconhecimento de seus valores.

A escola, que antes deveria ser refúgio, virou ambiente hostil. Professores que não sabem lidar com tantas deficiências que ora se apresentam, com classes superlotadas, pais pressionados por um mercado de trabalho insano  e a criança abandonada às telas e a adultos despreparados.

Se vocês acharam que um dia o Brasil seria um país do futuro, esqueçam. Não temos futuro algum. Não educamos nossas crianças adequadamente, não olhamos por elas e não estamos preocupados em criar adultos responsáveis e prontos para a vida, para o mercado de trabalho e relações sociais.

Nessas horas, lembro de Josette Feres, a principal pedagoga musical brasileira. “As crianças precisam ser olhadas como crianças e meus alunos merecem todo meu respeito.” 
Josette não viu o desmantelo da educação, mas mestres e professores também merecem nosso respeito. Nas mãos deles, nosso futuro.

Todo cidadão jundiaiense deveria cobrar isso de seu governo estadual, pois somos nós que o sustentamos.

Ariadne Gattolini é jornalista e escritora. Pós-graduada em ESG pela FGV-SP, administração de serviços pela FMABC e periodismo digital pela TecMonterrey, México. É editora-chefe do Grupo JJ

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