Você já deve ter ouvido falar de Star Wars, franquia multimídia de fantasia científica criada pelo cineasta George Lucas. Ou quem sabe, de Star Trek, outra franquia gigantesca de space opera criada pelo produtor Gene Roddenberry. Ou talvez de Interestelar, 2001 - Uma Odisseia no Espaço, Avatar, Matrix, A Chegada, Alien, Blade Runner, A Origem, Duna, Black Mirror, Vingadores… Algum desses títulos deve ser, pelo menos, familiar. Todos eles fazem parte do mesmo gênero: ficção científica — um mercado que movimenta mais de US$ 15 bilhões em produções.
No último mês, mais uma obra se juntou a esse montante. O filme Devoradores de Estrelas, baseado no livro homônimo de Andy Weir, traz a história de um professor de ensino fundamental que, após acordar com amnésia em uma nave no espaço, precisa se aliar a um alienígena para salvar os planetas de ambos (sem spoilers! Essa informação está no trailer). Em apenas três semanas, a produção arrecadou mais de US$ 420 milhões nas bilheterias mundiais, tornando-se a maior arrecadação global do ano para um filme hollywoodiano e reforçando a popularidade do gênero.
Mesmo depois de décadas, a ficção científica continua arrastando uma multidão de fãs apaixonados, que fazem questão de demonstrar sua devoção e acompanhar as novidades. Edison Franco Junior, professor de química e engenheiro elétrico de 46 anos, enxerga o gênero como uma forma de explorar conceitos da própria profissão. “O que me atrai é a liberdade de explorar ideias sem as amarras do presente, mas sem perder a lógica. Na minha área, a química quântica, a realidade já é estranha. A ficção científica pega esse estranhamento e mostra como ele afeta pessoas, sociedades e decisões.”
Para ele, que se encantou com o gênero ainda criança, com os sabres de luz, robôs e naves de Star Wars, a ficção científica deve ser o encontro da curiosidade com a reflexão. O entretenimento vem como consequência. Jefferson Bellezo, analista de sistemas de 53 anos, já traz um olhar mais lúdico para as produções. “É incrível a possibilidade de imaginar o futuro e o que existe após as fronteiras. Ou apenas imaginar o que poderia ser, mesmo que não seja possível.”

Para Jefferson Bellezo, é a diversidade de subgêneros que garante o sucesso
Jefferson entende, porém, que não se trata apenas disso. De acordo com ele, as obras utilizam temas como alienígenas e robôs para tratar questões de racismo, misoginia, xenofobia, homofobia e outras críticas sociais. Elas refletem medos e contextos das sociedades em que são produzidas.
E não é só entre os mais velhos que a ficção científica faz sucesso. Iris Italo Marquezini é uma jornalista e mestranda em Comunicação de 24 anos. Apaixonada pelo gênero desde pequena, Iris se conecta com o lado mais humano das narrativas. “Uma boa história de ficção científica, indiretamente, ensina ao público a como manter sua própria humanidade em meio às mudanças políticas e tecnológicas da nossa era. O jogo Disco Elysium foi muito formativo para a minha mentalidade política, porque me fez perceber o quanto a realidade brasileira, por exemplo, não se resolve de uma hora para a outra ou por meio de um político sozinho agindo como herói e, sim, de forma coletiva.”

Iris Marquezini enxerga no gênero a possibilidade de transformação emocional e moral
Para os três, a ficção científica é um diálogo direto com o presente, mas todos possuem interpretações diversas sobre a razão de ter permanecido no gosto popular por tanto tempo. Para Edison, são os sentimentos universais que mantêm o gênero vivo. “Todo mundo tem medo do futuro, mas também tem esperança. A criança quer ver a nave legal. O adulto quer ver o dilema moral. O cientista quer ver se acertaram a física. E todos querem uma resposta para a mesma pergunta: e se o mundo pudesse ser diferente?”
Jefferson e Iris concordam que a permanência vem da diversidade. “Continua relevante, porque não se permite ser uma coisa só. O sci-fi é um gênero intrinsecamente inovador. É por meio das novas ideias que não foram valorizadas e reconhecidas anteriormente que chegamos nas próximas narrativas inovadoras e surpreendentes que podem fazer todos terem vontade de se unir e quem sabe salvar o mundo”, explica Iris.
Para ela, além de o gênero trazer mais representatividade preta, LGBTQ+ e feminina, as obras em formato de anime também são responsáveis por atrair o interesse do público jovem. Quanto aos mais velhos, que viram o termo geek deixar de ser um adjetivo pejorativo e passar a ser algo descolado e plural, a ficção científica é parte da própria história.
“Minha geração, nascida nos anos 70/80, viu o computador pessoal nascer, a internet chegar, o celular virar smartphone. A ficção científica, muitas vezes, previu ou inspirou essas coisas. A gente se sentiu parte da história. Mas uma coisa não mudou: o fã de ficção científica ainda é alguém que se incomoda com o mundo como ele é e acha que ele podia ser melhor. Star Trek plantou isso em muita gente da minha geração”, conclui Edison.