ENTRE JOVENS

Risco sabor tutti frutti: cigarro eletrônico já é rotina colegial

Por Redação |
| Tempo de leitura: 6 min
Apesar de haver proibição no Brasil, os dispositivos são facilmente encontrados em lojas e também pela internet (imagem)
Apesar de haver proibição no Brasil, os dispositivos são facilmente encontrados em lojas e também pela internet (imagem)

Há algum tempo, o Brasil comemorava a drástica redução no número de novos fumantes. Essa redução significava um sistema de saúde menos pressionado por problemas desencadeados pelo hábito do fumo, como câncer e doenças cardiovasculares. A comemoração, no entanto, durou pouco. Isso porque o fumo se reinventou, ganhou ares tecnológicos, faz jus à contemporaneidade e, embora a embalagem seja mais atrativa, principalmente para jovens, se mantém danoso.

29,6% dos estudantes de 13 a 17 anos no Brasil alguma vez na vida experimentou cigarro eletrônico ou outros dispositivos eletrônicos de fumar. No Estado de São Paulo, esse percentual foi de 35,2%. Na cidade de São Paulo, foi de 38,7%. O percentual é consideravelmente superior ao de adolescentes que já provaram cigarro convencional ao menos uma vez na vida. No Brasil, foram 18,5%, no Estado de São Paulo, 17,9% e 17,2% na Capital paulista. Os dados são da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar, desenvolvida em 2024 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e divulgada em março deste ano.

Pneumologista que mantém um trabalho voltado à conscientização do uso de cigarros eletrônicos, Eduardo Leme percebe também em Jundiaí, nas escolas onde faz palestras, um cenário preocupante. "O consumo de cigarro eletrônico vem aumentando. Vejo nas escolas que uma média de 20% a 30% de alunos do 7º ao 9º ano fazem uso. É muita gente. Só aumenta e ainda tem um lobby forte, tanto que quase teve liberação dos PODs no Brasil", lembra o médico sobre a proibição que existe desde 2009 e foi revista, mas mantida, em 2024.

O especialista diz que os riscos são altos e não só ao sistema respiratório. "Desde o início, quando o cigarro eletrônico chegou, havia o problema de causar lesão pulmonar, mas não se conhecia muito isso. As pessoas começaram a perceber o problema como insuficiência pulmonar. Na época da pandemia de covid-19, alguns pacientes com quadro semelhante ao da doença iam ao hospital e percebiam que não era covid. A insuficiência ligada ao uso de PODs se chama EVALI."

E com muitos jovens fumando, Eduardo alerta para o preocupante cenário futuro. "Hoje, por serem jovens, têm um pulmão bom, uma saúde boa, mas isso vai sendo afetado. O cigarro cria um estado de inflamação nos órgãos, não só no pulmão, diminui o calibre das artérias e, geralmente, a partir dos 40 anos as pessoas começam a ter doenças. Os efeitos se manifestam desde o início, mas com o passar do tempo aparecem os distúrbios, então teremos futuramente uma legião de adultos com problemas relacionados ao uso do cigarro eletrônico."

"Gato por lebre"

Eduardo relata que o cigarro eletrônico surgiu na década de 1990 justamente para auxiliar fumantes a largarem o hábito. Mas o efeito observado é o oposto, com pessoas inclusive começando a fumar o cigarro eletrônico e migrando para o convencional. "O cigarro eletrônico tem um sabor agradável, que o cigarro convencional não tem, então é mais fácil que aconteça a repetição do uso entre jovens. Mas quando o jovem começa a ficar dependente, o cigarro eletrônico é mais caro, então demanda um gasto maior, e quando fica difícil manter, a pessoa vai para o cigarro tradicional, com suas 4,7 mil substâncias químicas diferentes."

Freepik / prostooleh

As essências, ou 'juices', que dão sabor aos dispositivos, têm muitas substâncias que fazem mal

O pneumologista lembra que o cigarro eletrônico tem menos substâncias maléficas que o cigarro tradicional, mas também faz mal. "As pessoas acham que cigarro eletrônico não faz mal, tanto que fui a uma escola e uma mãe tinha liberado a filha da 7ª série para fumar, porque ‘não faz mal’."

"Nos dois tipos de cigarro, o grande problema é a nicotina. Um segundo problema são as essências, ou ‘juices’, que dão sabor aos PODs e têm muitos produtos químicos que também fazem mal, então, além da nicotina, tem muitas substâncias. O cigarro eletrônico também é proibido no Brasil, o que se vende é contrabando, então não tem um controle e ele pode ter muitas substâncias que fazem mal", explica.

Nos dispositivos eletrônicos, porém, há diferenças no tipo de nicotina e na dosagem. "Os PODs têm uma apresentação diferente da nicotina, que é NicSalt, sal de nicotina, substância absorvida muito mais rápido e com capacidade viciante maior do que a nicotina tradicional", conta. "Um cigarro convencional tem de 10 a 12 tragadas, então termina e a pessoa volta a fumar só depois. Os PODs têm 100, 500, 1 mil tragadas, então são mais tragadas, não tem uma limitação", diz o especialista.

Controle no ambiente escolar

Por conta da idade dos estudantes envolvidos na pesquisa, o Jornal de Jundiaí questionou a Secretaria da Educação do Estado de São Paulo (Seduc-SP) sobre a conscientização dos adolescentes e o controle relacionado a este tipo de dispositivo no ambiente escolar. Segundo a Seduc-SP, a pasta desenvolve ações de prevenção, por meio do Programa de Melhoria da Convivência e Proteção Escolar (Conviva SP), que trata sobre o uso de drogas a fim de promover o alerta, a reflexão e a conscientização dos alunos sobre os seus riscos.

Quando há qualquer tipo de ocorrência relacionada ao uso de drogas (lícitas ou ilícitas) ou substâncias tóxicas no ambiente escolar, a direção entra em contato com os responsáveis pelos estudantes envolvidos, para fins de esclarecimento e adota providências que preservem o direito à Educação. A depender da situação, os órgãos de segurança, como Polícia Militar e Conselho Tutelar, também são acionados.

Apesar do uso de cigarro eletrônico não ser comum entre crianças, o JJ também questionou a Secretaria Municipal de Educação (SME) de Jundiaí sobre o assunto. Segundo a pasta, na rede municipal, as escolas adotam protocolos pedagógicos e administrativos para orientação e prevenção em situações que envolvem comportamentos de risco à saúde dos estudantes, como o uso de dispositivos eletrônicos para fumar. Nesses casos, as unidades registram a ocorrência, promovem a escuta dos alunos e acionam as famílias para alinhamento de orientações. As medidas têm caráter educativo, com foco na conscientização e no desenvolvimento integral dos estudantes. Quando necessário, os encaminhamentos seguem fluxos intersetoriais, com articulação junto à rede de proteção, incluindo serviços de saúde e demais órgãos competentes.

Vício tem cura

Também em Jundiaí, a Secretaria de Promoção da Saúde tem o Programa de Assistência Intensiva ao Tabagista (Pait), com encontros semanais e acompanhamento médico para pessoas que desejam parar de fumar. O Pait atende, prioritariamente, pessoas maiores de idade e é voltado a fumantes que desejam abandonar a dependência da nicotina, incluindo usuários de cigarros eletrônicos (vapes). O programa oferece acompanhamento multiprofissional, grupos de apoio e, quando necessário, suporte medicamentoso. Em 2026, três pessoas procuraram os grupos do programa em razão da dependência de cigarros eletrônicos. Embora a procura específica ainda não seja expressiva, o Pait mantém um trabalho contínuo de conscientização, especialmente voltado ao público jovem, além de registrar aumento na demanda de escolas estaduais por palestras e ações educativas sobre o tema.

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