ARTIGO

Temas tabus

Por Ceílio Elias Netto |
| Tempo de leitura: 3 min
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Ceílio Elias Netto é jornalista e escritor.
Ceílio Elias Netto é jornalista e escritor.

Receio, medo, superstição, respeito, cautela? Ou o somatório de tudo? Questões há a respeito das quais nunca consegui escrever. Nem, também, sobre elas pensar. Creio – diante de temas secularmente insolúveis – ter-me intoxicado, ainda quando adolescente, com os desafiadores debates na faculdade de Direito. Ao final daqueles 1950, sentíamo-nos construtores de outro Novo Mundo. Éramos os novos heróis.

O jornalismo diário – exercido ao longo de décadas – pode insensibilizar corações, não tenham eles reservas naturais de proteção. Vive-se sob um bombardeio de más notícias, como se nenhuma informação generosa e vitalizante tivesse importância. Há secção permanente para falecimentos, a necrologia. E nenhuma, em especial, para nascimentos. Registram-se guerras, combates, violências. Ignoram-se, porém, gestos e demonstrações de cordialidade. Culpa dos jornalistas, de leitores de jornais? Ou de estes e aqueles?

Não há, porém, como negar seja-nos quase habitual esse viver com a violência e a ela sobreviver. E já se tornou consenso entre os estudiosos a convicção de a caminhada humana ser, em especial, uma história de guerras. Começou – para as civilizações monoteístas – com um conflito familiar: Eva, Adão, a serpente, o fruto proibido. E, em seguida, os filhos Caim e Abel. Iniciamo-nos com discórdias que se estenderam a famílias, tribos, povos, nações. Até aqui, nenhuma deusa ou deus ancestral, nem profetas, nem mensageiros divinos, messiânicos – nenhum, apesar de mensagens de paz e amor, conseguiu a paz universal.

Desde a Mesopotâmia e há cerca de cinco mil anos, seres humanos – sumérios, hititas, assírios – começaram a façanha de registrar o ocorrido quase que apenas com símbolos. E chegamos até aqui, com esses até mesmo espantosos métodos e técnicas de comunicação. O que e quanto já não se escreveu? E quantos propósitos, ideologias, intenções sinceros ou oportunistas? Pero Vaz de Caminha – nosso primeiro comunicador – escreveu o que viu ou o com que se impressionou? Quem busca ouvir a história contada pelos vencidos? E, muitas vezes, a versão que interessa.

O escriba não consegue sequer imaginar o que, quanto ou sobre o que – nestes 70 anos de atividades – já escreveu. Todavia, sabe de questões, de assuntos sobre os quais jamais se atreveu a comentar. Na realidade, nos quais, até mesmo, evita pensar. Perturbam-no, fazem-lhe mal. Pois, são a antítese da vida. Ao mesmo tempo, mistérios – desse também misterioso ser humano – que desafiam opiniões, sequer admitindo-as. Os orientais, há séculos, compreenderam um dos segredos da sabedoria: o silêncio. Que pode ser entendido, também, como recusa a manifestar ou a receber opiniões: não ver, não ouvir, não falar.

No jornalismo de até algumas décadas passadas, suicídio e aborto estavam entre os temas-tabus. Não se divulgavam. A liberdade de expressão não era um direito absoluto, de plenitude. Havia que associar-se à consciência de responsabilidade. Quais as possíveis consequências, quais os efeitos? Não estávamos sob o domínio da palavra “mídia”, que, na realidade, nada significa. Tratava-se de comunicação social, que exigia sérios e graves compromissos, com legislação definida.

As atualmente denominadas redes sociais – pululantes no universo virtual – hão que ser consideradas veículos de comunicação social. Não podem estar imunes a limites exigidos pela própria concepção de liberdade. Há temas tabus na comunicação social. E nenhuma tecnologia – por mais revolucionária seja – pode arrogar-se o direito e o poder de manipular a dignidade humana. Regular ou submeter-se.

Ceílio Elias Netto é jornalista e escritor.

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