Foram muitas as ideias e as promessas. Lembro-me que, quando entrei no Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba, ouvi a promessa de digitalizar o acervo deste importante centro cultural. A promessa veio do poder público. Ao lembrar que ouvi isso em abril de 2010, noto que a ideia ficou apenas no papel. Já faz muito tempo.
No dia 28 de março, o IHGP em conjunto com a iniciativa privada, disponibilizou mais de 8 mil imagens do jornal “Gazeta de Piracicaba”, periódico trissemanal que circulou de 1882 a 1938. A coleção não está completa, mas tem quase sua totalidade. E o material disponível ecoa a história de Piracicaba na época do Império até a segunda Constituição Federal promulgada por Getúlio Vargas. Claro que ela passa por décadas e mais décadas de registros do que ocorreu em nossa cidade. Estas imagens podem ser lidas, consultadas e baixadas a partir do site do IHGP. Tudo de forma gratuita.
A “Gazeta” foi importante centro de informação de uma Piracicaba provinciana. Foi consultada por dezenas de jornalistas, professores, estudiosos, pesquisadores, historiadores ... Praticamente os principais acontecimentos foram nela estampados. O jornal foi por muito tempo o único veículo de comunicação de Piracicaba.
Em suas páginas é possível conferir como a cidade recebeu a notícia do assassinato de Almeida Júnior, contemplado pelo mecenato de Dom Pedro 2º e autor das principais telas a óleo do país, com reconhecimento internacional. Almeida foi morto por golpes de adaga na praça José Bonifácio em frente ao Hotel Central quando o marido de sua prima descobriu uma traição conjugal.
Brasílio Machado também conseguiu destaque através das páginas deste jornal com seu poema “Piracicaba”, dando a Piracicaba o epíteto de “Noiva da Colina”. Inicialmente ele havia publicado o poema em um livro, “Madresilvas”, edição portuguesa de 1876, mas foi na “Gazeta” que ele conseguiu repercussão maior. Não há de se negar que tenha dado certo.
O jornal é fonte importante do mercado publicitário. Passaram por suas páginas as principais empresas locais. Curioso é ver os restaurantes e hotéis oferecendo seus serviços e sua gastronomia. “Suculentos bifes com deliciosas batatas em qualquer horário do dia”, dizia um. “Hotel no Centro com bebedouro para cavalos na praça do entorno”, dizia outro. Pelas artes publicitárias é curioso conhecer um mercado distante com empresas que não mais existem ou deixaram sua marca como o Hotel Lago, de Manoel do Lago, tio de Mário Lago – ator da Globo e autor de “Ai que saudade de Amália”.
Foi neste matutino que se soube que Piracicaba recebeu o primeiro filme de cinema 130 anos atrás – a serem lembrados em outubro próximo. Isso ocorre dez meses após a apresentação do novo equipamento em Paris por Auguste e Louis Loumière. Um barracão improvisado próximo a Matriz na hoje rua Moraes Barros, possivelmente no estacionamento do extinto Banco Santander. Klene e Mewe trazem a cidade o cinematógrafo, o espectro cinematográfico, que apresentaria um mundo nunca imaginado pelas pessoas. Filmetes curtos de animais correndo, trem chegando a estação e assim por diante fizeram a primeira sessão numa magnífica avant-premiére.
No acervo disponível é possível ver a trajetória de Martha Watts, Prudente de Moraes e outros personagens que moldaram a sociedade local. É possível acompanhar como foi a instalação da iluminação elétrica nas ruas da cidade. Claro que o jornalismo não era o que mesmo que conhecemos atualmente ou de tempos mais recentes. As informações eram bem rasas e cheias de adjetivos. Poucos nomes eram citados. Mas o conteúdo serve de base para muito conhecimento. E que, com o acervo digitalizado e disponibilizado, possa-se reescrever e descobrir histórias de Piracicaba.
Edson Rontani Júnior é jornalista e vice-presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba.