Continua repercutindo a campanha para que a Academia Piracicabana de Letras obtenha uma sede. Os três jornais diários da cidade estão, conjuntamente, promovendo essa campanha, em boa hora lançada pela poetisa Raquel Delvaje, atual presidente da APL
Não é a primeira vez que, no Brasil, uma Academia de Letras procura ansiosamente por um lar. Isso aconteceu até com a mais antiga e prestigiosa das Academias, a brasileira. Desde sua fundação, em 1897, por 26 longos anos andou ela afanosamente à cata e à espera de uma sede permanente, até que em 1923 um presente inesperado lhe caiu do céu... Vejamos como.
Realizou-se em 1922 uma grandiosa Exposição Internacional comemorativa do Centenário da Independência, projeto que ensejou a modernização da Capital Federal, com a derrubada parcial do Morro do Castelo, para dar lugar a uma ampla área na qual, bem no centro da cidade, puderam comodamente se instalar não apenas a Exposição Nacional, mas também representações estrangeiras.
As Exposições Universais, periodicamente realizadas no Velho Mundo ou nos Estados Unidos desde meados do século XIX, eram conhecidas como “vitrines do progresso”, porque nelas os diversos povos timbravam em exibir seus produtos naturais ou industriais, realizando dessa forma eficiente propaganda comercial e, ao mesmo tempo, adquirindo ou consolidando prestígio internacional. Recorde-se que D. Pedro II quis comparecer, em 1876, à Exposição Universal de Filadélfia, nos Estados Unidos, e foi ali que tomou contato com o telefone, que acabava de ser inventado por Graham Bell.
A Exposição Internacional de 1922 - a primeira realizada após o final da Grande Guerra - foi decidida no Brasil pelo Decreto nº 4.175, de 11/11/1920, e regulamentada pelo Decreto nº 15.066, de 24/10/1921, o qual também estipulou que a comemoração do Centenário comportaria, ademais da Exposição, eventos culturais em todo o país, com conferências e solenidades públicas, e lançamento de livros de cunho histórico, de dicionários e documentação cartográfica. Os Institutos Históricos e Geográficos, que a esse tempo já eram numerosos, chamaram a si, nos vários Estados, a responsabilidade de promover localmente eventos comemorativos, usando as respectivas revistas como veículos de difusão. O mesmo fez, em âmbito nacional, o tradicional Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, fundado em 1838.
A Exposição Nacional constou de oito grandes pavilhões: do Comércio; de Higiene e Festas; de Pequenas Indústrias; de Viação e Agricultura; de Caça e Pesca; da Administração; da Estatística, além de setores representativos dos vários Estados e da Grande Indústria. Segundo o “Livro de Ouro Comemorativo do Centenário da Independência e da Exposição Internacional de 1922” (Rio de Janeiro: Annuario do Brasil / Laemmert, 1923), mais de 6 mil expositores, provenientes de todos os Estados brasileiros, apresentaram seus produtos, e mais de 3 milhões de visitantes acorreram à exposição nos meses em que esteve aberta. 13 nações estrangeiras se fizeram representar, arcando cada qual com as despesas de instalação e exposição de suas delegações: Argentina, Bélgica, Dinamarca, Estados Unidos, França, Inglaterra, Itália, Japão, México, Noruega, Suécia, Tchecoslováquia e, em posição de destaque, Portugal. A Exposição Nacional, aberta a 7 de setembro, encerrou-se dois meses depois; a Exposição Internacional continuou aberta até julho de 1923.
Por que estou contando tudo isso? É porque foi graças à Exposição de 1922 que a Academia Brasileira de Letras obteve uma sede magnífica. O governo francês, que tinha mandado construir no Rio de Janeiro uma réplica do Petit Trianon de Versalhes, para abrigar a delegação francesa, resolveu generosamente doar, em 1923, o belíssimo edifício à ABL, que permanece na posse do imóvel até hoje.
No orçamento de uma grande empresa como a Hyundai, a Caterpillar, a Raízen ou a Dedini, o valor de um imóvel urbano é quase como uma gota de água no oceano. Será que alguma delas não poderia mostrar, com a cultura piracicabana, a mesma generosidade da França com a Casa de Machado de Assis? Fica aqui a sugestão.
Armando Alexandre dos Santos é Doutor na área de Filosofia e Letras, membro da Academia Piracicabana de Letras e do IHGP.