Vamos deixar de lado nossas ideias preconcebidas e formadas ao longo de muitos anos. Vamos encarar a realidade hoje, tal como ela é. Não dá mais para encarar a Europa como fazíamos na metade do século XX. Vamos dar adeus às nossas ideias de uma Europa grande, potente e corajosa. O que sobrou é um pálido resquício daquela do passado. Ela não inova mais, não produz riqueza, é fraca e deixou-se encolher ao longo dos últimos 25 anos.
Essa é a realidade que tanto queremos negar. É uma pena, mas o mundo não é o mesmo. Aquela Europa-modelo, com altíssimo padrão de vida, cheia de benefícios sociais, mostrou-se inviável e encolheu-se. Vamos aos números: Em 25 anos (de 2000 a 2025) a Europa saiu de uma louvável posição de detentora de 21% do PIB mundial para 16%.
Mas a comparação entre a Europa e países como China ou Estados Unidos fica bem pior: Em 2000, a China possuía um PIB de apenas 16% da Europa, já em 2025, a China (um só país) igualou seu PIB ao da Europa. Em 2000, o PIB americano superava o PIB europeu em 40%, em 2025 passou a deter 1,5 vezes mais o PIB da Europa. Países como a Índia e a Indonesia representavam apenas 6% e 2% do PIB europeu; em 2025, estes países passaram a representar, respectivamente, 22% e 8%.
A conclusão é uma só: a Europa apequenou-se. Está no caminho para a insignificância. Os números de arsenal militar e exército seguem na mesma toada. Em 2000 a Europa era uma potência bélica, já em 2025, apesar de sua população ter aumentado, o contingente do Exército perdeu 1 milhão de soldados. A China, por outro lado, passou a ter o dobro do tamanho de toda a Europa em contingente de exército e a superou na quantidade de ogivas nucleares.
É claro que nem China, nem Índia, nem Brasil possuem a Monalisa ou a Capela Sistina, mas esses tesouros antigos de nada servem para uma Europa charmosa e elegante. Quando o atual presidente dos EUA, com a arrogância que lhe é peculiar, diz que a Europa tem que «se virar por si própria», ele está dando um choque de realidade que até agora ninguém teve coragem de dizer aos líderes europeus. Ele mostra um espelho amargo para quem outrora estava no topo do mundo civilizado.
Até mesmo o Brasil, cujo crescimento nesses 25 anos foi muito irregular, saiu do patamar de 9% para 11% do PIB europeu. Nem «locomotiva» da Europa faz mais verão sozinha: sim, a Alemanha que quase dominou toda a Europa nos anos 40, não consegue nem mesmo espantar os ímpetos imperialistas da Rússia.
Todo pacifista vai se perguntar: o que isso importa se o europeu vive bem e optou por uma linha de paz e diálogo. Aí é que vem a lição da Suíça, esse «insignificante» país que não se alia com ninguém para entrar em guerras, mas nunca foi ocupado por nenhuma potência bélica. O mundo toma outra conformação geográfica e vê ressurgir, como a História que se repete ao longo de séculos, os ímpetos imperialistas. Se o Império Britânico foi o último que reinou sobre o mundo, onde o sol nunca se punha em seus domínios, agora outros países querem repetir o mesmo feito.
Venezuela, Cuba, Estreito do Panamá e até a Groelândia já estão virando parte de um dos novos impérios sobre a terra. Do outro lado do mundo, dois gigantes se movimentam também. Acabou aquele discurso lindo que a paz deve reinar sobre as nações soberanas. Acabou a farsa do direito internacional como meio regulador dos interesses entre os países. A ONU é o que sempre foi: uma organização fraca entre nações unidas pela hiprocrisia. Resta saber quem sobrará sobre a terra.
Kazuo S. Koremitsu é economista com doutorado em Direito.