ARTIGO

A arte de complicar

Por Ivana Maria França de Negri |
| Tempo de leitura: 3 min

Complicar é um dom inerente e exclusivo do ser humano. Temos uma capacidade incrível de dificultar tudo o que é originalmente simples.

Os ritos da natureza são sempre iguais, há milênios: nascer, crescer, procriar e morrer. Mas o homem se perde em elucubrações, inventa, reinventa, mexe, remexe e altera todos os ciclos. Depois, não sabe como proceder diante das consequências de seus atos.

Norteados pela simplicidade, os seres da natureza vivem livremente sem precisar da nossa burocracia insana. Prevalece a ordem natural e vigora a lei do mais forte.

Os frágeis e defeituosos são reintegrados à mãe-natureza, isto é, não vingam. Mas ela vai aperfeiçoando as criaturas, dando-lhes defesas conforme a necessidade de cada espécie.

A alguns dá garras e presas, a outros, músculos e pernas fortes para correr, a outros ainda, dá asas, couraças ou escamas. Até as plantas e flores ganham suas defesas. Algumas possuem espinhos, outras exalam fortes odores com a finalidade de atrair insetos para polinização ou para repelir outros, que as destruiriam. E todos sobrevivem harmoniosamente, sem títulos de nobreza, condecorações, diplomas, celulares, atestados de saúde, certidões de nascimento, de casamento, de óbito, passaporte, CIC, RG, carteira de trabalho, cartões de banco e mil outras complicações que vão surgindo a cada dia.

Para que precisamos de tudo isso? É de importância vital? Alguém deixaria de existir se não houvesse essa papelada toda? Quanto tempo de nossas vidas passamos em filas, cartórios, no computador, no celular, momentos que poderiam ser melhor utilizados em tarefas mais nobres. E o resultado disso tudo é o estresse constante, ansiedade, estados depressivos e a morosidade na coisa pública, já que tudo necessita de atestados, xerox, reconhecimento de firmas, autenticações etc. Tempo precioso desperdiçado, horas perdidas, dias, meses e até anos que se escoam inutilmente por causa de leis absurdas. Uma vez vi uma notícia de um homem lutando na justiça para provar que estava vivo. Um homônimo havia falecido e ele não conseguia nem arranjar emprego porque tudo esbarrava no tal atestado de óbito do outro. Legalmente, ele estava morto. E tinha que provar que estava vivo!

Leonardo da Vinci dizia que “a simplicidade é o último grau da sofisticação”. O anseio pela simplicidade está voltando porque ninguém aguenta mais tanta cobrança, tanta burocracia, tantas complicações inúteis. Complicar é fácil, simplificar é que se tornou difícil.

Quando crianças, nas aulas de catecismo, líamos o Gênesis: “No princípio, Deus criou o céu e a terra. Depois fez a luz, as águas, o verde, os animais e o homem. E viu que tudo era bom...” Pena que nós não enxergamos mais a verdadeira essência das coisas e nos perdemos nessa selva de banalidades e obrigações.

Ao ser humano, espécime de corpo muito frágil, Deus concedeu o dom da inteligência para que criasse suas próprias defesas. Dotado de livre arbítrio, o homem baniu a simplicidade da sua vida e foi se sofisticando cada vez mais. Mas, ao abolir a simplicidade inicial, criou verdadeiras armadilhas para si próprio.

Só que agora, não sabe como se safar delas…

Ivana Maria França de Negri é escritora.

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