Recentemente, alguém perguntou – talvez, perguntando-se – porque amar Piracicaba. A reação do outro foi de surpresa: “Como não amar Piracicaba?” Pois, a explicação estava no secular pensamento: “Ninguém ama aquilo que não conhece”. Logo, apenas não ama Piracicaba aquele que não a conhece. E não se trata de conhecimento no sentido filosófico, científico. Mas, saber do que ou de quem se trata, de ter, pelo menos, ideia daquilo que é, de onde está, de uma história de que faz parte.
Encantador, o versejar de Fernando Pessoa: “... o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia/Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.”
Deveria ser-nos exemplar. Para também cantarmos que “nem o Nilo, nem o Amazonas são mais belos do que o rio que corre pela aldeia de Piracicaba. Porque o Nilo e o Amazonas não são o rio que corre em nossa aldeia”.
Vivemos sob a magia do rio Piracicaba, que nos impregna a alma. Conforme ele se apresente – ora pujante, caudaloso; ora frágil, quase choroso – assim, também, ficamos. Rindo, quando ele ri; triste, quando o rio entristece. Compartilhamos o espírito do rio, espírito do lugar. Ao início da notável navegação fluvial nos 1800, foi quando se instalou o centro de uma história sem fim: a Rua do Porto.
Permito-me dizer, sem vaidade, mas com orgulho, alegria e rendição de graças: neste 2026, chego aos meus 70 anos de jornalismo em nossa terra. Sete décadas!
Cantei belezas nossas e chorei por feiuras. Conheci alegrias vivificantes, mas, também, tristezas desalentadoras. De tudo o já visto, há que se temer repetições. Amar Piracicaba tão natural é, tão espontâneo quanto o respirar. Amar o rio, cuidar, louvar traduz uma devoção. E o espaço de nossa “ecclesia” cultural e profundamente humana é a Rua do Porto. Ali, está a pia batismal de nosso povo.
Recorro, pois, a essa longevidade jornalística para assegurar-me do direito a e dever do questionamento. É do interesse público. Pois, o Executivo atual pôs-se – por si mesmo – sujeito a dúvidas. E, também, a inquietações com esse estranho projeto em relação à nossa Beira-Rio, dando – à rua e região – o nome de “Vila do Porto”. Por que agora e tão de repente? Num ano que já se apresenta com graves dificuldades mundiais e de preocupantes eleições em nível nacional? E o Projeto Beira Rio que tanto custou ao município? Por que não atualizar o trabalho admirável comandado pelo antropólogo urbano Arlindo Stefani, na administração do prefeito José Machado? Por que inventar, se a Prefeitura já tem até rabiscos sugeridos pelo notável Oscar Niemeyer, no governo de João Herrmann Neto?
O nome Rua do Porto chega-nos desde o século 19. Tratava-se, até então, da Rua da Praia. O que pretende o sr. Prefeito com uma “Vila do Porto”? A quem a Prefeitura está servindo? Há recursos orçamentários? É questão prioritária? E nossos cada vez mais graves problemas sociais, em especial quanto à infância e juventude? São plenamente justificáveis e compreensíveis as dúvidas, os receios. Trata-se de responsabilidade também profissional face a essa nova ameaça de profanação do lugar sagrado.
Nessa hora aflitiva, ressoa a sabedoria da raposa, em “O Pequeno Príncipe”, de Saint-Exupéry: “O essencial é invisível aos olhos.” É natural, pois, não se enxergue qual é o essencial desse projeto. Uma advertência também centenária, no entanto, chega à razão, na obra do cientista político Harold Lasswell: “Política: Quem
Ganha o Quê, Quando, Como”.
No projeto do sr. Prefeito, quem ganha o quê? Quando? Como?
Cecílio Elias Netto é jornalista e escritor.