ARTIGO

Maldades das carochinhas

Por Cecílio Elias Netto |
| Tempo de leitura: 3 min

Coisas estranhas, muitas, nessa nossa Língua que, segundo Bilac, é a “última flor do Lácio, inculta e bela”. Lembrando uma, apenas uma delas: reconhece-se a palavra carochinha como velhinha contadora de histórias, também uma bruxa. Considera-se seja diminutivo de carocha, palavra que –com muitos significados – acolhe, também e ainda, o de feiticeira. Mas não há o masculino, “carochinho”, supondo-se, assim ou talvez, que velhinhos não tenham histórias para contar. No entanto, registra-se o carocho, referindo-se ao diabo e – talvez, sintomaticamente – ao genital masculino.

Apesar de estranhezas linguísticas, as carochinhas encantaram a então criança que, mesmo agora, ainda se lembra das velhas histórias. Foi um fascínio imediato, num misto de horror e de alívio conforme o andamento e o epílogo de cada narrativa. Era a mamãe dele que as lhe contava. Sempre à hora de dormir e após a recitação da Ave-Maria. Há mais de 80 anos! No entanto – reconhecendo que, realmente, tudo se repete – lá se foi ele, tornando-se pai, a contar as mesmas fantasias a seus filhos.

Mas... Seriam mesmo fantasias? Ou as carochinhas sabiam muito mais da vida do que imaginamos? Um “Lobo Mau”, quem já não se viu diante de algum? Ou de vários? E, por quantas vezes, não fomos ora cigarra, ora formiga? Que jovenzinha não sonhava – ou ainda sonha? – com seu príncipe encantado, mesmo num tempo materialista que despreza ilusões, desejos e até mesmo cortesias? Ah! a Cinderela, a Bela Adormecida, o Pequeno Polegar, Chapeuzinho Vermelho, o Gato de Botas...

Eram tidos como contos, fábulas, narrativas que pretendiam transmitir lições morais, com a vitória final dos injustiçados, dos bons fustigados pelos maus, do responsável diante da irresponsabilidade alheia. A bela e folgazã cigarra, zombeteira da operosa formiga, termina lamentavelmente os seus dias. E a formiguinha torna-se exemplo de valer a pena trabalhar e produzir. Porém... Mais aceitável e compreensível não seria – começando pelos principais narradores, Esopo e La Fontaine – se a formiguinha trabalhasse menos e se divertisse mais? E se a cigarra menos folgazã fosse, pondo-se a trabalhar pelo menos razoavelmente?

Psicólogos, sociólogos, curiosos, especialistas – multidões já se puseram a estudar o modelo objetivamente educacional das carochinhas. Pareceu-lhes clara e nítida a intenção de, ainda outra vez, notabilizar o sofrimento, o sacrifício, o medo como condições imperiosas para merecer o bem e o bom. Pergunta-se, ainda hoje, se simples coincidência com determinações de cunho religioso. Ou reforço para tornarmo-nos bonzinhos, obedientes e, então, “sermos felizes para sempre”. Como, por exemplo, a Cinderela – tão judiada pela madrasta – mas, por fim, premiada com o seu Príncipe Encantado.

A geração deste articulista terá sido, talvez, a última em que rigor, severidade, medo de castigos fizeram parte do ensino e, muitas vezes, da educação familiar.

Professoras – especialmente elas – pareciam treinadas para se mostrarem más. E alguns de seus colegas masculinos tornavam-se odiosos. Era um sistema com um método repressivo. Mas incrivelmente aceito por todos, crédulos também numa única explicação: “É para o bem dos alunos”.

Ainda atualmente, mata-se em nome de Deus; pune-se em nome do bem; fazem-se guerras em nome da paz; premia-se a submissão, punindo-se a discussão.

Logo – fosse um carochinho – este articulista teria a contar apenas o que já foi contado: os bonzinhos, os obedientes serão, ao final da ficção, premiados. A eles, o “reino dos céus”. Mas não se sabe onde. Nem como. Ou quando.

Cecílio Elias Netto é jornalista e escritor.

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