O professor Roberto Arruda de Souza Lima, coordenador do grupo Equonomia da Esalq/USP (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz), em Piracicaba, lidera um grupo de pesquisadores de universidades públicas contrários à legalidade de abate de jumentos no Brasil.
O Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF1) reconheceu em dezembro a legalidade do abate do animal em nosso país. Desde então, um grupo de especialistas tem se posicionado contrário a essa decisão.
Na última semana, os pesquisadores divulgaram carta aberta defendendo a suspensão da prática e a revisão do entendimento judicial com base em dados econômicos, ambientais e sanitários.
O documento é assinado por docentes e pesquisadores vinculados a instituições como Universidade de São Paulo (USP), Universidade Federal da Bahia (UFBA), Universidade Federal de Alagoas (UFAL) e Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB).
“O avanço do abate de jumentos está diretamente ligado à crescente demanda chinesa pelo ejiao, produto derivado do colágeno presente na pele desses animais. O rápido crescimento econômico da China ampliou o mercado consumidor interno e pressionou fortemente a demanda por essa matéria-prima animal. A dependência da captura de animais e ausência de cadeia produtiva, tem levado a população de jumentos ao colapso”, explica, em Carta Aberta, os pesquisadores.
O grupo sustenta que o abate de jumentos não apresenta viabilidade econômica estruturada e pode comprometer a sobrevivência do jumento nordestino. A principal referência técnica citada é o estudo “Viabilidade Econômica do Abate de Jumentos na Bahia”, conduzido pelo professor da Esalq/USP, que é engenheiro Agrônomo e doutor em economia aplicada.
Segundo o levantamento, não há modelo produtivo consolidado que sustente a criação de jumentos para abate em escala comercial. “A exploração de jumentos para abate ocorre de forma predatória, sem maiores regulamentações ou fiscalização em todo o processo”, diz o Souza Lima ao JP.
“A criação para abate é insustentável por diversas razões, entre elas a baixa taxa de conversão de alimentos em carne e o longo período entre parições (mais de ano de gestação e intervalo de 4 meses entre parir e nova prenhez). O transporte até o local de abate tem disseminado doenças e relatos de ausência de bem-estar são frequentes. Adicionalmente, a dificuldade de identificar a origem do animal elevou a quantidade de furtos de jumentos”, complementa.
O professor explicou ainda que o “abate do jumento nordestino tem sido com objetivo de extrair a pele, a carne é secundária”, afirma. Ele também mostrou preocupação com o futuro da espécie, pois a “velocidade do abate é muito superior à taxa de reposição.”
Dados citados na carta, com base na Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), no Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e no sistema Agrostat, indicam que a população de jumentos no Brasil caiu 94% entre 1996 e 2024. Para os signatários, esse recuo evidencia pressão crescente sobre a espécie.
Além da questão ambiental, o estudo da Esalq/USP indica que a participação do setor nas exportações brasileiras é inferior a 0,000003% do total. Segundo a análise, municípios com frigoríficos autorizados, como Amargosa (BA), não registraram crescimento econômico significativo nem aumento consistente na arrecadação tributária durante o período de operação.
O pesquisador da Esalq ponderou, no entanto, que “não se pode confundir os problemas enfrentados pelo abate de jumento voltado para o mercado de ejiao e o abate de equídeos realizado por frigoríficos mais tradicionais, que historicamente têm exercido suas atividades de forma responsável.”
AÇÕES
Souza Lima espera que a decisão do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF1) seja revertida com brevidade. Para isso, diversas ações jurídicas vêm sendo realizadas, com destaque para atuação da Donkey Sanctuary e ONGs voltadas para a causa.
Na carta, o grupo solicita a suspensão imediata do abate de jumentos em todo o território nacional, o reconhecimento do jumento nordestino como patrimônio genético e cultural e a formulação de políticas públicas voltadas à conservação da espécie.
Animal faz parte da cultura nordestina
O jumento nordestino é um animal emblemático da região Nordeste do Brasil, conhecido por sua resistência e utilidade em atividades rurais, mas atualmente enfrenta riscos de extinção devido à exploração e à mecanização do campo.
O animal, também conhecido como jegue ou jerico, não é uma raça específica, mas sim um conjunto de animais que se adaptaram ao clima e às condições do Nordeste brasileiro.
Acredita-se que sua origem esteja relacionada ao cruzamento de jumentos europeus e africanos trazidos pelos colonizadores portugueses no século XVI. Esses animais foram fundamentais para o trabalho rural, sendo utilizados para montaria, tração e arado.
Historicamente, o jumento nordestino desempenhou um papel crucial na vida rural, ajudando no transporte de água, alimentos e pessoas, especialmente em áreas onde a mecanização não era viável.
Ele é considerado um símbolo da resistência do povo nordestino, frequentemente presente em músicas, cordéis e festas tradicionais. Sua presença é comparada à do camelo no deserto, devido à sua resistência e utilidade em condições adversas.
Nos últimos anos, a população de jumentos nordestinos tem diminuído drasticamente, com uma redução de cerca de 94% nas últimas três décadas. Essa queda é atribuída à mecanização do campo, que diminuiu a necessidade de animais de carga, e à exploração para a extração de peles, que são utilizadas na produção de colágeno para o mercado asiático. Atualmente, estima-se que restem menos de 100 mil jumentos no Brasil, e a falta de políticas públicas eficazes para sua proteção agrava a situação.
A conservação do jumento nordestino é considerada essencial não apenas como patrimônio genético, mas também como parte da cultura e da história do Nordeste. Especialistas alertam para a necessidade de implementar programas de proteção e manejo sustentável para evitar a extinção desse animal tão significativo.