ARTIGO

A Beleza Como Superdroga

Por Rogério Cardoso |
| Tempo de leitura: 3 min

Deixa eu te contar uma história. Recentemente li um conto “Gostando do que se Vê: Um Documentário”, de um escrito chamado Ted Chiang que imagina uma tecnologia chamada “cali”. Um pequeno ajuste neurológico capaz de impedir que as pessoas percebam beleza ou feiura nos rostos. Você continuaria enxergando olhos, nariz, boca. Mas algo desapareceria: aquela reação automática que diz “isso é bonito” ou “isso não é”.

Na Universidade de Pembleton, a cali é testada nos alunos. Alguns defendem a ideia. Dizem que seria o fim do privilégio dos bonitos. O fim do bullying. O começo de uma sociedade mais justa. Outros ficam desconfortáveis. Perguntam: se desligarmos a beleza, o que acontece com o desejo? Com a atração? Com a arte?

E então há Tamera.

Ela cresceu com a cali ativada. Seus pais queriam protegê-la dos julgamentos cruéis da adolescência. Durante anos, ela viveu num mundo sem hierarquia estética.

Até que decide desligar o dispositivo. Quando faz isso, o mundo muda de cor. Rostos passam a ter impacto. Alguns a atraem. Outros a incomodam. Ela precisa aprender a lidar com algo que antes não existia: o peso do olhar.

Quando terminei esse conto, fiquei pensando que talvez não precisemos de uma cali. Fizemos algo diferente. Transformamos a beleza na superdroga da nossa época.

Hoje, não desligamos a percepção estética. Nós a amplificamos. Filtros, harmonizações faciais, preenchimentos, procedimentos minimamente invasivos, medicamentos para emagrecer, hormônios para definir músculos e retardar o envelhecimento e mulheres e homens fortes e com corpos esculpidos aos 50 anos idade. A promessa é simples: se você melhorar a imagem, melhora a vida.

A beleza virou capital. Virou moeda social. Virou critério invisível de valor.

O problema não é cuidar da aparência. O problema é quando a imagem se torna a condição para existir. Quando o espelho deixa de refletir e passa a julgar.

Quando a tela do celular vira tribunal. Curtidas funcionam como pequenas doses de validação. E como toda droga potente, a dose precisa aumentar.

Nosso professor, que chato, qual o problema da pessoa fazer o que quiser com o corpo dela?

No conto, retirar a beleza não resolve tudo. Porque o desejo continua existindo. O ser humano não é apenas percepção visual. Ele é falta, busca, comparação.

Desligar o julgamento externo não elimina o conflito interno.

E talvez seja aí que mora o perigo atual.

Não é o botox. Não é o hormônio. Não é o procedimento em si.

É acreditar que, ao corrigir a imagem, corrigimos aquilo que sentimos faltar dentro de nós.

Mas a falta é estrutural. Ela faz parte de ser humano. Quando um ideal é alcançado, outro surge. Quando o corpo se aproxima do padrão, o padrão muda. A indústria sabe disso. Por isso a beleza é uma superdroga perfeita: ela nunca entrega saciedade definitiva.

Ted Chiang não prega uma moral. Ele nos convida a refletir. A pergunta não é se devemos abolir a beleza. A pergunta é: conseguimos olhar para alguém  ou para nós mesmos sem transformar isso em hierarquia?

Talvez maturidade não seja desligar o olhar. Talvez seja sustentar o olhar sem se perder nele.

Porque gostar do que se vê é bonito.Mas precisar disso para se sentir inteiro pode ser a armadilha mais silenciosa da nossa geração atual.E essa tecnologia não se implanta na pele. Ela se constrói por dentro.

E talvez ainda não vislumbramos o que isso poderá acarretar no futuro. Mais longevidade? Mais felicidade?  Será? Até a próxima!

Rogério Cardoso é Épersonal trainer e preparador físico, membro da Sociedade Brasileira de Personal Trainer SBPT e da World Top Trainers WTTC.

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