A Casa do Bom Menino, em Piracicaba, atende atualmente 106 crianças e adolescentes que tiveram seus direitos violados e precisaram ser afastados do convívio familiar por determinação judicial. A entidade atende também dez adultos com deficiência.
Por meio do modelo de casas-lares, do acolhimento emergencial e da residência inclusiva, a instituição atua como instrumento de proteção previsto no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), oferecendo cuidado, acompanhamento técnico e oportunidades de reconstrução de trajetórias.
Segundo o presidente da entidade, Alexandre Davi, parte dos atendidos permanece na própria sede, no bairro Nova América, enquanto a maioria vive em residências distribuídas pela cidade. “Hoje, 20 crianças e 10 adultos com deficiência residem em um espaço localizado na própria instituição, enquanto os outros 86 acolhidos vivem em casas-lares distribuídas em diversos bairros do município”, explica. O modelo de casas-lares foi adotado para substituir o antigo sistema de grandes pavilhões e permitir maior integração das crianças com a comunidade. “A casa-lar faz com que a criança utilize o posto de saúde do bairro, a escola do bairro e o transporte público, reduzindo a dependência do transporte da entidade. A ideia é que o acolhimento seja o mais parecido possível com a vida em uma casa comum”, afirma o presidente da Casa.
Abaixo, o presidente da Casa do Bom Menino, Alexandre Davi:

ACOLHIMENTO
PROVISÓRIO
O tempo de permanência de cada criança ou adolescente na instituição não é previamente determinado. O presidente explica que o acolhimento é sempre provisório. “O acolhimento ocorre por determinação judicial, como medida de proteção em situações de violação de direitos, negligência, abandono ou impossibilidade temporária de permanência no convívio familiar”, relata. De acordo com ele, a legislação estabelece limites para esse período. “Conforme o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente), o acolhimento institucional deve ser provisório e excepcional, não devendo ultrapassar 18 meses, salvo comprovada necessidade, mediante decisão judicial fundamentada”, diz. Durante esse tempo, a equipe técnica acompanha cada caso visando, sempre que possível, a reintegração familiar ou, quando isso não é viável, a inserção em família substituta.
EQUIPE MULTIPROFISSIONAL
As crianças e adolescentes acolhidos frequentam escolas da rede regular de ensino. “A formação educacional formal é responsabilidade do sistema público ou privado de ensino, mas cabe à instituição assegurar o acesso, acompanhar o desempenho escolar e promover condições adequadas para o estudo”, explica Alexandre Davi. Além da educação, o atendimento é feito por uma equipe multiprofissional. “Temos coordenador do serviço, assistentes sociais, psicólogos, educadores sociais, educador residente e uma equipe administrativa e de apoio, como nutrição, manutenção e motorista”, detalha.
A instituição também atua articulada com a rede de saúde, educação, assistência social, Conselho Tutelar e Poder Judiciário.
18 ANOS
Quando um adolescente atinge a maioridade, é iniciado um processo de desligamento planejado. “É feito um desligamento gradativo, com acompanhamento, visando garantir a transição para a vida adulta com autonomia e segurança”, afirma Davi. Sempre que possível, a reintegração familiar é priorizada. Caso contrário, o jovem é orientado para moradia independente ou programas de apoio. A entidade também administra, desde 2023, o serviço de Residência Inclusiva. “Fomos convidados a administrar 10 vagas desse serviço, destinado a jovens e adultos com deficiência, de 18 a 59 anos, que não possuem suporte familiar ou condições de autossustentação”, explica. Segundo ele, o objetivo é garantir moradia, cuidados pessoais, apoio psicossocial e inclusão social.
Abaixo, o advogado Guilherme Mônaco de Mello e o promotor Paulo Kischi:

FINANÇAS
A manutenção da Casa do Bom Menino ocorre principalmente por meio de convênios com o poder público municipal e recursos do Fumdeca (Fundo Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescent). “Esses repasses são fundamentais, mas nem sempre são suficientes para cobrir todos os custos da entidade”, afirma o presidente. Por isso, a instituição também depende de doações, campanhas solidárias, eventos e parcerias com empresas. A entidade realiza campanhas permanentes para arrecadação de recursos. “Entre as estratégias adotadas está a captação por telemarketing institucional, com o objetivo de sensibilizar a sociedade civil para a contribuição voluntária”, diz.
IMPOSTO DE RENDA
Com a proximidade do período de declaração do Imposto de Renda, o presidente reforça que a instituição está apta a receber recursos por meio da destinação fiscal. “A Casa do Bom Menino está habilitada para receber recursos do Imposto de Renda via Fumdeca, por meio de projetos regularmente cadastrados”, explica. Ele destaca que essa destinação não gera custo adicional ao contribuinte. “É uma forma importante de apoiar diretamente as ações de proteção e garantia de direitos das crianças e adolescentes atendidos pela instituição”, completa.
2026
Para este ano, a principal meta é manter e qualificar os serviços já existentes. “Nosso objetivo é garantir atendimento humanizado, proteção integral e promoção dos direitos das crianças, adolescentes e pessoas com deficiência acolhidas”, afirmae.
Entre as prioridades estão a capacitação da equipe, o fortalecimento da autonomia dos acolhidos, a ampliação de parcerias e a melhoria da estrutura física. “Também queremos fortalecer as ações de captação de recursos para garantir a sustentabilidade dos serviços”, diz. Ao final, ele reforça o compromisso institucional. “Reafirmamos nosso compromisso com a proteção integral, o respeito à dignidade e a promoção da autonomia e inclusão social das pessoas atendidas”, conclui.
REFERÊNCIA NACIONAL
O promotor de Justiça Paulo Kishi acompanha de perto a trajetória da Casa do Bom Menino há mais de 17 anos. Promotor criminal desde 1992 e atuando em Piracicaba desde 1999, ele relata que sempre teve preocupação com inclusão social e cidadania. O vínculo com a entidade começou em 2009, quando o Poder Judiciário decidiu encerrar a intervenção que mantinha sobre a instituição e precisou nomear uma nova diretoria.
Na época, o juiz da Vara da Infância e Juventude, Rogério Pierre, solicitou seu apoio para indicar nomes de confiança para compor a nova gestão. A primeira diretoria foi formada a partir dessa articulação, tendo como presidente o advogado Guilherme Mônaco de Mello. Desde então, Kishi acompanha o trabalho da entidade como voluntário.
“De lá para cá, houve uma evolução muito grande. O acolhimento das crianças e adolescentes melhorou significativamente, com implantação efetiva de acompanhamento psicológico, pedagógico e social. Hoje, a instituição atende plenamente às normas do Estatuto da Criança e do Adolescente”, afirma.
Para o promotor, a importância da Casa do Bom Menino vai além do abrigo físico. Ele destaca que a entidade cumpre papel central dentro da política de proteção integral prevista na legislação. “Não se trata apenas de oferecer abrigo, mas de garantir proteção, cuidado e reconstrução de trajetórias. São crianças e adolescentes afastados do convívio familiar por situações graves de violação de direitos”, explica.
A adoção do modelo de Casas Lares é apontada como um dos principais avanços. Segundo ele, a organização do acolhimento em unidades menores, com ambiente residencial e educadores de referência, favorece a criação de vínculos, a estabilidade emocional e o desenvolvimento saudável. “Esse formato respeita a individualidade de cada criança e permite acompanhamento técnico mais próximo e qualificado”, afirma.
Kishi também destaca a articulação da instituição com a rede pública. “O trabalho envolve acompanhamento psicológico, apoio escolar, fortalecimento dos vínculos familiares e preparação para o retorno à família de origem, quando possível, ou para a inserção em família substituta. O foco é sempre a autonomia e a dignidade”, diz.
Outro ponto ressaltado é a implantação da Residência Inclusiva, que atende pessoas com deficiência que necessitam de apoio continuado. Para ele, o serviço amplia a missão institucional. “Garante inclusão, cuidado individualizado e condições reais de desenvolvimento. É um passo relevante para aqueles que exigem proteção prolongada e atenção especializada”, avalia.
Sobre o futuro da entidade, o promotor é otimista. “Se o orçamento for mantido e ampliado de forma adequada, não tenho dúvidas de que a Casa do Bom Menino continuará sendo um modelo de referência nacional. Muitas instituições procuram a entidade para conhecer e replicar esse modelo de atendimento”, conclui.