CARMELINA DE TOLEDO

'Precisamos despertar a fantasia e nutrir a alma do ser humano’

Por Erivan Monteiro | erivan.monteiro@jpjornal.com.br
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Divulgação
“Quando terminei a história peguei o cesto do lixo e joguei os papéis para o alto. Fiz a reverência e esperei o aplauso...”
“Quando terminei a história peguei o cesto do lixo e joguei os papéis para o alto. Fiz a reverência e esperei o aplauso...”

A professora, escritora, ilustradora e arte terapeuta Carmelina de Toledo Piza é um ícone da contação de histórias em nossa cidade. Piracicabana, Carmelina começou desde cedo, ainda criança, na Rua da Glória, onde morava, no mundo do sonho e da fantasia por meio dos livros. Cresceu, se tornou educadora e hoje é uma referência na arte de entreter às pessoas, dos pequenos aos idosos, com suas personagens.

A paixão pela contação de histórias começou em 1992, quando pediu exoneração da escola onde lecionava para viver de sua oralidade. E deu tão certo que passou a viajar por São Paulo, alguns outros estados do país e chegou até o exterior com sua arte. “As histórias precisam voltar para casa com os pais, com os avós. Movimentar essa arte milenar em praças, bibliotecas, museus, hospitais. As histórias são curativas”, ensina.

Carmelina afirmou que adora um “causo”, mas também aprecia vários outros gêneros literários, como por exemplo os contos infantis e os contos de fadas, as lendas piracicabanas e as lendas indígenas e afros. “Também as histórias de brincadeiras que têm a participação do público infantil e adulto. As fábulas me encantam e a mitologia é desafiadora”, acrescenta.

Com uma plateia eclética que vai desde crianças da pré-escola até os vovôs e vovós, a professora diz que tem prazer em trabalhar com todas as idades. “Cada público é uma tapeçaria de fios e linhas em mundos que giram. Assim é com a poesia, a música, a dança e com as histórias”, afirma Carmelina. Veja, abaixo, os principais trechos da entrevista:

Como surgiu a paixão pela contação de histórias? Surgiu na infância. Quando menina, na Rua da Glória, onde morei, as crianças brincavam de cantar imitando os programas de rádio da época. Mas eu era completamente desafinada. Então, com ajuda do meu pai construímos um microfone. O pedestal era feito de cabo de vassoura e o microfone de papel amassado e papelão. Virei apresentadora, já inventava minhas histórias. Outro ponto importante para essa contadora de histórias: ser vizinha da mãe do Nhô Serra. Aos sábados à tarde e aos domingos de manhã naquela casa tinha Cururu. Eu e as crianças na rua pulando corda ou amarelinha, jogando bolinha de gude ou rodando pião, pega-pega, esconde-esconde e ouvindo Pedro Chiquito, Parafuso e Nhô Serra. O Cururu são histórias cantadas e rimadas em seus desafios.

Há quanto tempo a senhora trabalha contando histórias? Tem ideia de quantas vezes já fez essa atividade em sua vida? Tudo começou dentro da sala de aula com alunos da terceira série (hoje quarto ano). Em 1992, eu peço exoneração e viro contadora de histórias. Como aconteceu? Uma manhã, as crianças estavam no recreio, e eu na sala de aula esperava por eles. Resolvi fazer uma surpresa e peguei os papéis que eles jogavam no lixo, folhas dos cadernos. Piquei e piquei. Eles foram chegando eu continuava séria com o meu objetivo. Não falava, apenas picava os papéis. Era um burburinho. Mas foi diminuindo e diminuindo. Ouvi o silêncio. Olhei para eles e comecei: “A história que vou contar para vocês eu ouvi quando era bem pequena. É a história de uma menina que caminhava em direção ao mercado levando na mão um litro de leite..."Quando terminei a história peguei o cesto de lixo e joguei os papéis para o alto. Fiz a reverência e esperei o aplauso... Silêncio. De repente ouço:  Professora conte outra história! Conte outra vez... E foi assim que eu viajei com as histórias por tantos lugares. Uma boa parte das cidades do Estado de São Paulo. Nordeste com a alfabetização solidária. Palmas e outras cidades do Paraná, na formação de professores como contadores de histórias. E na Índia, no Congresso Internacional do Brahma Kumaris, contando a bela história “A Estrela de Laura" em espanhol.

Quais seus gêneros literários preferidos para contar uma boa história? Adoro um "causo". Mas na carruagem dourada e encantada das histórias eu tenho os contos infantis e os contos de fadas, as lendas piracicabanas e as lendas indígenas e afros, também as histórias de brincadeiras que têm a participação do público infantil e adulto. As fábulas me encantam e a mitologia é desafiadora. No caminhar com a carruagem novas histórias e novos contos aparecem. Eu encontro livros e mais livros para encantar e descobrir que "O Narrador" não morreu.

Qual seu público preferido? Difícil dizer qual é o público preferido. A criança gosta da fantasia, espera pela surpresa e o encaminhamento das histórias. O narrador vai tecendo o invisível das emoções para ela. O adolescente é o mais difícil para absolver a metáfora da história. Ele questiona achando que já é adulto e não precisa ouvir uma "historinha". Atualmente, sinto a necessidade de conversar, sim conversar com eles sobre alguns contos sufis e outros da sabedoria indiana. O adulto é interessante. Uns ouvem com os olhos e o coração e simplesmente curtem. Enquanto outros mantêm o desinteresse. Talvez, aquela história que está sendo contada traz ao nível do consciente a chave psíquica a respeito dele naquele momento. A história às vezes incomoda. Já o idoso é uma satisfação imensa. É a criança despertada no olhar do velho homem e da velha mulher. É a lembrança dos ancestrais que narraram histórias de assombração e fatos acontecidos. Cada público é uma tapeçaria de fios e linhas em mundos que giram. Assim é com a poesia, a música, a dança e com as histórias.

A senhora ainda leciona para professores? Acha que faltam contadores no mercado? Até o ano passado, eu ministrei o curso de contador de histórias na minha casa, que é o meu ateliê. Atualmente, a minha dedicação é contar histórias (pelo mundo), desenhar e ilustrar livros. Atender como arte terapeuta crianças e adultos. Provocando-os a ouvir, contar e escrever histórias. Quanto à falta de contadores de histórias no mercado, eu vejo que tem muitos profissionais nessa área. Na Internet, aqui em Piracicaba e outros lugares. Mas precisa muito mais... As histórias precisam voltar para casa com os pais, com os avós. Movimentar essa arte milenar em praças, bibliotecas, museus, hospitais. As histórias são curativas.

A internet tem tirado um pouco o prazer das pessoas por ouvir uma boa história, na sua opinião? A Internet tirou o prazer de ler um bom livro e de ouvir uma linda história. Antes o avô e a avó eram contadores de histórias. Os pais contavam histórias para criança dormir enquanto balançavam o berço. Precisamos despertar o sonho, a fantasia e nutrir a alma do ser humano. É olho no olho. É seguir o voar do pássaro encantado. É cavalgar em busca do herói e sentir medo da bruxa e do lobo. É sair do chão e entrar no mundo do "Era uma vez"...

Ouvir uma boa história causa encantamento nas pessoas. Tem alguma passagem marcante durante sua atuação, como alguém que se emocionou e chegou às lágrimas, por exemplo? As reações acontecem sempre. No meu livro "Entrou por uma porta, saiu por outra, quem quiser que conte outra" tem um momento em que eu escrevi histórias que acontecem quando eu conto histórias, por exemplo: De onde você veio? Numa tarde quente, contava a história: “Avental que o Vento Leva ", de Ana Maria Machado, quando, bem no meio da narrativa, uma criança de apenas quatro anos abriu os braços e perguntou: "de onde você veio?" Adultos e crianças pararam e olharam para mim esperando a resposta. "De onde você acha que vim?". Respondi. "Você veio das histórias ", disse a menina. É natural a emoção. As histórias são arquetípicas e provocam questões da alma humana.

Conte-nos sobre os livros que a senhora publicou... O meu primeiro livro foi a dissertação de mestrado: “Entrou por uma porta, saiu por outra, quem quiser que cobre outra". Um livro para quem quer aprender a contar histórias. Depois veio o primeiro infantil: "Caju, uma história de amor". Em seguida, escrevi um livro com dinâmicas para produzir depois das histórias: “Passa balaio trançado de sonhos e conta uma história..." O segundo infantil: "Amor sempre... sempre amor". Em parceria com Marcos Puertas Ernandes. Em 2016, lancei: "Homens e Deusas no Erótico da Mulher". Um depoimento da retirada das duas mamas pelo câncer. O infantojuvenil: "Digui, Digui Digui Passa o Ponto". É a segunda edição e a ilustração é minha. Feita com material reciclável. E o livro de colorir com poemas e ilustração da autora. "Constelações das Deusas e das Mandalas".

Contar uma boa história é uma arte. O que um bom contador de histórias precisa ter? É uma arte sim. Principalmente no momento atual que vivemos com a tecnologia. No meu livro, “Passa balaio trançado de sonhos e conta uma história..." eu elenco várias possibilidades para um narrador prender a atenção do ouvinte. Por exemplo: para iniciar uma história, você precisa chamar a atenção do público com uma introdução: "Quando eu era pequena, eu adorava ir para a casa do meu avô e da minha avó. A minha avó fazia bolinho de chuva, coava o café e dizia: "Hora da história!" E agora, eu vou contar a história que ela contou...Você conta a história que preparou. Outra coisa importante é memorizar a história. Exaltar o corpo do narrador e preservar a voz. Não esquecer de intensificar o olhar, olho no olho no ouvinte. Valorizar as mãos e respeitar a escolha da história. A imaginação da criança deve ser respeitada. Acreditar na história.

O seu legado agora, depois de todo o trabalho já realizado, é seguir contando histórias, não? Agradeço a oportunidade de contar um pouco da história dessa contadora de histórias. Vou continuar a carregar o meu balaio por onde andar. A minha sacola por onde passar. Gratidão às velhas mulheres que um dia contaram histórias.

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