ARTIGO

A cientista do Brasil que ensinou os neurônios a se reencontrarem

Por Rogério Cardoso |
| Tempo de leitura: 3 min

Existem descobertas que não acontecem em um instante. Elas acontecem em silêncio. Em anos de tentativa, de dúvida e de persistência, como Thomas Edison quando encontrou a luz. Foi assim que a cientista brasileira Tatiana Coelho de Sampaio, dentro de um laboratório na Universidade Federal do Rio de Janeiro (universidade querida na qual eu me formei), encontrou algo que parecia impossível: uma forma de ajudar o sistema nervoso a se reconstruir depois de uma lesão devastadora.

Tudo começou com uma pergunta que carregava dor e esperança ao mesmo tempo: por que o sistema nervoso consegue se regenerar no início da vida, mas perde essa capacidade depois de uma lesão na medula espinhal? Tatiana voltou seu olhar para uma proteína chamada laminina, uma molécula essencial durante o desenvolvimento embrionário, responsável por orientar o crescimento e a conexão entre neurônios. Com o tempo, essa proteína praticamente desaparece do ambiente adulto, e os neurônios lesionados deixam de encontrar o caminho de volta.

Foi então que aconteceu o achado que mudaria tudo. Em vez de usar a laminina na sua forma comum, Tatiana conseguiu reorganizá-la em uma nova estrutura tridimensional estável, chamada polilaminina. Essa nova forma funcionava como uma espécie de ponte biológica. Ela criava um ambiente que guiava os neurônios a crescer novamente, como se lembrassem o caminho que haviam perdido.

Esse trabalho foi descrito no estudo “Polylaminin, a polymeric form of laminin, promotes regeneration after spinal cord injury”, publicado na revista científica FASEB Journal, uma das mais respeitadas publicações internacionais em biologia experimental. Nesse estudo, os pesquisadores demonstraram que a polilaminina, aplicada em áreas lesionadas da medula espinhal, estimulava a regeneração neural e a reconexão entre células nervosas, permitindo a recuperação parcial de funções motoras.

Mas o que antes era apenas ciência começou a se tornar real.

Após mais de 25 anos de pesquisa, cientistas brasileiros observaram algo profundamente emocionante: animais e seres humanos que haviam perdido movimentos começaram a recuperar parte deles após o tratamento com a proteína derivada da placenta. A polilaminina ajudava o neurônio lesionado a abrir um novo caminho, restabelecendo a condução do impulso elétrico necessário para o movimento.

É difícil explicar isso sem sentir algo. Porque movimento não é apenas movimento. É autonomia. É identidade. É a capacidade de responder ao mundo. Isso é fantástico!

A polilaminina não “cura” magicamente. Ela faz algo ainda mais profundo. Ela recria o ambiente que o sistema nervoso precisa para se reorganizar. Ela lembra ao neurônio quem ele era antes da lesão. Ela reduz a inflamação, estimula o crescimento de axônios e reorganiza o microambiente celular, permitindo que sinais voltem a viajar por caminhos que pareciam destruídos.

E talvez o mais bonito seja isso: essa descoberta nasceu no Brasil. Nasceu da curiosidade persistente de uma cientista que se recusou a aceitar que a paralisia fosse o fim da história. E, além disso, lutou contra a falta de valorização da pesquisa no atual governo, já que as universidades federais continuam enfrentando dificuldades financeiras e orçamentos apertados para despesas básicas, com quedas reais e cortes ocorrendo mesmo sob esta gestão, motivados tanto por restrições fiscais quanto por decisões do Congresso. O orçamento discricionário tem sido apontado como inferior aos níveis de anos anteriores e da gestão anterior.

Hoje, a polilaminina representa uma das maiores esperanças da medicina regenerativa. Os estudos clínicos estão em andamento, avaliando segurança e eficácia, com o objetivo de transformar essa descoberta em um tratamento acessível.

Se você pensar bem, é quase como ensinar o corpo a lembrar.

Porque dentro de cada neurônio existe um mapa. E a polilaminina, silenciosamente, ajuda esse mapa a ser encontrado novamente. Ela não apenas devolve movimento. Ela devolve possibilidade. Estou entusiasmado com isso. Até a próxima.

Rogério Cardoso é personal trainer e preparador físico, membro da Sociedade Brasileira de Personal Trainer SBPT e da World Top Trainers WTTC.

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