ARTIGO

Trump não é bom nem mau, é real

Por Kazuo S. Koremitsu |
| Tempo de leitura: 3 min

Ainda causa espanto a quantidade de pessoas que chamam um líder democraticamente eleito num país com instituições fortes, de tirano ou autocrata. Emitir um julgamento de bom ou mau, em relação à determinada pessoa é, no mínimo, algo muito simplista (e maniqueísta). O que escapa à avaliação do populacho é sempre e invariavelmente a realidade apresentada. Nós brasileiros temos uma enorme dificuldade em reconhecer aquilo que nos é apresentado e ficamos paralisados nos protestos, nos julgamentos e na revolta.

O mundo não é — e nunca será — aquilo que o idealizamos. É muita ingenuidade protestar e se revoltar por aquilo que não podemos modificar. E o atual presidente americano está nessa categoria. Não é alguém para ser amado ou odiado. Longe disso. É alguém para ser temido e respeitado (não pelas suas qualidades morais, mas pelo poder que detém). Aos americanos ainda será dada a chance de destituí-lo (ou não) daqui a três anos. Aos brasileiros resta-nos conformar com nossa própria pequenez e fraqueza. Não é uma visão pessimista dos fatos, mas apenas realista. Não se escolhe lutar contra uma derrota certa.

Sábio (ou não) disse nosso próprio presidente: «eu que não sou louco de brigar com ele [Trump]!» . Outro líder que mostrou sabedoria prática foi Petro, o presidente da Colômbia: enfiou o rabo entre as pernas, engoliu todos os xingamentos e foi lá na Casa Branca fazer as pazes. Vamos deixar heroísmos para os filmes da Marvel. Não há heróis e vilões nesse mundo. A realidade não nos permite essa divisão romântica entre bons e maus, salvadores e destruidores. O que há são os interesses em jogo. E há o próprio jogo. Quem souber jogar, tem chance de ganhar.

O que Donald Trump fez foi algo novo no cenário internacional: ele provocou o incômodo, rasgou a hipocrisia. Se a placidez e o sorriso irônico bem contido do presidente chinês agrada a muitos brasileiros por evocar a calma oriental e a sabedoria de Confúcio. Não se enganem, por traz de um rostinho simpático se esconde um terrível ditador há anos controlando um partido único e condenando seus inimigos por um tribunal controlado. Trump foi o primeiro a apontar o dedo para aquilo que nos recusamos a ver: podemos confiar num sistema como o comunismo chinês?

Quando Putin invadiu (do nada) a Ucrânia, ele deu um sinal muito claro ao mundo: a época expansionista não terminou. Quem vai dar a última palavra não será o Tribunal de Haia nem a ONU, mas quem tem a arma mais forte. Outra hipocrisia desmascarada é a grandeza da Europa. A Europa sempre será o berço da cultura e da elegância, mas está longe de ser uma potência militar ou econômica. Os últimos impérios na face da terra terminaram (o otomano e o britânico) e junto com eles instaurou-se o desequilíbrio.

Mas o mundo precisa urgente de um novo equilíbrio. E Trump assumiu o ônus dessa tarefa. Desde que a Alemanha mergulhou o mundo em duas grandes guerras, justamente tentando formar um novo império e foi vergonhosamente derrotada, a extinta URSS tentou capitanear o próximo império dividindo o mundo entre o «ocidente» e o «oriente». Mas não deu certo.

Sábio é o país que souber mover as peças nesse xadrez mundial. Não adianta lutar contra os impérios, a história mostra que os impérios são inevitáveis. Mais cedo ou mais tarde, faremos parte de um. Só não sabemos ainda qual.

Kazuo S. Koremitsu é economista com doutorado em Direito.

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