ARTIGO

Aprender a ficar bem com a própria vida

Por Fabiane Fischer |
| Tempo de leitura: 3 min

Muita gente cresce acreditando que felicidade é um estado fixo, quase uma meta a ser alcançada. Como se, em algum momento, tudo fosse se organizar, os problemas acabassem e a sensação de bem-estar passasse a ser permanente. O que quase ninguém conta é que a vida não funciona assim, ela é feita de altos e baixos, dias leves e dias difíceis, e a felicidade costuma aparecer nos intervalos, não na linha de chegada.

Grande parte do sofrimento vem da cobrança excessiva, a gente se cobra para dar conta de tudo, para não errar, para estar sempre bem emocionalmente. Quando não consegue, surge a culpa, a sensação de fracasso e a ideia de que falta algo. Essa cobrança constante cansa, desgasta e cria uma insatisfação silenciosa, mesmo quando a vida está, de certa forma, andando.

Outro ponto importante é a forma como interpretamos o que acontece, muitas dores não nascem dos fatos, mas das histórias que a mente cria. Antecipamos problemas, imaginamos rejeições, revivemos erros antigos e transformamos pequenos desconfortos em grandes ameaças. Esse excesso de pensamento tira a paz e nos afasta do momento presente.

Aceitar os próprios limites é um aprendizado difícil, mas necessário. Nem todos os dias serão produtivos, animados ou inspiradores, há dias de cansaço, mau humor e desânimo, e isso não define quem somos. Entender que oscilar faz parte da experiência humana ajuda a diminuir o autojulgamento e traz mais leveza para a rotina.

A comparação também pesa muito. Olhar para a vida do outro como se fosse um padrão costuma gerar frustração, ninguém vive apenas o que mostra. Toda história tem bastidores, desafios e inseguranças que não aparecem. Cada pessoa está em uma fase diferente, com recursos emocionais distintos, e comparar caminhos quase nunca é justo.

Outro ponto essencial é a presença, quando a mente fica presa ao passado ou ansiosa com o futuro, o agora perde espaço. Estar presente não elimina os problemas, mas diminui o sofrimento desnecessário. A vida fica mais possível quando a atenção está no que é real e não no que ainda não aconteceu ou já passou.

Também existe uma responsabilidade emocional envolvida e esperar que tudo ao redor mude para então se sentir bem é uma armadilha comum. Pequenas escolhas diárias fazem diferença, como respeitar o próprio ritmo, colocar limites, descansar sem culpa e parar de se punir por aquilo que não está sob controle.

Outro aspecto importante é aprender a lidar com as emoções sem tentar anulá-las. Muitas pessoas acreditam que sentir tristeza, raiva ou medo é sinal de fraqueza, quando na verdade essas emoções fazem parte da vida. O problema não é sentir, mas lutar contra o que se sente e quando a gente permite que a emoção exista, sem julgamento, ela tende a passar com mais facilidade.

A gentileza consigo mesmo é um exercício diário, falar consigo de forma mais respeitosa, reconhecer pequenos avanços e aceitar imperfeições muda completamente a relação com a própria vida. Pequenas vitórias também contam, mesmo aquelas que ninguém vê ou valoriza de fora.

Felicidade não é ausência de dor, ela convive com frustrações, perdas e incertezas. A diferença está em não transformar cada momento difícil em identidade. Sentir tristeza não faz alguém triste para sempre e emoções passam, mesmo quando parecem intensas.

Além disso, é importante lembrar que aprender a viver melhor é um processo contínuo e não acontece de uma vez só. A cada dia, pequenas escolhas, pequenas pausas e pequenas mudanças vão construindo uma relação mais leve com a própria vida.

No fim, aprender a ficar bem com a própria vida é suavizar o olhar sobre si, é diminuir a rigidez, aumentar a compreensão e permitir-se viver com mais gentileza. A felicidade mora menos na perfeição e mais na aceitação do que é possível hoje, com o que se tem e com quem se é agora.

Com carinho, Fabiane Fischer.

Fabiane Fischer é especialista na recuperação de dependentes químicos, abusos e compulsões.

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