ARTIGO

Educação em Sexualidade como Prática de Saúde Pública (3/3)

Por Luiz Xavier |
| Tempo de leitura: 3 min

Apesar da evidente necessidade, a implementação de programas de educação sexual nas escolas enfrenta fortes resistências sociais e institucionais. Luiz Xavier relatou que, mesmo após apresentar projetos detalhados e elogiados por diretores e coordenadores pedagógicos em Piracicaba, muitas instituições recusavam sua aplicação por medo de reações negativas de pais — especialmente em escolas particulares, onde há preocupação com a retenção de alunos.

Essa postura reflete um paradoxo preocupante: valoriza-se a prevenção, mas evita-se sua prática. Como ironizou Xavier: “Se você não quer pagar o preço da prevenção hoje, pagará o da remediação amanhã.” A falta de educação sexual contínua nas escolas — que deveria ser transversal, presente em todos os anos letivos — deixa lacunas que serão preenchidas, muitas vezes, por fontes não confiáveis ou experiências traumáticas.

Além disso, o programa trouxe à tona um fenômeno socialmente danoso: o excesso de precaução de pais, especialmente homens, em demonstrar afeto físico com seus filhos — como colo, abraços ou carinhos — devido ao medo de serem mal interpretados ou acusados de abuso. Esse comportamento, impulsionado por episódios de fofocas infundadas (como o caso de uma escola em São Paulo, mencionado no diálogo), acaba privando as crianças de vínculos afetivos essenciais e reforça uma cultura de desconfiança generalizada.

Educação Sexual Contínua: Uma Necessidade Estrutural

Tanto Oswaldo Rodrigues quanto Luiz Xavier e Felipe Vaz concordaram que a educação sexual não pode ser episódica. Não basta uma única palestra no 9º ano sobre camisinha ou menstruação. É preciso um currículo contínuo, progressivo e adaptado à faixa etária, que aborde desde o nome correto das partes do corpo na primeira infância até questões de identidade, afeto, relacionamentos e saúde reprodutiva na adolescência.

Essa abordagem também deve incluir os modelos relacionais observados em casa. Muitas vezes, os próprios pais não têm referências de relacionamentos saudáveis, baseados no respeito mútuo, comunicação aberta e igualdade. Por isso, a educação sexual nas escolas pode, paradoxalmente, desestabilizar dinâmicas familiares disfuncionais — e é justamente esse “risco” que gera resistência. Como observou Xavier: “Se os alunos começarem a questionar por que em casa não há respeito, afeto ou diálogo sobre sexualidade, os pais podem se sentir desafiados.”

Esse é um dos grandes dilemas: a educação sexual verdadeira não ensina apenas fatos biológicos; ela questiona valores, promove empatia e exige transformação social.

Conclusão: A Ciência, a Mídia e a Responsabilidade Coletiva

O episódio 81 do Café com Sexologia reforça que a divulgação científica em sexualidade não é um luxo, mas uma necessidade de saúde pública. Profissionais de diversas áreas — psicólogos, médicos, educadores, comunicadores, assistentes sociais — têm o dever ético de disseminar conhecimento qualificado, combatendo mitos, preconceitos e desinformação.

Além dos meios tradicionais — rádio, jornal, eventos científicos como o Congresso Internacional Multidisciplinar em Sexualidades (São Paulo, maio de 2025, organizado pelo InPaSex) —, as redes sociais, podcasts e plataformas digitais são ferramentas poderosas para alcançar audiências diversificadas. Contudo, exigem rigor, sensibilidade e clareza.

Por fim, a família, mesmo imperfeita, continua sendo o primeiro e mais importante espaço de educação sexual — não por meio de discursos dogmáticos, mas por meio de confiança, escuta ativa e disponibilidade emocional. Como disse um comentário ao vivo durante o programa: “Adultos que não querem falar sobre sexualidade são crianças deseducadas.” Reconhecer essa lacuna histórica é o primeiro passo para construir um futuro onde todas as pessoas, de todas as idades, possam viver sua sexualidade com liberdade, respeito e segurança.

Luiz Xavier é psicólogo clínico e terapeuta sexual.

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