Um dia na Rua do Porto encontrei com um leito aqui do Jornal, relatando que lê meus artigos, compartilha com os familiares, mas que ainda achava que exercícios físicos não seriam tão bons para a articulação, pois sem fazer nada já sentia dores, imagine fazendo…
Talvez você já tenha sentido isso: depois de ficar muito tempo sentado, ao levantar parece que o corpo “enferrujou”. Os joelhos reclamam, o quadril trava um pouco, os ombros ficam duros. Não é preguiça do corpo. É fisiologia. É biomecânica. É a forma delicada que suas articulações têm de pedir atenção.
As articulações vivem de movimento. A cartilagem, que é esse tecido que funciona como um amortecedor entre os ossos, não recebe sangue diretamente. Ela não tem vasos sanguíneos. Isso significa que ela depende totalmente do movimento para se nutrir. É o líquido sinovial, aquele fluido transparente dentro da articulação, que leva oxigênio, nutrientes e remove resíduos metabólicos. E ele só circula quando você se mexe sabia?
Cada passo, cada levantar da cadeira, cada alongamento suave faz esse líquido ser comprimido e liberado, como uma esponja sendo apertada e solta. É assim que a cartilagem recebe alimento. É assim que ela se mantém viva. Movimento não é só exercício. Movimento é manutenção da vida articular. Faço esta alusão para que fique mais claro. E a ciência confirma isso de forma muito bonita.
Um estudo recente publicado no Journal of Orthopaedic Translation intitulado “Exercise as an Adjuvant to Cartilage Regeneration Therapy” mostrou que o movimento mecânico controlado melhora a viscosidade do líquido sinovial, reduz processos inflamatórios articulares e estimula a regeneração da cartilagem, ajudando a preservar sua espessura ao longo do tempo. Em outras palavras: mexer o corpo ajuda literalmente a “engraxar” as articulações e a manter o amortecedor funcionando.
Mas tem outro trabalho importante com o titulo de “The Role of Lubricin, Irisin and Exercise in the Prevention and Treatment of Osteoarthritis” publicado na revsita cientifica Cartilage, que demonstrou que exercícios regulares e bem dosados estimulam as células da cartilagem (condrócitos) a produzirem mais matriz cartilaginosa, além de melhorarem o ambiente bioquímico da articulação. Isso significa menos rigidez, melhor mobilidade e mais conforto para se mover.
O que esses estudos nos dizem, de forma simples, é que repouso prolongado não é remédio para as articulações. Pelo contrário. Ficar parado demais deixa o líquido sinovial mais espesso, a cartilagem menos nutrida e o movimento cada vez mais difícil. É um ciclo silencioso: quanto menos você se mexe, mais duro fica. E quanto mais duro fica, menos vontade dá de se mexer. Espero que o Senhor Joaquim leia isso com carinho.
Mas existe outro caminho. O caminho do movimento inteligente, guiado e constante. Não estou falando de esforço exagerado. Não estou falando de dor. Estou falando de caminhar, fortalecer suavemente as pernas, mobilizar os quadris, movimentar os ombros, levantar e sentar com consciência, manter o corpo em atividade ao longo do dia. Pequenos gestos repetidos todos os dias fazem mais pelas suas articulações do que qualquer repouso prolongado.
Articulação gosta de carga leve e regular. Gosta de movimento fluido. Gosta de constância. É isso que mantém o líquido sinovial saudável, reduz inflamação e preserva a cartilagem. E talvez a parte mais bonita seja essa: seu corpo foi feito para se mover até o último dia.
Então, se eu pudesse te deixar com uma única mensagem, seria esta: não espere travar para começar a se mexer, não espere doer para cuidar.
Mover-se é o melhor investimento que você pode fazer pela longevidade das suas articulações.
E, acima de tudo, movimento é uma forma silenciosa de dizer ao seu corpo: eu ainda quero viver bem dentro de você. Até a próxima!
Rogério Cardoso é personal trainer e preparador físico, membro da Sociedade Brasileira de Personal Trainer SBPT e da World Top Trainers WTTC.