ARTIGO

Educação em Sexualidade (2/3): reflexões a partir da divulgação

Por Luiz Xavier |
| Tempo de leitura: 3 min

Seus conteúdos não se limitavam a adolescentes ou jovens adultos. Surpreendentemente, seu público mais engajado incluía avós, tios e tias — figuras familiares que buscavam orientação para lidar com as manifestações da sexualidade de filhos e netos. Esse dado revela uma demanda silenciosa, porém real: os adultos também carecem de educação sexual contínua, especialmente para exercerem seu papel de mediadores afetivos e informativos nas famílias.

A escolha por transmitir informações cientificamente embasadas foi uma constante em sua atuação. Ele ressaltou que, em um contexto de superabundância de dados na internet — onde qualquer pessoa pode se autoproclamar especialista —, torna-se crucial diferenciar opinião pessoal de conhecimento validado por pesquisa. “Passar uma informação correta, uma informação científica, naquilo que a gente estudou e pesquisou, é um ato de responsabilidade ética”, afirmou.

Os Riscos da Desinformação e a Importância da Prevenção

O “Café com Sexologia” também abordou os riscos da desinformação sobre sexualidade, especialmente entre crianças e adolescentes. Em um mundo hiperconectado, jovens acessam conteúdos sexuais com um simples toque na tela, muitas vezes sem orientação crítica ou emocional. Isso os expõe a narrativas distorcidas, práticas perigosas e normalização de relações abusivas.

Nesse cenário, a educação sexual baseada em evidências não só não estimula a precocidade sexual — como erroneamente se acredita —, mas, ao contrário, atrasa a iniciação sexual. Estudos citados no diálogo indicam que adolescentes com acesso à informação qualificada tendem a iniciar a vida sexual até dois anos mais tarde, pois compreendem melhor os riscos, sabem dizer “não” e estão mais preparados emocionalmente.

Além disso, o conhecimento corporal e a linguagem clara sobre limites e consentimento são fatores de proteção contra o abuso sexual, inclusive intrafamiliar.

Crianças que sabem nomear partes do corpo, reconhecer situações inadequadas e confiar em adultos de referência estão mais aptas a denunciar violações. “Quanto mais você fala de sexualidade, mais ensina a criança a se proteger”, enfatizou Xavier.

O Papel da Vulnerabilidade nos Relacionamentos Familiares

Um dos momentos mais tocantes da conversa foi a reflexão sobre o valor da vulnerabilidade na comunicação entre pais e filhos. Muitos adultos hesitam em discutir sexualidade com seus filhos por medo de não terem respostas, de transmitir valores errados ou de “incentivar” comportamentos precoces. Contudo, como destacou Luiz Xavier, não saber não é motivo de vergonha.

Ele propôs uma abordagem dialógica e humana: ao invés de fingir onisciência, o adulto pode dizer honestamente: “Não sei, mas vamos procurar juntos”. Esse gesto não apenas normaliza a busca por conhecimento, mas também humaniza a figura parental mostrando que pais e mães também são seres em constante aprendizado. Essa postura rompe com a idealização da “família perfeita” e cria um espaço seguro de escuta e acolhimento, fundamental para o desenvolvimento emocional saudável.

Um exemplo prático relatado por Xavier ilustra bem esse ponto. Em suas aulas de sexualidade em uma escola no início dos anos 2000, uma adolescente de cerca de 16 anos procurou-o em lágrimas, angustiada por não poder contar aos pais que já tinha vida sexual ativa. Com apoio, ela encontrou uma solução: passou a consultar a ginecologista da mãe do namorado -- com o consentimento desta última. Embora não ideal (por envolver omissão em relação à própria família), foi uma alternativa funcional e segura, fruto de um ambiente escolar que incentivou o diálogo e a responsabilidade. Esse caso demonstra que, mesmo diante de limitações, é possível criar redes de cuidado quando há abertura para a comunicação.

Luiz Xavier é psicólogo clínico e terapeuta sexual.

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