Recentemente conversando com algumas pessoas, muitas possuem a dúvida sobre o jejum intermitente. Uma delas, faz uso e relata que só teve beneficios da saúde em sua vida. Mas o que sabemos na realidade sobre o jejum intermitente? O jejum intermitente é uma conversa entre o tempo e o nosso metabolismo, uma coreografia delicada entre quando comemos e quando descansamos da comida. Ele não é apenas uma moda; é uma proposta que vem ganhando espaço nas conversas científicas e nas rotinas das pessoas porque toca exatamente no que muitos de nós buscamos: autocontrole, simplicidade, e uma nova forma de entender o nosso corpo.
Imagine que, por algumas horas do dia, seu corpo está focado em digestão e, por outras, ele volta sua atenção a processos mais profundos como regulação de açúcar no sangue, reparo celular e até metabolismo de gordura. Essa é a promessa do jejum intermitente: não apenas reduzir calorias, mas alterar o ambiente interno do organismo de forma que ele responda de maneira diferente ao alimento. Estudos mostraram que esse padrão pode resultar em perda de peso e em melhorias em marcadores metabólicos como glicemia e lipídios no sangue, embora esses efeitos muitas vezes se confundam com os de simplesmente comer menos calorias no total.
Em um recente estudo intitulado Effects of Intermittent Fasting on Health, Aging, and Disease que saiu no periódico The New England Journal of Medicine explora tanto os potenciais benefícios como os limites dessa estratégia, destacando que, quando comparado a uma dieta com redução calórica equivalente, o jejum intermitente não apresenta vantagens claras em termos de perda de peso ou melhorias metabólicas.
O charme do jejum intermitente pode estar exatamente nessa aparente simplicidade: muitas pessoas acham mais fácil “pular uma refeição” do que contar cada grama de alimento. Para alguns, isso pode significar melhores hábitos alimentares simplesmente porque o padrão impõe menor oportunidade para comer alimentos ultraprocessados e porções exageradas. Para outros, entretanto, pode aumentar a sensação de fome e a ansiedade em torno da alimentação, o que, ironicamente, pode atrapalhar mais do que ajudar.
Em um outro estudo que saiu na American Heart Association com o titulo de 8-hour time-restricted eating linked to a 91% higher risk of cardiovascular death
associa janelas alimentares muito curtas (como intervalos de 8 horas para comer e 16 horas de jejum) a um risco maior de eventos cardiovasculares. Estes estudos levantam bandeiras de precaução, mesmo que essas observações não provem causalidade definitiva. Isso nos lembra que ciência e corpo humano estão sempre em diálogo e que cada resposta pode ser tão individual quanto seu próprio ritmo de respiração.
A grande verdade é jejum intermitente não é nem vilão nem herói. Ele é uma ferramenta e, como qualquer ferramenta, sua utilidade depende de quem está usando e com que propósito. Ele pode ser útil para alguém que busca reorganizar seus hábitos alimentares e melhorar o controle de peso, desde que seja feito com atenção, supervisão e respeito aos sinais que o corpo envia. Ele pode não ser tão eficaz, ou até contraproducente, para quem lida com histórico de distúrbios alimentares, desequilíbrios hormonais ou sensibilidade glicêmica significativa.
No fim das contas, o jejum intermitente é um convite para olhar para a alimentação não apenas como uma sequência de refeições, mas como uma relação com o tempo e com o próprio corpo. E talvez, mais do que qualquer janela de alimentação, o que realmente importa seja a qualidade da comida, o respeito aos sinais internos e a gentileza com que tratamos o nosso organismo. E não esqueça de façar com a sua nutricionista ou médico antes de tentar o jejum! Até a próxima!
Rogério Cardoso é personal trainer e preparador físico, membro da Sociedade Brasileira de Personal Trainer SBPT e da World Top Trainers WTTC.