ARTIGO

Cuidados com o nosso botão

Por Walter Naime |
| Tempo de leitura: 3 min

O botão, esse redondinho aparentemente inofensivo, merece um capítulo inteiro ou talvez um volume ilustrado na história da humanidade. Acredite: ele está conosco há mais de cinco mil anos, desde o vale do Indo. Só que, naquela época, não fechava nada, não abria nada, não segurava dignidade alguma. Servia apenas de enfeite. Um botão de concha costurado na túnica era basicamente um “olha como estou na moda da Idade do Bronze”. Enquanto uns inventavam a roda e outros domavam o fogo, havia quem investisse pesado na estética do botão cenográfico. Prioridades sempre foram um tema humano.

O salto de carreira do botão só aconteceu por volta de 1400, quando deixou de ser figurante e virou protagonista. Passou de bibelô a instrumento de fechamento. Adeus ao grampo que espetava, ao alfinete traiçoeiro e ao cordão que nunca dava nó direito. O botão trouxe dignidade ao ato de se vestir. Graças a ele, o cidadão pôde frequentar missas, bailes e reuniões familiares sem o pânico constante de ver a calça escorregar no meio da Ave-Maria ou do minueto.

Mas o botão não era apenas funcional, ele também comunicava. Um botão dourado era status, um prateado sugeria disciplina, um botão faltando era sinal de pobreza, descuido ou crise existencial. Um botão caído no meio da rua era vergonha pública: alguém saiu apressado, alguém perdeu o controle da própria roupa. Nas fardas militares, além do brilho simbólico, o botão tinha função educativa. Colocado estrategicamente nos braços, impedia o soldado de limpar a boca na manga. Quem já tentou esfregar gordura no casaco cheio de botões sabe: dói, machuca e ensina.

Com a modernidade, o botão ganhou energia elétrica e resolveu mandar no mundo. Apertava-se e pronto: luz acesa, elevador subindo, máquina funcionando, rádio tocando. Era a consagração da lei do mínimo esforço. Um dedinho preguiçoso, um universo obediente. Depois veio o botão digital, e aí entramos na era do efeito dominó. Um clique e tudo acontece: abre-se a porta, toca a música, envia-se a mensagem, publica-se a opinião, decola-se o foguete. O botão ganhou currículo internacional e poder global.

Na versão digital, ele virou linguagem. Do mecânico passamos ao binário. Hoje o botão traduz afeto, paga boletos, declara amor, termina relações e manda o clássico “oi, sumido”. Uma vitória da criatividade humana, tanto mecânica quanto codificada. Mas, como tudo que evolui rápido demais, há riscos. No século 21, um botão mal apertado pode expor fotos, transferir dinheiro para a conta errada, cancelar amizades ou acionar alarmes que ninguém sabe desligar. É o lado sombrio do clique.

E fica a pergunta incômoda: vamos continuar falando com a boca ou apenas com os dedos? Porque já se escreve mais do que se conversa. O botão virou intermediário oficial entre o cérebro e o mundo, enquanto a língua, coitada, ameaça pedir aposentadoria por falta de uso.

Por isso, meus caros, cuidemos do botão. Não só o da camisa, que nos salva da indecência pública, mas o da tela, do painel e da máquina, que pode custar do CPF à paz mundial. Afinal, a humanidade sempre esteve a um simples aperto de botão de mudar a própria história.

E que fique o aviso final: um botão pode fechar a braguilha, acender a luz ou desligar o planeta. Então, antes de apertar qualquer um, respire fundo, pense duas vezes e pergunte a si mesmo: este botão é de camisa… ou de autodestruição?

Walter Naime é arquiteto-urbanista e empresário.

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