GORDO DO BARCO

‘O nosso rio é o que temos de mais importante em Piracicaba’

Por Erivan Monteiro | erivan.monteiro@jpjornal.com.br
| Tempo de leitura: 9 min
Divulgação-Mirante
‘Sou um amante do rio, tanto é que eu falo para o pessoal que nas minhas veias não corre sangue, corre água do rio’
‘Sou um amante do rio, tanto é que eu falo para o pessoal que nas minhas veias não corre sangue, corre água do rio’

O piloto de barco Luís Fernando Magossi, o Gordo do Barco, de 63 anos, conhece o Rio Piracicaba como poucos. “Vivendo no rio” há quase 45 anos, o Gordo do Barco é, atualmente, um dos piracicabanos mais atuantes em defesa de nosso manancial.  

Nesta entrevista ao Persona, ele conta como começou sua paixão pelo Rio Piracicaba, sua atuação como piloto de barco e seus planos como presidente do Instituto Beira-Rio, uma OnG que tem por premissa justamente ajudar nas causas do Meio Ambiente.

O Gordo do Barco conta ainda fatos inusitados e perigosos que viveu nestes anos todos no Rio Piracicaba, desde resgates de pessoas se afogando até o encontro de uma F-1000 nas águas de nosso cartão-postal.

Ele defende mais políticas voltadas para o Rio Piracicaba, como mais eventos de turismo, para que as pessoas conheçam mais esse bem precioso da cidade. “Quanto mais pessoas conhecerem o nosso rio é melhor. Porque só preserva quem conhece”. Mas Gordo do Barco afirma, com tristeza, que ainda há quem maltrate o nosso manancial. “Muitas pessoas fazem do rio uma lata do lixo”, lamenta.

Apesar dessa constatação, Gordo diz que a grande maioria ama o Rio Piracicaba. “Quando o rio está cheio, o povo fica mais feliz, vão todos à Rua do Porto passear. Ao contrário, quando o rio um ‘fiozinho’, o povo fica triste”. Veja abaixo a entrevista na íntegra.

Pra começar, conte-nos há quanto tempo você tem barco de turismo em Piracicaba e como surgiu essa paixão... Sobre o passeio de barco, é uma história ‘meio compridinha’. O barco já existe há 17 anos e meio, mas foi um sonho de mais de 20 anos para conseguir colocar o barco na Rua do Porto. Foi uma peleja muito grande porque a turma sempre tem rio de água como perigo, entendeu? Mas nós conseguimos provar que fazendo as coisas nas normas da Marinha do Brasil e com muita precaução se torna ao contrário do perigo. Eu tenho 17 anos e meio de barco e tenho 47 salvamentos de pessoas em afogamento. Não perdi nenhum até hoje. Realmente é um sonho que eu realizei fazendo passeio de barco. Apesar de acharem que é muito gostoso ficar passeando o dia inteiro, tem muitos percalços. Muitos! A gente não tem tempo de ir ao banheiro, não pode beber muita água porque não dá tempo de ir ao banheiro quando tem muito movimento. Quando não tem, beleza. É tranquilo. Existe muitos perigos com o rio baixo: bate em pedra, bate em pau, quebra hélice... E como estou com passageiros, não posso deixar que aconteça nenhum imprevisto no barco. Por isso, sempre troco a motorização minha, que é sempre nova, para não dar problema mecânico, nada... E nunca até hoje aconteceu nenhum percalço. Pode acontecer de quebrar um cabo de direção, alguma coisa assim, mas você toca até o píer, as pessoas descem e você promove a troca dessa peça. Mas é raríssimo. Em 17 anos, duas vezes aconteceu isso. Porque como o rio fica muito baixo, eu tenho de trabalhar com motor erguido e, com motor erguido, eu faço muita força no volante para poder virar para direita para a esquerda. E quando o rio está cheio, tem de tomar cuidado com outras embarcações, com lanchas, com barcos, com jet-skis, com gente com boia, então é uma vigilância frequente.

Somente você faz esse trabalho? Só eu faço. É um trabalho muito difícil porque na época de seca quase ninguém consegue navegar no rio, que fica muito baixo. Eu nunca vi na minha vida, eu tenho quase 50 anos de navegação no rio, e nunca vi o rio ficar tão baixo desse jeito como em dezembro. Isso prejudica a Piracema, é complicado... De manhã, o movimento é tranquilo, mas depois do almoço forma uma fila enorme. O pessoal vai almoçar nos restaurantes e vai depois, por volta das duas horas, andar de barco. Eu aviso a todos para ir no período da manhã porque diminui a fila.

Você comanda o Instituto Beira-Rio. Qual a função dessa entidade para o rio e para a cidade? Eu sou presidente do Instituto já há uns 12 anos e muitas coisas foram realizadas, nas quais tenho muito orgulho, com os amigos que formam o Instituto Beira-Rio. Ele é uma OnG com oito amigos, O único que perdemos foi o meu pai. Ele era um dos conselheiros e morreu há um ano e meio. E outros são amigos que gostam do rio. A gente se reúne para conversar e estamos sempre em contato, mas o que mais trabalha sou eu mesmo porque eu vivo no rio.  E nós sempre realizamos muitas coisas. Se você for pesquisar sobre o Instituto, você vai ver mais de 20 páginas de eventos que realizamos.

Vocês sempre fazem mutirão para a limpeza do Rio Piracicaba. Como se dá isso e quem pode participar? Sempre acontece isso, realmente. Tem o pessoal do Defensores do Rio Piracicaba, tem o pessoal do SOS Rio Piracicaba, tem o pessoal da Aperp... São várias comunidades de amantes do Rio Piracicaba que sempre promovem limpezas do Rio Piracicaba. Tem a Maura, do Pira no Plogging, tem também a Ascapi, com o Chicão Bike, Remo Piracicaba, Prefeitura de Piracicaba, entre outros, que não medem esforço p ajudar nosso Rio. Tem bastante gente que faz a limpeza de rio, o arrastão ecológico. Se eu esqueci de alguém, que me desculpe... Agora, haverá dois eventos muito famosos em Piracicaba. O Passeio de Barco, que voltou, acho que no dia 31 de janeiro, daqui até o Tamanduá. Em fevereiro, tem o passeio de Caiaque. Estão sendo esperados 700 caiaques e canoas a remo. Tem ainda o passeio de boia... Isso é o que movimenta o nosso rio. Quanto mais pessoas conhecerem o nosso rio é melhor. Porque só preserva quem conhece.

Nesses mutirões, quais as coisas mais inusitadas que vocês recolheram? As coisas mais inusitadas são sofás, quadros de motos... Uma vez, quando eu fiz uma pesquisa lá para cima do paredão vermelho, eu achei uma caminhonete F-1000 dentro da água. Os caras assaltaram e jogaram a caminhonete dentro da água. Ficou somente aparecendo um pedacinho do para-choque dela. Eu chamei a polícia e fizeram a retirada. Mas muita coisa inusitada... muitas pessoas fazem o rio como lata de lixo e a gente faz essa retirada. Havia um pneu de uma máquina da Caterpillar muito grande, uma vez. Nós precisamos de um caminhão e uma máquina. Quem nos ajudou na época foi o pessoal da prefeitura e o pessoal e Ecoterra. Ele ficava bem em frente ao restaurante Dezoitinho e levamos umas quatro, cinco horas para remover esse pneu que já estava há mais de 20 anos no rio.  

E qual foi o maior volume em tonelada? Há uns 12, 13 anos, quando retiramos 6 toneladas. A prefeitura enviou uma máquina e a Ecoterra enviou outra máquina. A gente ia recolhendo e colocando em alguns pontos, porque não dá para transportar tudo nos barcos pequenos. E eles faziam essa coleta a colocavam no caminhão.  

Você é um amante e um protetor do Rio Piracicaba. Como é essa relação? Eu sou um amante do rio, tanto é que eu falo para o pessoal que nas minhas veias não corre sangue, corre água do rio.

O Rio Piracicaba é o cartão-postal da cidade. Para você, que vive no rio, como é isso? O Rio Piracicaba é um dos rios mais famosos do Brasil, com o Amazonas e o Rio Tietê. É um dos mais famosos, apesar de tudo que acontece. No domingo (4), pularam uns três, quatro dourados no barco, para você vê que a vida está aí. Precisa melhorar, mas a vida está aí se recompondo. O Rio Piracicaba é o nosso cartão-postal. São pouquíssimas cidades que têm o rio que corta no meio. Um rio tão lindo desse, com tanta vida. É o maior patrimônio da cidade.

Já pensou em se candidatar a vereador, afinal você em uma causa muito importante que é a defesa de nosso rio... Eu tentei uma vez, por insistência de dois amigos, mas não fiz um trabalho que deveria. Mas eu acabei me arrependendo depois de ter sido candidato. Porque sem ser vereador, eu consigo trabalhar muito mais do que um vereador lá dentro. Eu penso assim, o Gordo.

Acredita que o Rio Piracicaba deveria ser melhor cuidado pelo Poder Público e pela população em geral? Eu acho que deixa a desejar sim. Acho que deveria ser feito um serviço mais atuante. É um serviço difícil, não é fácil, porque não depende somente da gente. Em um estalar de dedo você aumenta o nível do rio? Não é assim... A gente depende do Sistema Cantareira. Agora, em 2027, a gente vai ter a renovação da outorga. E eles querem diminuir mais a devolução da água para o Rio Piracicaba. Então, o Poder Legislativo deveria fazer um trabalho bem-feito, com o apoio e com a força do Executivo e com o abraço da população para não deixarem tirar mais água do Rio Piracicaba e consequentemente condenar essa vida aquática à morte. E bater de frente. Nós temos o Ministério Público que nos ajuda tanto com respeito à poluição e a eventos negativos que acontecem no Rio Piracicaba. Darei sempre os parabéns a eles. O pessoal trabalha muito, trabalha incessantemente em prol do Rio Piracicaba. Mais ainda o Poder Público deveria abraçar mais a causa, Não é fácil, mas poderia ser melhor.      

Qual a sua expectativa para o Turismo local? O que falta para a cidade alavancar ainda mais nesta área? Eu estou bastante confiante com essa nova gestão da prefeitura. A secretária de Turismo (Clarissa Campos Quiararia) é muito competente. Eu a conheço de alguns anos. Ela trabalhou muito bem em São Pedro e se Deus quiser vai melhorar bastante. Vai melhorar muito com a revitalização da Rua do Porto, por exemplo. Estou bem confiante e abraçando a causa.

Uma mensagem final e um conselho para as pessoas se aliarem à essa corrente do bem em proteção ao nosso manancial... A mensagem é que o nosso rio é o que temos de mais importante em Piracicaba. Juntamente com o povo. O povo piracicabano é receptivo, é alegre e está sempre ligado ao Rio Piracicaba. Quando o rio está cheio, o povo fica mais feliz, vão todos à Rua do Porto passear. Ao contrário, quando o rio um ‘fiozinho’, o povo fica triste. E não é um conselho, é um pedido: que todos abracem a causa do rio. Nós precisamos de cada vez mais adeptos ao Meio Ambiente e ao Rio Piracicaba.

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