ARTIGO

Lobos com pele de cordeiro; a ditadura travestida de democracia

Por Walter Naime |
| Tempo de leitura: 3 min

Na política, todo mundo aparece bem arrumado, com sorriso no rosto e discurso bonito. Em tempo de eleição, então, vira festa: bandeira balançando, musiquinha grudenta e promessa pra todo lado, como se fosse feira livre. O problema é que nem todo mundo que fala em democracia acredita nela de verdade. Tem gente que se veste de democrata só pra entrar no baile. Por baixo do terno, esconde um autoritarismo prontinho pra sair. Isso é a tal da ditadura travestida de democracia.

Ditadura, falando claro, é poder concentrado. Um manda, o resto obedece. Quem critica vira inimigo, a imprensa incomoda, a justiça atrapalha. Tudo é resolvido na base da força, do medo ou da ameaça. Já a democracia nasceu lá na Grécia Antiga, em Atenas, como governo do povo. Não é perfeita, nunca foi. É lenta, barulhenta, cheia de briga. Mas tem algo precioso: direito de falar, escolher, errar e trocar quem governa.

A história mostra vários governos que chegaram pelo voto e, depois de eleitos, começaram a desmontar o próprio sistema que os colocou lá. Atacam tribunais, desacreditam eleições, xingam jornalistas e dividem o povo entre “nós” e “eles”. Isso não acontece num lugar só, nem numa época só. Muda o país, muda o discurso, mas o cheiro de autoritarismo é o mesmo.

Democracia tem defeitos, sim. Dá trabalho, exige conversa, acordo e paciência. Ditadura parece mais “eficiente”, mais rápida. Só que essa rapidez cobra caro: liberdade some, injustiça cresce e o povo paga a conta. Quando a sociedade troca debate por obediência, sempre perde.

O tal “travestimento” político é isso: esconder intenções autoritárias com roupa democrática. E é importante dizer: travesti, como expressão social, cultural e artística, tem papel legítimo e respeitável. Usa a performance pra se expressar, questionar e revelar verdades. Já o travesti político faz o contrário: usa o teatro pra enganar. Muda o discurso conforme o público, fala uma coisa hoje, outra amanhã, promete tudo e explica nada.

Antes da eleição, fala em união e respeito. Depois de eleito, governa pelo conflito. Antes, diz que vai respeitar regras. Depois, tenta dobrá-las. Pra perceber isso, não adianta ouvir só o discurso bonito. Tem que observar atitudes: quem ele ataca, quem tenta calar, quais instituições despreza e quais direitos trata como detalhe.

Analisar esses discursos exige atenção e memória. O alerta é simples: escolhas erradas em eleições que parecem democráticas podem abrir caminho para o autoritarismo. A fábula de Esopo explica bem: o lobo vestiu pele de cordeiro, fez voz mansa e só mostrou os dentes quando já estava no meio do rebanho.

Isso pode ser combatido. Como? Com educação política, imprensa livre, instituições fortes e participação da sociedade. A máscara cai quando o povo para de procurar salvador da pátria e começa a cobrar coerência entre fala e ação.

E afinal, de forma bem direta e sarcástica: a democracia não costuma morrer com tiro, morre com aplauso. O ditador moderno não chega de farda, chega de terno, Bíblia debaixo do braço e Constituição no bolso — só pra rasgar depois. Pede voto sorrindo, governa rosnando e ainda culpa o espelho quando a máscara cai.

No fim, o eleitor descobre que não comprou mudança, comprou gato por lebre. Era cordeiro no santinho e lobo no decreto. Por isso, antes de votar, desconfie de quem promete demais e se diz “a única salvação”. Messias não faz campanha. E quem promete o paraíso costuma começar fechando o portão.

Walter Naime é arquiteto-urbanista e empresário.

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