Tratamos, no último artigo, da poupança sistemática - um costume que nossos antepassados praticavam no seu dia-a-dia e que vem desaparecendo nas últimas décadas. Não somente passamos a desperdiçar alimentos aproveitáveis e tecidos ou papéis ainda em condições de servir, mas também objetos de uso mais duradouro tendem a se tornar descartáveis.
Antigamente, todo homem possuía a sua navalha de fazer a barba, e as navalhas, geralmente de bom aço, eram usadas a vida inteira. Às vezes eram até passadas para filhos e netos. Ainda hoje, em antiquários e em leilões de antiguidades é comum aparecerem velhas navalhas de bem mais de um século de existência, fabricadas em excelente aço de Solingen ou de Toledo, em perfeitas condições de utilização. São valorizadas como curiosas antiguidades, mas já ninguém as usa, nem mesmo os barbeiros de profissão.
Na primeira metade do século XX, generalizou-se o uso dos aparelhos de barbear abastecidos com lâminas finas trocáveis, as famosas giletes. Apareceram, pela metade do século, barbeadores elétricos, que não chegaram a se generalizar. Mais perto do final da centúria, estabeleceu-se a voga dos aparelhos de barbear inteiramente descartáveis, com corpo de plástico e laminazinha metálica; são usados uma ou duas vezes e jogados fora.
O papel também era algo precioso, que se poupava por princípio. Só se escrevia a tinta aquilo que precisava ser preservado e arquivado. Rascunhos, cálculos, meros lembretes ou apontamentos provisórios, escreviam-se a lápis, de modo que pudessem ser apagados e, assim, o papel continuasse aproveitável. As páginas em branco do verso de textos já sem serventia também eram usadas para rascunhos ou cálculos. Usava-se muito a borracha, e quando não havia borracha, apagava-se com miolo de pão.
Recordo que tomei contato muito vivo com essa realidade quando, há mais de 40 anos, fui convidado por um velho professor de matemática a organizar seus arquivos pessoais. Encontrei numerosas folhas de textos escritos, que continham no verso cálculos e equações (que para mim, jejuno em matemáticas, eram indecifráveis), sem a menor relação com o que estava escrito no anverso.
O salutar hábito de economia era generalizado em todos os ambientes, em todos os níveis sociais. Recordo ter ouvido contar que certa ocasião Winston Churchill, ainda jovem militar, recebeu de seus superiores a incumbência de elaborar um parecer. Estava-se generalizando, no exército inglês, o costume de serem reaproveitados envelopes usados. Alguns oficiais superiores viram, naquele reaproveitamento, um perigoso precedente que poderia fazer cair o nível das forças armadas britânicas e propuseram ao Alto Comando que fosse emitida uma ordem proibindo a prática. Argumentavam que os envelopes eram muito baratos e fazer economia com eles não se justificava racionalmente. Churchill foi encarregado de estudar o assunto. Depois de muita reflexão, o futuro vencedor do nazismo confirmou que a economia decorrente do reaproveitamento dos envelopes era de si insignificante, mas recomendou que se incentivasse tal reaproveitamento. Por quê? Por causa do efeito psicológico salutar que produzia na tropa o hábito da poupança, até nas menores coisas. Tinha razão.
Havia, em todos os níveis da sociedade, empiricamente, o costume de poupar, de aproveitar e de reaproveitar tudo. Nada se jogava fora sem necessidade. Mas nas últimas décadas, infelizmente, esse costume sábio e salutar deixou de ser praticado. Ocorreu, de um lado, um enorme crescimento da população; e, de outro, a industrialização se intensificou e passou a produzir produtos mais baratos, de menor qualidade, mais rapidamente perecíveis. O apelo ao consumismo desenfreado, simultaneamente, também aumentou, na mídia escrita, falada e televisiva. O resultado disso tudo é que cresceu desmedidamente, e ameaça devorar-nos como um câncer, a maldita mentalidade do descartável. Tudo hoje é descartável: objetos de uso diário, utensílios domésticos, mobília, aparelhos tecnológicos etc. etc. etc..
Tudo ficou descartável... até as afeições, os amores e os casamentos!
Armando Alexandre dos Santos é doutor na área de Filosofia e Letras, membro da Academia Piracicabana de Letras e do IHGP.