ARTIGO

A arte de se refazer

Por Fabiane Fischer |
| Tempo de leitura: 3 min

Hoje quero falar com você sobre resiliência humana. Antes de tudo, vale pensar no que ela realmente significa. Imagine uma esponja de lavar louça: você aperta, aperta, e quando solta, ela volta ao formato original. Agora pense em uma mola, que, mesmo sendo esticada, retorna ao seu estado inicial. Por outro lado, uma folha de papel, depois de amassada, dificilmente volta a ser a mesma. Essa comparação simples mostra como alguns materiais resistem à pressão e recuperam sua forma, enquanto outros se deformam com facilidade. É isso que chamamos de resiliência.

Quando falamos de resiliência humana, estamos falando da capacidade de viver momentos de pressão emocional sem perder a própria essência. É continuar sendo quem você é, mesmo diante de desafios, aprendendo a lidar com as emoções ao invés de ser engolido por elas. Quem não desenvolve essa habilidade pode acabar se frustrando com maior facilidade, reagindo de forma impulsiva ou até adoecendo emocionalmente, abrindo espaço para ansiedade, depressão, compulsões e outros comportamentos de fuga.

Mas a resiliência pode e deve ser treinada. E existem maneiras práticas de fazer isso no dia a dia.

Primeiro: olhe para o seu passado por outro ângulo, todo mundo passa por momentos difíceis, e muitos deles deixam marcas. Mas, ao revisitar esses acontecimentos com outra perspectiva, é possível perceber como eles contribuíram para o seu crescimento. Essa é a ideia de ressignificar: entender que, mesmo em situações que não foram boas, existe algo a ser aprendido e o ponto central é perceber o quanto você se desenvolveu a partir do que viveu.

Segundo: enfrente os problemas com clareza e objetividade. Quando surge um desafio, é comum querer saber de quem é a culpa, mas isso não resolve nada e o foco deve ser a solução. Pergunte-se: “O que posso fazer agora para lidar com isso?” Às vezes será preciso pedir ajuda e isso faz parte do processo. Problemas não desaparecem quando os ignoramos, mas se tornam administráveis quando olhamos para eles de frente.

Terceiro: aprenda a lidar com suas emoções e conhecer seus gatilhos permite controlar melhor suas reações. Imagine que você está dirigindo e bate o carro. Uma pessoa que não domina suas emoções talvez exploda, brigue, se descontrole e transforme um problema em dois. Já alguém emocionalmente mais organizado sente a raiva, mas respira, pensa e encontra uma solução prática. Percebe a diferença? Resiliência não é ser frio mas saber o que fazer com aquilo que você sente.

Quarto: desenvolva empatia. Empatia é se colocar no lugar do outro, entendendo como ele pensa, sente e reage. É compreender que as pessoas enxergam as situações por perspectivas diferentes e quando você aprende a considerar o ponto de vista alheio, conflitos diminuem, e sua tolerância aumenta. Isso fortalece a sua resiliência porque você passa a lidar melhor com divergências sem absorver tudo como algo pessoal.

Quinto: passe mais tempo com pessoas, a convivência amplia repertório emocional. O contato com opiniões, comportamentos e histórias diferentes ensina flexibilidade, paciência e compreensão. Relacionamentos saudáveis são uma das maiores bases da resiliência.

E, por fim: faça terapia. A terapia é uma ferramenta poderosa porque oferece clareza sobre padrões emocionais, crenças e comportamentos. Ela ajuda a desenvolver autopercepção e promove mudanças reais na forma como você lida com seus desafios.

No fundo, resiliência é olhar para os problemas com segurança e coragem. Como dizia Nietzsche, “Aquilo que não me mata, me fortalece”. A resiliência é esse fortalecimento contínuo,  um processo de aprender, se reconstruir e avançar. Não se trata apenas de suportar a dor, mas de transformá-la em movimento, consciência e evolução. É sobre se refazer sem deixar de ser você, mas voltando ainda mais forte. Com carinho, Fabiane Fischer.

Fabiane Fischer é especialista na recuperação de dependentes químicos, abusos e compulsões.

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