Em algumas cidades do interior paulista, há uma espécie rara de figura pública — um tipo que parece ter feito check-in permanente na própria biografia. Anda por aí distribuindo lembranças como quem entrega santinho de campanha fora de época. Fala dos "grandes feitos" de outrora com a empolgação de quem acredita que o mundo parou de girar no dia em que deixou o cargo.
E o mais curioso é que esse tipo de político é sempre o protagonista das próprias histórias. Tudo o que aconteceu de bom na cidade, segundo ele, foi obra de suas mãos. É quase um milagre administrativo ambulante: iluminou, calçou, construiu, reformou, salvou — tudo ele, sozinho, sem ajuda de ninguém. O tempo passa, os mandatos terminam, mas o discurso continua o mesmo. Mudam os governos, mas a vitrola é a mesma: "No meu tempo..."
O problema é que o tempo tem um defeito implacável — ele anda. E quem fica parado, por mais medalhas que exiba no peito, vira peça de museu. Política, diferente da história, não se escreve com saudade; se constrói com ação. E a cidade não é vitrine para exibir feitos antigos — é o espaço onde se constrói o futuro das pessoas, com responsabilidade e propósito, não um laboratório de experiências políticas.
Do meu lado, vindo do setor privado, aprendi algo que muita gente do poder público parece ter esquecido: resultado bom é o que se entrega hoje. Empresa que vive de glória antiga fecha as portas. E gestor que governa olhando o retrovisor leva o carro da cidade direto para o acostamento da irrelevância.
A velha política é especialista em formaturas — adora fita, faixa e foto. Inaugura o que não terminou, promete o que não sabe e depois repete o feito como quem reconta piada antiga esperando a mesma risada. Só que o público mudou. O eleitor, cansado de discurso requentado, quer ouvir menos histórias e ver mais entrega. Quer gestor, não contador de causos.
Enquanto isso, a nova política surge de forma quase silenciosa. Gente que fala simples, pensa grande e entende que liderança é servir ao munícipe, visando o bem-estar da população. Que sabe usar a tecnologia, que ouve antes de responder e que prefere uma gestão bem-feita a inaugurações apressadas feitas só por vaidade.
Essa geração de gestores — e não de "figuras públicas" — acredita que o poder não é palco, é ferramenta.
É uma política que entende que inovação não é pintar o meio-fio, é criar oportunidade. Que sabe que o orçamento público — embora leve esse nome — é fruto direto do trabalho e do imposto de cada cidadão. Ou seja: não é dinheiro do governo, é dinheiro da população, e deve ser tratado com o mesmo zelo que se tem com o próprio patrimônio. A cidade precisa ser viva, dinâmica e sustentável — não um eterno relicário das gestões passadas.
Mas é claro que, para quem se acostumou a ser o centro das atenções, essa nova forma de fazer política incomoda. A leveza parece desrespeito, o diálogo soa como ameaça e a eficiência, como provocação. Afinal, quem se acha insubstituível costuma se irritar quando o relógio continua funcionando mesmo depois que sai da parede.
A cidade, porém, não é um álbum de lembranças — é um organismo vivo, que precisa respirar o presente e planejar o futuro. E o futuro não aceita reprise.
Por isso, talvez seja hora de deixar os feitos de ontem onde eles pertencem: na memória — ou, no máximo, em uma plaquinha no hall da prefeitura. A população quer mais que histórias de glória; quer gente que acorde cedo, olhe para frente e trabalhe com o mesmo empenho que diz ter tido no passado.
Quem vive de passado é museu. E museu tem seu valor — mas serve para visita, não para gestão.
Erick Gomes é empresário, Presidente do SIMESPI e do MDB Piracicaba.