Apesar do crescimento recorde no número de empregos formais e na renda média, o Brasil enfrenta um cenário de endividamento em alta. Dados recentes revelam que 78,8 milhões de brasileiros estão inadimplentes, enquanto 8,1 milhões de CNPJs também se encontram negativados.
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Essa situação é atribuída a uma combinação de fatores, incluindo dívidas acumuladas desde o período da pandemia e a rápida elevação da taxa básica de juros (Selic), que saltou de 2% em agosto de 2020 para 15% em junho de 2025, encarecendo o custo das dívidas em atraso.
A perspectiva para 2026 indica que o cenário de endividamento pode se prolongar. Embora o Banco Central deva iniciar um ciclo de cortes na Selic, a taxa de juros é projetada para encerrar o próximo ano em cerca de 12%. Este patamar é considerado elevado e pode continuar comprometendo a concessão de crédito, a renda e possivelmente desacelerar o ritmo de contratações.
Dívida das Pessoas Físicas em ascensão
Segundo dados do Serasa, o número de pessoas inadimplentes registrou crescimento mensal em 2025. O contingente, que era de 74,6 milhões em janeiro, atingiu 78,8 milhões em agosto.
Ao longo de 2025, o número de inadimplentes apresentou a seguinte progressão (em milhões): 74,6 em janeiro, 75,0 em fevereiro, 75,7 em março, 76,6 em abril, 77,0 em maio, 77,8 em junho, 78,2 em julho e 78,8 em agosto.
Cada consumidor inadimplente deve, em média, R$ 6.267,69. O valor médio individual de cada débito é de R$ 1.578,23, indicando que cada pessoa tem cerca de quatro dívidas negativadas.
Em agosto, o "Mapa da Inadimplência" do Serasa apontou que as dívidas se concentravam nos seguintes segmentos: Bancos e cartões (27,27%), Utilities (serviços essenciais, 20,83%) e Instituições financeiras (crédito não bancário, 19,51%).
Fernando Gambaro, especialista da Serasa, observou que a proporção de dívidas em instituições financeiras dobrou, passando de 9,1% em agosto de 2020 para 19,5% no mesmo mês de 2025. Um estudo do Banco Inter indica que o comprometimento da renda familiar com dívidas (excluindo o financiamento imobiliário) está em 26,3%, um valor historicamente elevado.
Juros altos e comportamento
O economista Flávio Ataliba Barreto, pesquisador da FGV/Ibre, afirmou ao portal InfoMoney que o endividamento das famílias alcançou um novo patamar pós-pandemia, impulsionado pela alta dos juros, expansão de empréstimos não consignados e o uso recorrente do rotativo do cartão de crédito.
A taxa média de juros do rotativo apresentou a seguinte evolução nos últimos anos: 312,60% em 2020, 335,55% em 2021, 380,59% em 2022, 438,03% em 2023, 430,08% em 2024, chegando a 451,73% em agosto de 2025.
O aumento da inadimplência também está ligado à expansão de bancos digitais e cartões de crédito a partir de 2018. Barreto explica que o parcelamento reforça a percepção de que a compra é "gratuita" no momento, e muitos consumidores utilizam o limite do cartão como extensão da renda.
A proporção de famílias endividadas saltou de 58% em janeiro de 2017 para 79% atualmente, sendo que a inadimplência já atinge 30% das famílias.
O comprometimento da renda familiar impacta o Produto Interno Bruto (PIB), já que as famílias respondem por 62% do consumo no país. Se a capacidade de consumo for restrita, o crescimento econômico pode enfrentar dificuldades nos próximos anos.
Perspectivas e recomendações
Para reverter o quadro, o economista Barreto aponta a necessidade de redução dos juros e da inflação. No entanto, a incerteza fiscal do país pode dificultar a queda das taxas futuras.
A previsão é que o endividamento e a inadimplência se mantenham em níveis altos em 2026. A recomendação do especialista é que as famílias priorizem a educação financeira e a mudança de comportamento:
- Reorganizar o orçamento e identificar gastos não essenciais.
- Pagar dívidas e evitar o uso do cartão de crédito.
- Priorizar compras à vista.
- Construir uma reserva de emergência.
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Inadimplência empresarial em nível recorde
As empresas também enfrentam dificuldades de fluxo de caixa. A inadimplência de CNPJs tem batido recorde na série histórica do Serasa Experian. Em agosto de 2025, o indicador chegou a 8,1 milhões de empresas negativadas, um aumento em relação aos 7,1 milhões registrados em janeiro do mesmo ano.
A progressão de empresas inadimplentes (em milhões) em 2025 foi: 7,1 em janeiro, 7,2 em fevereiro, 7,3 em março, 7,5 em abril, 7,7 em maio, 7,8 em junho, 8,0 em julho e 8,1 em agosto.
O valor médio da dívida empresarial subiu de R$ 21,6 milhões em agosto de 2024 para R$ 24,6 milhões em agosto deste ano. Os segmentos com maior proporção de dívida são serviços (31,9%) e bancos, cartões e financeiras (23,4%).
Camila Abdelmalack, economista-chefe da Serasa Experian, explicou ao InfoMoney que a inadimplência das empresas é reflexo da desaceleração da demanda, deterioração da margem de lucro e acesso restrito ao crédito.
Para 2026, a perspectiva é de um ambiente cauteloso, com empresas investindo menos e reduzindo o ritmo de contratações, devido aos juros ainda elevados e ao ambiente eleitoral.
Micro e pequenas empresas, que representam 93% das empresas ativas, sentirão maior restrição. A orientação para elas é reforçar o controle de fluxo de caixa, renegociar dívidas e buscar a profissionalização da gestão.