Piracicaba busca fortalecer a proteção de crianças e adolescentes com o lançamento do Conexão Cidadã, uma plataforma digital desenvolvida pelo Conselho Tutelar em parceria com o Instituto Pecege e outras instituições locais. O aplicativo reúne informações sobre serviços públicos, programas voltados à infância e canais de contato direto com os Conselhos Tutelares, facilitando denúncias e agilizando atendimentos. A proposta é reduzir barreiras de comunicação e aproximar famílias, escolas e comunidade dos mecanismos de proteção disponíveis.
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A iniciativa foi apresentada na Câmara Municipal em julho, durante evento que também marcou os 35 anos do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). O Conselho destacou que a proteção integral de crianças e adolescentes depende da atuação conjunta entre poder público e sociedade civil — e que a tecnologia pode ser uma aliada nessa tarefa. A plataforma será administrada e atualizada pelo Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente (CMDCA) e já pode ser acessada gratuitamente pelo link disponibilizado ao público.
O lançamento do aplicativo acontece em um momento em que o Brasil debate intensamente a questão da adultização infantil e a exploração sexual de crianças e adolescentes. O tema ficou em alta após a divulgação do vídeo-denúncia do youtuber Felipe Bressanim, mais conhecido como Felca, que viralizou no início de agosto. Na gravação, o influenciador expôs casos envolvendo criadores de conteúdo que utilizavam a imagem de menores em situações inapropriadas e alertou sobre os impactos da adultização na formação psicológica de crianças e adolescentes. A repercussão foi imediata, mobilizou autoridades e especialistas, e abriu espaço para novos debates sobre a necessidade de regulamentação mais rígida das redes sociais.
Segundo relatório recente da SaferNet Brasil, o problema ganha contornos ainda mais graves no ambiente digital. Entre janeiro e julho de 2025, o Canal Nacional de Denúncias de Crimes Cibernéticos recebeu 49.336 notificações anônimas de abuso e exploração sexual infantil — o equivalente a 64% do total de registros no período. O relatório também aponta duas tendências preocupantes: o crescimento do uso de inteligência artificial para produzir imagens de abuso sexual sintético, e o recorde histórico de denúncias motivado pela mobilização social em torno do vídeo de Felca, que já ultrapassou 47 milhões de visualizações.
Para a psicóloga Caroline Peixe Munhoz, a infância deve ser reconhecida como um período de descobertas e de construção de habilidades fundamentais para a vida adulta. “É um direito essencial que essa fase seja protegida e que as necessidades básicas das crianças sejam atendidas. Só assim conseguimos garantir que cresçam em um ambiente seguro, tornando-se adultos confiantes e preparados”, afirmou.
Ela alerta, no entanto, que o uso desenfreado das redes sociais tem encurtado esse processo, expondo crianças a realidades incompatíveis com a idade. “A adultização pode começar de forma aparentemente inocente, mas traz sérias consequências ao desenvolvimento cognitivo, emocional e social, além de aumentar riscos como ansiedade, depressão e atrasos no aprendizado”, destacou.
Segundo Munhoz, a responsabilidade de prevenção passa também pela família. “Pais e responsáveis precisam estar atentos ao que crianças assistem, jogam ou publicam na internet. O ideal é limitar ao máximo o tempo de telas, mas acima de tudo, é fundamental conversar com a nova geração e orientá-la sobre os riscos da exposição”, orientou.