Entre as joias do patrimônio histórico de Piracicaba, compartilhado democraticamente pela população, está o nosso Mercado Municipal inaugurado em 1888, nos finais da monarquia, pelo grupo liberal republicano que atuava na Câmara Municipal. Traz a marca do trabalho insistente do vereador Dr. Manuel de Moraes Barros e do seu filho, Dr. Paulo de Moraes Barros, que elaborou o estatuto da aguardada praça de comércio. Foi construído nos arrabaldes da cidade, como sólida fortaleza, pelo engenheiro Asmussem em ponto estratégico no que seria o final da rua do Comércio. A cidade se expandia e nada mais haveria de deter o seu progresso.
Nem sempre foi assim. Piracicaba praticamente vegetou durante o período colonial e após a criação da vila, em 1822, teve de enfrentar as fortes resistências dos corcundas e conservadores que lhe tolheram o desenvolvimento. As coisas só começaram a mudar na segunda metade do século XIX quando, pela força do Agro, Piracicaba se tornou um centro socioeconômico regional, com base nos engenhos de cana de açúcar, nas plantações de café e no cultivo do algodão, sem abandonar a sua tradicional policultura e criatório. As mudanças começaram a aparecer.
A forca, com o seu sinistro cortejo de urubus, foi demolida numa noite (1853); a comunidade avançou na direção do Itapeva acima, onde os alemães fundaram o seu bairro e o casario barroco se expandiu pelas ruas da Quitanda (XV de Novembro) e de Santo Antônio (do Comércio, depois Governador Pedro de Toledo). O grande fluxo estava na rua Direita, antigo Picadão de Mato Grosso, hoje Moraes Barros, onde passavam as tropas cargueiras, os carros de bois chiadores e os cavaleiros em trânsito. A esplanada da Igreja Matriz não deixava de ser um vasto capinzal com animais pastando, a meio de escravos, caboclos de olhos indiáticos e mestiços de todos os matizes. Os grandes perigos provinham das sezões malignas que subiam do rio, das bexigas, da tuberculose e da lepra que aterrorizavam. Era preciso sanear.
A sociedade começou a se diversificar pela chegada de muita gente atraída pela agricultura, intensificando-se as relações urbanas e rurais. Por exigências do crescimento demográfico, em 1858, surgiu o primeiro mercado público de Piracicaba, iniciativa da Câmara Municipal, que liberou as casinhas onde os lavradores puderam oferecer os seus produtos para venda. Era assim em Itu, de onde procedem os nossos modelos urbanos. O lugar escolhido foi o “correr da casa do teatro, servindo-se da grande parede dos fundos”; atrás do teatro, na praça fronteira à rua dos Pescadores (Prudente de Moraes).
Os melhoramentos se sucederam. Em 1861 Piracicaba ganhou o seu Matadouro, à beira do córrego Itapeva; em 1870 edificava-se o novo teatro Santo Estevão, bem atrás da Cadeia Velha e Casa da Câmara, na esplanada, hoje praça José Bonifácio; em 1871 a grande ponte da rua Direita ruiu numa tempestade, sendo necessário construir outra, acima do Salto, obra inaugurada quatro anos depois (1875); um novo cemitério foi levado para o Bairro Alto, dando lugar à construção da Cadeia Nova no Largo da Boa Vista, hoje praça Tibiriçá; em 1877 eram inauguradas, com grandes festejos, a Ferrovia e a Estação da Ituana-Sorocabana; a iluminação pública a lampiões chegou em 1874. Em 1888, um grande acontecimento, a inauguração do Mercado Municipal, obra de vulto, construção efetuada pela Câmara Municipal, destinada a servir a população de Piracicaba, pelo futuro e sempre. Muito diferente do Mercado Municipal de Itu, obra de Ramos de Azevedo, de menor porte. Logo, os saldos líquidos começaram a engrossar o orçamento municipal, correspondendo largamente aos investimentos iniciais. Fonte de lucros, bem público, racionalizador da economia local, para uma cidade de 7.000 habitantes urbanos e 22.150 habitantes rurais. Foi um sucesso, desde a sua inauguração, e puxou o traçado urbano para os altos da rua do Comércio.
O Mercado Municipal (II)
Piracicaba parecia renascer nos finais do século XIX. Encerrava-se a política morna dos tempos da Monarquia, definindo-se os quadros republicanos que anunciavam os novos tempos, assinalados pela Educação e progresso material: o primeiro Grupo Escolar (Barão do Rio Branco) iniciado em 1884, a Escola Complementar (Sud Mennucci) funcionando em 1887, a Escola Agrícola em 1901.Novos bairros urbanos, crescimento demográfico, imigração e a cidade varando o milênio, revolucionada pelas obras de infraestrutura (os esgotos). Piracicaba viveu tempos de ufanismo pelo seu progresso nas primeiras décadas do século XX. Brilhava em Educação colocando-se imediatamente após a capital, acima de Santos e Campinas
Depois da Igreja Matriz e da Praça, o Mercado Municipal tornou-se o ponto de encontro favorito dos piracicabanos, pois ali se encontrava de tudo: animais vivos para abate, verduras, hortaliças e frutas, lojas diversas, armazéns, produtos da zona rural e importados. Uma praça de mercado a exemplo dos países adiantados, à altura das necessidades de uma cidade que se tornava importante no Estado de São Paulo. A sua arquitetura seguiu o modelo industrial da época, com tijolos à vista, o portal no centro, janelões triplos nas laterais, decorando a fachada a roda da engrenagem e os cachorros no topo. As duas alas laterais eram descobertas, guarnecidas de muros com grades e portões de entrada. É o que nos revela uma foto da década dos anos trinta, reproduzida por Spavieri. Muito interessante é a parte social sugerida na foto: vários cavaleiros e tocadores das carroças, meninos entre dez e quinze anos usando botina, terno curto e chapéu; duas meninas graciosas calçando borzeguins e vestidas de branco. Não aparece o pátio em frente, tampouco o casario da rua do Comércio (Governador), mas nos passa a ideia de como seria o Mercado Municipal, durante a Primeira República.
Em minha infância, a partir de 1940, acompanhei os meus pais que ali se abasteciam em cada domingo. Os animais ficavam na parte lateral direita, as bancas (muitas de caixotes grosseiros) se espalhavam no bloco central, onde também ficavam as lojas e os armazéns. Minha mãe comprava aviamentos de costura e rendinhas na Arca de Noé, meu pai, instrumentos de pesca nos diversos pontos. Na parte lateral da esquerda, encontravam-se muitas frutas e mais bancas. Sempre havia gente circulando e comprando, certa algaravia de moleques, muito colorido e animação. Amigos se encontrando, trocando as novidades familiares e os comentários da vida política, Getúlio Vargas e a Segunda Grande Guerra, dividindo o Ocidente entre aliados e inimigos do poderoso Eixo. Ali surgiam amizades, oportunidades de negócios, namoros e até casamentos.
Piracicaba, na primeira metade do século XX, era uma cidade de médio porte, muito pitoresca e hospitaleira, onde quase todos se conheciam pelos nomes de família. Possuía a suas elites proprietárias na lavoura, na indústria e no comércio, as primeiras grandes empresas industriais e uma classe trabalhadora, Imprensa, professores e artistas de renome, que integravam a sua Inteligência, reconhecida e admirada entre as outras cidades paulistas. A noiva da Colina também era a Pérola dos Paulistas e o Ateneu Paulista. As crianças brincavam livremente nas calçadas e as portas das residências não eram trancadas. À noite aos domingos, havia banda no coreto da Praça, mas eu me encantava com a fonte de mármore Carrara, jorrando água no tanque de peixinhos vermelhos. Piracicaba aos domingos era uma Festa. Havia cinema, futebol, passeios na Escola Agrícola, no Salto e na rua do Porto; atravessar a ponte dos Irmãos Rebouças, sobre o rio, em bonde, era uma experiência encantadora, para os moradores e os turistas. Outras duas linhas levavam à Estação da Paulista e à Escola Agrícola; só as cidades importantes possuíam esse tipo de transporte urbano.
O Mercado Municipal (III)
O Mercado Municipal era a menina dos olhos da Câmara de Vereadores, mostrando-se sempre muito limpo e bem cuidado. Era lugar de muitos odores, sabores e colorido social. As bancas dos peixes eram muito procuradas, por quem não descia à rua do Porto; pintados enormes e dourados, pescados em nosso rio, famoso pela sua fertilidade e pujança, o ano inteiro. No pátio fronteiriço não acontecia o mesmo, devido à presença dos animais e carroças procedentes da zona rural. Era proibido negociar fora do recinto, mas acontecia da parte de cavaleiros e passarinheiros. Certo domingo fui presenteada com um pequeno canário cantador, meu amiguinho e confidente, Benzinho, sempre protegido da gata Menina, os meus doces companheiros de infância.
O Mercado Municipal de Piracicaba também era uma festa. Lá pelas 10 horas de cada domingo, os meus pais desciam para a nossa casa, carregados com as pesadas cestas de taquara e os provimentos da semana. Eu me deliciava com o tempo das laranjas, das jabuticabas e das melancias, porque eram frutas sazonais, muito diferente dos dias de hoje em que existem o ano inteiro. Piracicaba mudou, o Brasil se tornou uma potência no Agro e os brasileiros tomaram consciência do seu progresso. O Mercado Municipal entrou em defasagem na década dos anos cinquenta, era preciso modernizá-lo.
Em 1959, um Prefeito de visão, homem prático e empreendedor, Luciano Guidotti, assumiu a tarefa, adequando a planta do edifício às necessidades dos tempos. As alas laterais e o centro foram transformados, as bancas obsoletas foram substituídas pelos boxes regulares e higiênicos, a circulação interna foi disciplinada pelas ruas paralelas. O pátio fronteiriço se converteu em excelente estacionamento, ponto procurado para manifestações de protestos, demandas políticas, promoções do comércio, guardando o espírito da velha Ágora ateniense. Poucas cidades possuem esse modelo de representatividade urbana que não podemos perder; faz parte do nosso modo de ser, agir e conviver democraticamente.
Hoje a situação semelhante ao passado se repete, coisas do crescimento de uma grande cidade que se converteu em sede metropolitana. O Mercado Municipal está novamente defasado à espera de uma administração que lhe devolva a adequação aos tempos atuais. É prédio tombado pelo Patrimônio Histórico, mas pode submeter-se às intervenções modernizantes, ampliar a área de trabalho, oferecer novas oportunidades à economia urbana. Os investimentos logo se ressarcirão e a praça de comércio do século XIX haverá de oferecer o que de mais moderno existe no país. Escadas rolantes darão acesso às duas alas laterais dotadas de um segundo andar e transformadas em restaurantes, pizzarias, churrascarias e área de alimentação; serviços, turismo, lojas de modas, artesanatos, padarias e mercearias. Belos vitrais e paredes de vidro vazarão das alturas para o comércio tradicional do piso antigo central e um belo passadiço unirá as duas alas. Surgirá um espaço comercial de primeira grandeza, bem no centro da cidade, enquanto o projeto inteligente preservará o visual externo das fachadas, parte da nossa Memória.
A comunidade piracicabana se impactou com o incêndio que devorou a ala esquerda do nosso Mercado Municipal, mantém-se solidaria com as vítimas, enquanto aguarda as intervenções modernizantes. Agora surge uma nova oportunidade de transformar a antiga praça de mercado do século XIX num modelo de beleza e funcionalidade, como já se faz em diversas cidades do Brasil. Um novo espaço colorido e iluminado, um ponto de encontro aos sons do gosto piracicabano, enfim, um Mercado Modelo de fazer inveja aos melhores, dinamizando a economia local, oferecendo os mais importantes serviços ao público.
Não desejamos uma reforma emergencial. Está na hora de fazer coisas grandes e pioneiras, verdadeiramente transformadoras, para uma cidade que continua crescendo, sem deixar de ser pitoresca, culta e acolhedora, em seus 258 anos. É o que esperamos, sr. Prefeito, que não se perca a oportunidade.